Francisco de Zurbarán (1598-1664) nasceu em Extremadura, no extremo oeste do país, mas passou a maior parte de sua vida em Sevilha, cidade à qual seu nome permanece mais fortemente associado.
Era então uma das cidades mais ricas da Espanha, o que permitiu que o artista criasse obras de arte para algumas das pessoas mais importantes do país. Trabalhou em todas as escalas possíveis, produzindo obras monumentais, mas também pinturas pequenas o bastante para caber na palma da mão.

Saint Serapion, 1628. © Wadsworth Atheneum Museum of Art, Hartford, Connecticut.

Saint Elizabeth of Thuringia, 1640. © Arte Ederren Bilboko Museoa Museo de Bellas Artes de Bilbao.
Apesar de ter vivido na mesma época que os artistas Diego Velázquez e Bartolomé Esteban Murillo, que ele certamente conhecia, seu nome é menos familiar hoje em dia. Nunca houve uma grande exposição dedicada a ele no Reino Unido e está é, portanto, uma rara oportunidade de conhecer Zurbarán por meio de algumas de suas melhores e mais importantes pinturas, que chegam à National Gallery de Londres vindas de todo o mundo.
De imponentes retábulos a naturezas-mortas ricamente detalhadas, de encomendas iniciais a obras tardias, você poderá apreciar pinturas de toda a sua carreira como retratos marcantes de monges, santos e mártires, imagens de fé e devoção, tecidos reluzentes, frutas e flores frescas.
A CRUCIFICAÇÃO
Qualquer pessoa que a visse na igreja, sem conhecer sua autoria, acreditaria estar diante de uma escultura.

The Crucifixion, 1627. © The Art Institute of Chicago.
Este enorme Crucificado é a primeira obra assinada e datada de Zurbarán. Na pequena folha de papel amassada presa à base da cruz, vemos sua assinatura e a data de 1627. Foi essa pintura que consolidou sua reputação em Sevilha.
Um escritor do século 18 comentou que qualquer pessoa que a visse na igreja, sem conhecer sua autoria, acreditaria estar diante de uma escultura.
Desde o início de sua carreira, Zurbarán já revelava aquilo que se tornaria uma de suas principais marcas: figuras de extraordinária qualidade escultórica e uma iluminação extremamente dramática.
Aqui, a paleta é quase monocromática, fazendo com que o corpo de Cristo pareça real e fisicamente presente diante de nós.
Foi a obra que projetou seu nome e abriu caminho para inúmeras encomendas.
A VIRGEM DO ROSÁRIO COM CARTUXOS

The Virgin of the Rosary venerated by Carthusians, 1637-1639. © National Museum in Poznan.
Incluímos esta pintura de 3,35 metros de altura na exposição para mostrar a escala em que Zurbarán trabalhava em algumas de suas comissões.
Ele fazia obras para diferentes ordens religiosas do sul da Espanha, todas competindo entre si para ter os espaços mais belos, mais ricamente decorados e mais suntuosos.
Essa pintura veio da Cartuxa de Jerez de la Frontera, um mosteiro da Ordem dos Cartuxos. Trata-se de uma encomenda que Zurbarán recebeu no final da década de 1630. Era um projeto monumental.
Outras três pinturas correspondem a apenas um dos três níveis que compunham o retábulo original. Reunimos essas obras pela primeira vez em cerca de 175 anos, justamente para dar uma ideia de sua escala original.
Mas imaginem que o conjunto completo teria mais que o dobro – talvez até o triplo da altura. Isso permite compreender a grandiosidade dos espaços para os quais Zurbarán pintava.
Também mostra o desafio imposto ao artista: criar pinturas capazes de funcionar nessa escala monumental, transmitir riqueza e imponência e narrar histórias extraordinárias, permanecendo perfeitamente legíveis mesmo quando vistas a uma distância enorme – talvez a 15 metros de altura, como acontecia originalmente com esse retábulo.
SANTA CASILDA DE TOLEDO

