Yellow Flags, 2020. © Alex Katz/Artists Rights Society (ARS), New

DASARTES 98 /

ALEX KATZ

ALEX KATZ (NEW YORK, 1927) É UMA DAS FIGURAS-CHAVE DA HISTÓRIA DA ARTE AMERICANA DO SÉCULO 20 E UM PRECURSOR DA POP ART QUE CONTINUA ATIVO ATÉ HOJE. A RETROSPECTIVA NO THYSSEN-BORNEMISZA, EM MADRI, OFERECE UMA PESQUISA DE TODOS OS TEMAS HABITUAIS DO ARTISTA: SEUS RETRATOS INDIVIDUAIS, DUPLOS E EM GRUPO, JUNTAMENTE DE SUAS FLORES […]

ALEX KATZ (NEW YORK, 1927) É UMA DAS FIGURAS-CHAVE DA HISTÓRIA DA ARTE AMERICANA DO SÉCULO 20 E UM PRECURSOR DA POP ART QUE CONTINUA ATIVO ATÉ HOJE. A RETROSPECTIVA NO THYSSEN-BORNEMISZA, EM MADRI, OFERECE UMA PESQUISA DE TODOS OS TEMAS HABITUAIS DO ARTISTA: SEUS RETRATOS INDIVIDUAIS, DUPLOS E EM GRUPO, JUNTAMENTE DE SUAS FLORES CARACTERÍSTICAS E PAISAGENS ARREBATADORAS PINTADAS EM PLANOS DE FUNDO COM CORES VIVAS

 

A aparente simplicidade das pinceladas de Alex Katz pode gerar desinteresse apenas ao olhar desatento. Os grandes blocos de cor, a economia de linhas e a planicidade das imagens escondem o arrojo do audacioso pintor, que inovou a pintura da cena americana de sua época. Não é à toa que, a cada ano, cresce a atenção do circuito da arte em seus trabalhos. Aos 93 anos e considerado um dos mais célebres artistas da sua geração, Katz é representado por diversas galerias prestigiadas e suas obras, além de marcarem presença em uma longa lista de museus respeitados mundo afora – que inclui o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o Centro Georges Pompidou, o Museu Reina Sofía, o Tate Modern, entre muitos outros –, são disputadas por colecionadores de altíssimo nível.

The Red Smile, 1963. © Alex Katz/Artists Rights Society (ARS), New York.

Aos mais íntimos, Katz faz aquele tipo de pintor cujo estilo se reconhece de longe: a paleta de cores vibrantes e os planos de fundo monocromáticos reinam absolutos nas composições em larga escala. Elementos inconfundíveis que revelam um tratamento cool e atrevido da figuração. O americano de fato se liberta do rebuscamento de detalhes e conduz o espectador a um universo limpo e pouco previsível, de um jeito que lhe é bem peculiar, harmonizando o convívio entre contrastes, cortes dinâmicos e sensação de minimalismo.

Alex Katz nasceu no Brooklyn, em 1927, e se mudou no ano seguinte para o Queens. Finalizou os estudos de arte na Cooper Union, em 1949, mas é apenas depois disso, durante uma sessão de pintura ao ar livre em pleno verão, entre 1949 e 1950, na oportunidade estudando na Escola Skowhegan, no Maine, que ele encontrou seu verdadeiro propósito na pintura. A experiência é tão grandiosa e inspiradora que o fez manter por lá uma casa à beira do lago, onde há mais de 60 anos passa todos os seus verões. Pintando, claro. A energia libertadora da observação e a pintura das paisagens do Maine viram mote para a construção de um novo olhar, muito diferente de tudo que estava sendo consumido e admirado à época. É ali que percebeu com clareza que o treinamento da faculdade não seria suficiente.

Quando iniciou a carreira, o expressionismo abstrato era o “todo poderoso” da pintura americana. Mas ele não se encaixou. Corajoso, enquanto os amantes da arte estavam obcecados pelo fenômeno Jackson Pollock e pelas imagens surpreendentes geradas nos exercícios de arte abstrata, Katz permaneceu fiel à sua sensibilidade. Queria a espontaneidade, mas não estava disposto a abrir mão do desenho com desapego emocional. Na arte pop, que fez de Andy Warhol e Roy Lichtenstein reis, tampouco. Constantemente associado ao movimento, inclusive como precursor, ele sempre recusou a aproximação. Mas, de fato, a estética comercial da publicidade televisiva e dos outdoors que invade a pop art influencia diretamente a linguagem gráfica do seu trabalho.

Summer Flowers, 2018. © Alex Katz/Artists Rights Society (ARS), New York.

O esforço hercúleo de enquadrá-lo em categorias – isso não é incomum na história da arte – é absolutamente desnecessário e redutor. Katz, sem dispensar os aprendizados da formação modernista convencional, cujas referências permeiam inúmeras de suas obras ao longo dos 70 anos de carreira, encontra uma abordagem moderna própria, que, de início, fez muitos críticos “torcerem o nariz”: a pintura figurativa em escala não tradicional. E é assim que Alex Katz enterra o velho chavão da distância entre abstração e figuração, além de unir elementos pictóricos tradicionais e contemporâneos.

Independente, ousado e fiel ao que vê, segue na representação dos dois maiores gêneros que lhe despertam interesse: paisagens e retratos. Embora já tenha realizado outras experiências – com colagens, por exemplo, entre 1955 e 1959 –, é no início na década de 1960 que se percebe um refinamento do estilo que é hoje reconhecido instantaneamente. As pinturas de paisagem são tranquilas, como um convite que atrai o observador. O interesse contumaz pelo efeito da luz do sol também cede espaço a pinturas noturnas a partir de 1986. Nos retratos, Alex apresenta figuras sozinhas, em dupla ou em grupo. São retratos do efervescente cotidiano social da classe média americana ao seu redor, de Nova Iorque ao Maine.

