As pinturas de Lucia Laguna são inseparáveis do local onde foram feitas: o ateliê-casa da artista e os arredores do bairro de São Francisco Xavier, zona norte do Rio de Janeiro, que podem ser vistos pela janela de seu estúdio. Laguna começou a pintar após se aposentar como professora de Literatura Portuguesa e Latina, e frequentar os cursos livres da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, nos anos 1990. A artista buscou em sua janela, os modos de vida, construção e arquitetura do subúrbio para definir o que seria sua maneira de pintar:

© Lucia Laguna.
Eu estava tentando encontrar um caminho em que eu me sentisse segura e dissesse: vou desenvolver isso. E eu só encontrei isso quando olhei para minha janela, para as empenas dos prédios […]. Estou na frente do morro da Mangueira, deixa eu olhar isso de uma outra maneira […]. Então eu disse: isso é um assunto para mim. Esse lugar onde eu moro vai me trazer uma riqueza de coisas das quais eu me sinto capaz de falar, porque eu moro aqui. Eu sou do subúrbio.
A exposição Lucia Laguna: vizinhança reúne uma seleção de 21 obras de sua produção recente (de 2012 a 2018) e dos três principais temas trabalhados pela artista: “Jardins”, “Paisagens” e “Estúdios”. Grande parte da mostra é composta pelas “Paisagens” que Laguna realizou a partir dos bairros Mangueira, Benfica, Manguinhos, Penha, Ramos, Caju, Vila Isabel e Madureira, localizados no Rio. Por meio da memória afetiva de quem caminha por esses e anota mentalmente suas cores, Laguna propõe outro imaginário do subúrbio.

© Lucia Laguna
Nestas “Paisagens”, Laguna expande sua “vizinhança” para os espaços das instituições de arte. Com o mesmo movimento centrípeto que caracteriza seu processo, a artista absorve o espaço de seu ateliê, de seu jardim, do MASP e da coleção da instituição para a tela “Paisagem nº 114” (2018), na qual se veem diversas referências a obras do museu. Nessa pintura, um pequeno fragmento da estampa florida de “O vestido estampado” (1891), de Édouard Vuillard, confunde-se com as plantas do jardim da artista; o “Autorretrato com marreta” (1914), de José Pancetti, encontra-se com “O lenhador” (1910), de Ferdinand Hodler, ambos trabalhadores, seja da arte ou do campo; o desenho sintético de uma vista lateral do edifício feito por Lina Bo Bardi convive com o guardião chinês de 618-907 d.C., uma das primeiras esculturas que avistamos ao entrar no segundo andar do museu; distribuídas pelo quadro, “Ar – Cartilha de superlativo” (“circa” 1967-72), de Rubens Gerchman, e as pequenas figuras chorosas de “O velório da noiva” (1974), de Maria Auxiliadora – que, espalhadas, parecem interagir com outros personagens de obras e tempos distintos. Todo o quadro é, por fim, seccionado por linhas que aludem às bordas dos vidros dos cavaletes de Bo Bardi, que marcam sua presença fantasmagórica no espaço.

© Lucia Laguna.
A relação de Laguna com a história da arte também não poderia deixar de ser um assunto presente na obra realizada para o MASP. Quem visita seu ateliê percebe a extensa lista de artistas que pende de um painel de cortiça, no qual constam nomes como Paolo Uccello, Rogier van der Weyden, Kitagawa Utamaro, William Turner, Paul Cézanne, Henri Matisse, Pablo Picasso. Ao defini-los como sua “família” e viver diariamente com essas referências em sua casa-ateliê, Lucia Laguna traz esses “vizinhos” para conviver com o morro da Mangueira; com o barulho do trem que passa próximo à sua residência; com os muros de contenção nos pés da favela; com a artemísia que cresce no jardim e a trepadeira que invade o estúdio; com os passarinhos que entram livremente pela janela do estúdio – sem vidros ou grades, apenas com um toldo; com toda essa simultaneidade de camadas abertas em frestas, em eterna transformação, que é o subúrbio e é a natureza do quadro de Lucia Laguna.
Isabella Rjeille, curadora assistente, MASP


