Mostra Òna Írin, Caminho de ferro (Sesc Belenzinho). © Nádia Taquary. Foto: Thales Leite.

DASARTES 159 /

NÁDIA TAQUARY

NÁDIA TAQUARY REVISITA CINCO OBRAS FUNDAMENTAIS DE SUA TRAJETÓRIA E COMPARTILHA OS CAMINHOS QUE MARCARAM SEU PROCESSO DE CRIAÇÃO. ENTRE ESCULTURAS, OBJETOS-ESCULTURAS E INSTALAÇÕES, A ARTISTA APRESENTA HISTÓRIAS, REFERÊNCIAS ESPIRITUAIS E ESCOLHAS MATERIAIS QUE ATRAVESSAM SUA PRODUÇÃO – DA PESQUISA SOBRE A JOALHERIA AFRO-BRASILEIRA E AS PENCAS DE BALANGANDÃS ÀS COMPOSIÇÕES DE GRANDE ESCALA QUE CONECTAM ANCESTRALIDADE, FEMININO E MEMÓRIA

O MUNDO/IFÁ

O mundo/Ifá. © Nádia Taquary. Foto: Thales Leite.

“Certa vez, ganhei de um amigo artista uma antiga esfera de ferro, utilizada como boia sinalizadora de navegação marítima. Ele disse ter certeza de que eu saberia o que fazer. Olhei por alguns dias aquele objeto no centro de meu ateliê. A esfera estava desgastada pelo tempo em contato com o sal e com a parte de baixo coberta por ostras, por ter estado submersa no mar. Isso me fez pensar no tempo, no ciclo das coisas, e vislumbrei o que viria a ser, posteriormente, a obra O Mundo/Ifá.

Foi a partir dessa obra que começo minha pesquisa sobre a mitologia iorubana e, posteriormente, meus estudos com o professor nigeriano Dámiláre Fáladé para que eu pudesse aprofundar o que, em parte, e inconscientemente, conhecia.

Dou à esfera a forma de uma cabaça, fazendo referência à cabaça da existência, que, na cosmologia iorubana, é o grande útero mítico ancestral, contendo o mistério da criação e as águas primordiais de nascimento.

Escolhi com muito cuidado cada material que compôs essa obra.

Os búzios, costurados no tecido um a um, simbolizam a ancestralidade, a fertilidade e a divindade feminina das águas, Yewájọbí mãe de todos os seres. As palhas no centro, na parte superior da obra, trazem a presença do orixá Obaluaê: “O Senhor da Terra”, ele conhece a doença e tem o poder de transmutá-la em e cura. O trabalho está no centro de um simbólico tabuleiro de Ifá, senhor que conhece todos os destinos.”

Mostra Òna Írin, Caminho de ferro (Sesc Belenzinho). © Nádia Taquary. Foto: Thales Leite.

ABRE CAMINHOS

Abre caminhos. © Nádia Taquary. Foto: Thales Leite.

“Tenho uma relação afetiva com essa peça por ter sido minha primeira obra (2010). Na época, eu estava mergulhada na pesquisa sobre a joalheria afro-brasileira e no esforço, enquanto artista, de destacar a importância de sua história única, de luta e resistência, protagonizada por mulheres negras que, contra todo um sistema elitista e escravocrata, se irmanam e criam estratégias de conquista de liberdade, numa Bahia colonial.

Nesta obra, em meio a longos fios de pastilhas de coco ebanizadas, agiganto uma penca de balangandãs, ícone dessa joalheria, e apresento os dez mais recorrentes símbolos que, presos em um aro chamado de navete e amarrados no quadril, único lugar possível como guardador de seu pecúlio, contavam a história de quem a portava.

Em 2013, essa obra ganhou uma videoinstalação, feita a quatro mãos com o artista e curador Ayrson Heráclito, para minha individual Balangandã uma poética da esperança, realizada no MAB (Museu de Arte da Bahia). Essa foi minha primeira exposição como artista visual.

No vídeo, a palavra “balangandã” ressoa repetidamente na voz do artista Aloísio Meneses, ao passo que, na imagem, apresento um corpo feminino carregando a penca de balangandãs, seu único bem.

Essa obra me acompanha até hoje, por exposições e bienais.”