Gold and Black II, 1993. © Alex Katz/Artists Rights Society (ARS), New York.

Um novo marco de carreira e obra se dá quando Katz conhece Ada, sua atual esposa, em 1957, especialmente no que diz respeito à maturidade no gosto pela representação da figura humana. Não é nenhuma novidade que, ao longo da história da arte, mulheres-musas permearam o imaginário masculino. Jeanne, para Modigliani. Gala, para Dalí. Ada Del Moro Katz agora entra para uma longa lista de mulheres que se transformaram em obsessões românticas nos pincéis. Estima-se que Alex Katz tenha retratado Ada por volta de 200 vezes desde que a conheceu. É ela que estampa o icônico Blue Umbrella 2, de 1972, que em 1986 serviu de capa para a maior exposição individual de pintor no Whitney Museum, em Nova Iorque, e agora promete ser a estrela na próxima mostra do museu Thyssen-Bornemisza, em Madri. É certamente um dos seus mais importantes trabalhos, justamente por apresentar o motivo de pintura revisitado ao longo de toda a carreira do americano, nas mais diversas cores e efeitos de luz.

A pintura, de impressionantes 244 cm x 366 cm, mostra a musa de Katz segurando um guarda-chuva azul em meio às gotas que escorrem por toda a composição. A bela Ada tem um olhar profundo, como se estivesse perdida em uma atmosfera misteriosa. Há algo de inquietante na maneira como parece desconectada da chuva que cai ao seu redor. Elegante, veste um casaco sofisticado e tem os cabelos envolvidos por um lenço estampado vermelho e branco, revelando o forte senso de moda presente nas obras do marido. Embora haja superfície tanto na representação da imagem atraente e glamourizada, como na estrutura plana da composição, não passa despercebida a impressão de que há algo além disso. Em 2019, uma pintura de dimensões menores desta mesma série, composta por apenas duas, foi vendida por aproximadamente US$ 4,1 milhões em um leilão da Philips, em Londres.

Abaixo: Blue Umbrella 2, 1972. © Alex Katz/Artists Rights Society (ARS), New York.

Em Looking at Art with Alex Katz, publicado em outubro de 2018, Katz lista uma enorme quantidade de artistas que o inspiraram e surpreenderam de alguma maneira: El Greco, Edward Hopper, Louise Bourgeois e Henri Matisse são alguns dos grandes nomes. Atento ao mundo ao seu redor, não menospreza qualquer assunto contemporâneo que inesperadamente o atraia, desde o vídeo de roupas íntimas que assiste dentro de um táxi à observação da longa trajetória publicitária da Coca-Cola. Aliás, são esses estalos que, em 2017 e 2018, dão origem a uma série de pinturas de mulheres de roupa íntima preta, as Calvin Klein Girls, e às famosas Coca-Cola Girls, em que moças loiras em um maiô branco, movimentando-se das mais variadas formas, são destaque sob um plano de fundo vermelho arrebatador. Ao lado da sua Ada, Katz permanece extremamente produtivo, dividindo-se entre o estúdio no Maine e um espaço no Soho, em Nova York, no mesmo edifício onde vive e trabalha desde 1968.

É preciso reposicionar Katz na história da arte ao lado dos grandes nomes do século 20. E é nesse caminho que o museu Thyssen-Bornemiza, em Madri, se prepara para sediar uma mostra inédita de 30 pinturas a óleo que chegam a cobrir paredes inteiras, agora atrasada em virtude da pandemia. O Instituto Tomie Ohtake também promoveria uma exposição individual do pintor neste segundo semestre, dentro do conjunto de exposições paralelas à 34ª Bienal de São Paulo, adiada para 2021. Em 2022, será a vez do museu Guggenheim, em Nova Iorque, que pretende realizar uma retrospectiva histórica do pintor americano, o que certamente fará decolar ainda mais o seu mercado e a legião de fãs. Aguardaremos ansiosos. Afinal, não dá para perder Alex Katz.

Ada in Spain, 2018. © Alex Katz/Artists Rights Society (ARS), New York.

 

Iasmine Souza Encarnação Novais é Procuradora do
Município de São Paulo, entusiasta da história da arte
e autora do perfil @minutodearte.

 

ALEX KATZ EM PROCESSO

POR RICARDO KUGELMAS

Fundador do Auroras, espaço de arte independente em São Paulo

Alex Katz decide a composições de suas pinturas antes mesmo de começá-las. Quando aceitei posar para ele pela primeira vez, ele me disse: “Já vi a pintura. Pode por favor vir com seu blazer rosa e chapéu?”. Tive então a oportunidade de observar seu processo de pintura, em quatro etapas. O primeiro passo é uma pequena pintura feita por observação em masonite (um material derivado da madeira). Em seguida, ainda na presença do retratado, um desenho de grafite sob papel captura os detalhes que a pinturinha não deu conta. No terceiro passo, já em seu ateliê, amplia a imagem em um cartoon feito de papel craft já no tamanho da pintura final. Por meio de uma técnica usado pelos pintores renascentistas, transfere a imagem para a tela grande, onde, em uma sessão, termina o processo.

Vivien, 2016. © Alex Katz/Artists Rights Society (ARS), New York.

 

ALEX KATZ: RETROSPECTIVE • THYSSEN-BORNEMISZA
MUSEO NACIONAL • MADRI

 

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