The Family of the Virgin, about 1630. Abelló Collection © Joaquin Cortes.
Uma das maiores realizações de Zurbarán são suas figuras femininas isoladas, conhecidas simplesmente como suas Santas.
Santa Casilda era uma princesa muçulmana do século 10. Segundo a tradição, ela levava pães escondidos para alimentar prisioneiros cristãos mantidos em cativeiro por seu próprio pai. No instante em que é surpreendida transportando esses pães, acontece o milagre: eles se transformam em rosas. É exatamente esse momento que Zurbarán representa nessa magnífica pintura.
Mas, para nós, a obra não trata apenas da santa. Ela trata, sobretudo, da forma extraordinária como Zurbarán representa o vestuário.
Observe esse magnífico vestido de seda, ricamente ornamentado.
Percebe-se o enorme cuidado do artista para fazer com que cada dobra do tecido dialogue perfeitamente com seus desenhos e padrões decorativos.
Pinturas como essa ajudam a explicar por que Zurbarán costuma ser chamado, de forma quase divertida, de o primeiro estilista espanhol.
Também ajudam a compreender por que um criador como Cristóbal Balenciaga se interessou tanto por sua pintura.

Saint Casilda, about 1635. © Museo Nacional Thyssen-Bornemisza.
Zurbarán representa tecidos luxuosos dotados de um volume extraordinário, conferindo – tanto às figuras quanto aos vestidos que inspirariam Balenciaga – uma presença extremamente vívida e convincente.
NATUREZA-MORTA COM LIMÕES, LARANJAS E UMA ROSA

Still Life with Lemons, Oranges and a Rose, 1633. © The Norton Simon Foundation.
Zurbarán é um dos maiores pintores de naturezas-mortas da Espanha do século 17, embora tenha feito apenas cerca de dez pinturas desse gênero ao longo de toda a sua carreira.
Esta pintura de 1663 é a única natureza-morta assinada e datada pelo artista em toda a sua produção. É uma pintura extraordinária pela geometria extremamente refinada da composição, com um equilíbrio perfeito entre os três conjuntos de objetos, cuidadosamente alinhados sobre o tampo polido de uma mesa de madeira.
Esta simetria e equilíbrio fizeram com que, quando a obra foi redescoberta na década de 1920, ela fosse comparada a pinturas de Cézanne e Picasso. É também uma pintura que praticamente convida o observador a se aproximar e contemplá-la demoradamente.
Apesar de sua austeridade, transmite uma atmosfera profundamente meditativa. Essas características fazem dela um dos grandes ícones da pintura espanhola do século 17.
AGNUS DEI

Agnus Dei, 1635-1640. © Photographic Archive Museo Nacional del Prado
Agnus Dei, ou Cordeiro de Deus, é um dos mais extraordinários quadros de Zurbarán. Há diversas versões dessa composição, mas esta, pertencente ao Museu do Prado, é, sem dúvida, a mais notável.
Isso se deve à maneira extraordinária como Zurbarán utiliza o pincel para representar a lã espessa e macia do cordeiro, de um branco marfim tão convincente que quase sentimos vontade de tocar sua superfície.
Ao mesmo tempo, essa pintura dissolve, de certa maneira, a fronteira entre o sagrado e o cotidiano, entre o religioso e o secular.
Porque, naturalmente, vemos aqui o Cordeiro de Deus, símbolo do sacrifício de Cristo. Mas também vemos um cordeiro verdadeiro, muito jovem – provavelmente com algo entre oito e doze meses de idade – deitado sobre uma pedra, com as patas amarradas, como se estivesse prestes a ser sacrificado. Como acontece em tantas obras de Zurbarán, essa poderosa dimensão espiritual nasce justamente da capacidade do artista de representar o mundo real.
Francesca Whitlum-Cooper é romancista e historiadora da arte. Ela vive e trabalha em Londres, onde é curadora da National Gallery.
Daniel Sobrino Ralston é curador associado interino na National Gallery e especialista em arte e cultura visual da Espanha do século 19.
FRANCISCO DE ZURBARÁN: ZURBARÁN
THE NATIONAL GALLERY • LONDRES • 2/5/2026 A 23/8/2026
MUSÉE DU LOUVRE • PARIS • 7/10/2026 A 25/1/2027
ART INSTITUTE OF CHICAGO • CHICAGO • 28/2/2027 A 20/6/2027


