Quantas manchas do seu colchão de infância você carrega na sua pele-memória? Quanto das portas que você atravessa diariamente entre cômodos-paisagens molda seu olhar ao girar a chave de casa? Quanto das ruas de terra, pedra ou vidro por onde você pisa diariamente impregna seu corpo de asfaltos-afetos? Talvez essas perguntas não tenham respostas-sentidos objetivos, mas, possivelmente, abrem janelas-desejos para a recepção da produção artística de Nita Monteiro, vencedora do Prêmio Garimpo 2025, promovido pela Dasartes. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela USP e pautando sua produção principalmente em assemblages, patchworks e ocupações do espaço, Nita conduz sua produção de forma a causar no espectador uma reconfiguração do prosaico a cada nova pegada deixada pelo caminho.

Aonde é preciso sonhar, 2022. © Nita Monteiro.

Achadouro, 2024-2025. © Nita Monteiro. Foto: Mauricio Froldi.
Tendo nascido em Volta Redonda e crescido em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, e passando parte de sua infância e juventude em Conservatória, o contato de Nita com as artes começou distante do universo da arte contemporânea. Foi por meio dos artesanatos feitos principalmente por mulheres, incluindo as de sua família, e das pinturas de hobby que via durante os passeios pela cidade turística em que morava que Nita se deparou pela primeira vez com obras artísticas, ainda que obras muitas vezes não reconhecidas pelo mainstream. E são esses os elementos ainda reconhecíveis em suas obras. Através do verniz da contemporaneidade, sua produção coloca dentro da sala do museu os mesmos bordados, tapeçarias e cobre-jarras com os quais se habituou durante a juventude.

Já é noite na casa do sol, 2025. © Nita Monteiro. Foto: Filipe Berndt.

Biquinha, 2025. © Nita Monteiro. Foto: Filipe Berndt.
A partir de seu olhar, fragmentos e quinquilharias do cotidiano ganham estranheza, seja pela transfiguração de local, que faz com que o espectador olhe com novos olhos o que a vista cansada já se acostumou a ignorar; seja pelo acúmulo, que faz com que, pela relação com outros objetos, cada um se transmute; ou, até mesmo, pelo gesto da artista, que molda formas e imagens inusitadas dentro daquele universo. Em Achadouro (2024-2025), Nita reúne em uma parede um sem-número de objetos, obtidos de várias formas: coletados, recebidos, herdados. A obra nos transporta do macro, pelo grande impacto visual que causa, em um primeiro encontro, ao micro, pela curiosidade que cada item, de forma isolada, é capaz de despertar pela sutileza e intimidade do encontro.

Achadouro, 2024-2025. © Nita Monteiro. Foto: Mauricio Froldi.

Achadouro, 2024-2025. © Nita Monteiro. Foto: Mauricio Froldi.
Coletora não apenas de coisas, mas também de histórias, Nita dá ares de fantástico à sua forma de articular imagens e ficcionalizar o interior, aqui entendido não apenas como dentro, mas também como distante do urbano. Diante de suas obras, perdemo-nos por imaginários corredores que nos levam ao mais banal dos cenários cotidianos que, ao mesmo tempo em que reconhecíveis, têm algo fora de lugar, um espectro de sonho daqueles que, tão reais que são, não conseguimos acordar por inteiro ao amanhecer.

Pari uma Pedra, 2023-2024. © Nita Monteiro. Foto: Iriana Resende.

Chocadeira, 2024. © Nita Monteiro. Fotos: Iriana Resende.

Fazenda Santa Terezinha, 2024-2025. Foto: Mauricio Froldi.

O ovo e a serpente, 2023. Foto: Iriana Resende. © Nita Monteiro. Foto: Filipe Berndt.
Entre alguns dos temas recorrentes de sua produção estão a maternidade, nas mais diversas esferas, como nas obras Pari uma pedra e Chocadeira; além da casa, que surge em sua produção não apenas como fonte de inspiração e matéria-prima, mas também como tema, em obras como Mesa de jantar, cujo objeto-título é um híbrido de mesa-mulher, uma figura surrealista na qual bebês se alimentam tanto de seus seios quanto dos frutos oriundos de uma árvore que cresce de seu umbigo.
Assim como faz na convocatória-título de sua atual exposição no MARP – Museu de Arte de Ribeirão Preto –, “Seja bem-vindo. Se vier por bem, pode entrar”, Nita Monteiro nos convida a, por meio de suas histórias, vasculhar as nossas próprias. Junto dela, de mãos dadas e deixando rastros pelo caminho, revolvemos os escombros da vida cotidiana para garimpar dali o material possível para o sonho. E, acordados subitamente em um misto de assombro e contemplação, podemos dar novo valor ao ordinário da vida.

Mesa de jantar, 2024-2025. © Nita Monteiro. Fotos: Mauricio Froldi.