MULHER PÁSSARO E MENINA PÁSSARO

Mulher Pássaro e Menina Pássaro. © Nádia Taquary. Foto: Thales Leite.

“Meu primeiro contato com o conceito de Ìyámi Ajé foi por meio de um documentário, IYA MI AGBÁ – mito e metamorfoses das mães Nagô: arte sacra negra, indicado por meu grande amigo Ayrson Heráclito. A partir daí, cresceu meu interesse e aprofundei conceitos e entendimentos com Dámiláre Fáladé e Caroline Amanda, por meio do instituto ÈKÓ.

Para a cultura iorubana, Ajé é uma força motriz feminina que move o início e o fim dos ciclos. Durante a colonização na Nigéria, agregado a conceitos de patriarcado, o culto às Iyámi foi proibido, demonizado, iniciando um violento processo de apagamento que nos impediu de acessar entendimentos importantes sobre essa rica mitologia na margem de cá do Atlântico.

Mulher Pássaro e Menina Pássaro. © Nádia Taquary. Foto: Thales Leite.

Desse contexto mítico e político, criei esculturas como a Mulher Pássaro e a Menina Pássaro, em que trago os temas Irosùn (menarca) e Ìyáami Òṣòròngà/ Ìyá Àgbà (menopausa). Por meio delas, busco restaurar sua importância legítima e apontar para a possibilidade de uma sociedade equilibrada, fundada na igualdade de gênero e que fortaleça o protagonismo da mulher negra em nossa sociedade.

Em meu trabalho, o bronze evoca heranças africanas Akan, Ashanti e Edo, entre outras, que desenvolveram e aperfeiçoaram seus próprios conhecimentos em metalurgia. Essas, sim, são minhas referências. Ao incorporar o bronze, busco evidenciar essa referência originária por meio da estética, reafirmando a centralidade desses saberes ancestrais. Essa escolha opera como gesto político de desmontar narrativas coloniais que historicamente atribuíram à Europa o nascimento dessas tecnologias.

O encontro com Ajé, para mim, foi um alinhamento, não só num novo paradigma sobre a construção do feminino, como um importante encontro comigo e minha linhagem materna ancestral.”

PUXADA DE REDE

Puxada de Rede. © Nádia Taquary. Foto: Thales Leite.

“Esta obra começa pelo barco Vitorinha do Paraguassu, versão pequena, feita por Seu Chagachá, do saveiro Vitória do Paraguassu.

Seu Chagachá era um trabalhador de uma vida inteira adulta, numa fazenda de cana-de-açúcar, fazendo o trânsito no grande saveiro Vitória do Paraguaçu. O seu patrão prometera que, após sua morte, deixaria de herança a grande embarcação. E assim foi feito. Quando Seu Chagachá ficou idoso e não podia mais manejar o grande veleiro, construiu uma réplica em tamanho pequeno e continuou assim a velejar. Quando o conheci, às margens do Paraguaçu, ele já estava ainda mais idoso. Consciente de que já não poderia mais velejar, colocara a sua embarcação à venda.

Desci com ele ao rio para ver o saveiro. Havia, de um lado e de outro da margem do rio, duas casinhas: do lado do vilarejo onde estávamos, em minhas costas, estava uma pequena capela com uma imagem de Nossa Senhora e, do outro lado da margem, na mesma direção, avistei a outra casinha. Perguntei a ele, que me respondeu ser uma Yemanjá. Observei que eu estava entre as duas, como em tempos passados, em que, por estratégias de resistência, foi necessário se irmanar para manter vivos ritos e fé.

Adquiri, assim, o barco e retorno com profunda gratidão.

A obra começou a tomar forma. O tecido feito em contas de madeira crescia em forma de uma grande rede, como a que, ainda criança, observava ser tecida por pescadores na beira do mar. A rede finaliza com um cardume de 80 peixes de prata, trazendo, novamente, a joalheria afro-brasileira.

Essa obra é uma grande saudação à minha grande mãe, mãe do mundo, Yê Omo Ejá – a mãe cujos filhos são peixes, uma vez que, na cosmogonia iorubana, viemos todos das águas.”

ÌRÓKÓ: A ÁRVORE CÓSMICA

Ìrókò: A Árvore Cósmica. © Nádia Taquary.

“Quando recebi o honroso convite do Bonaventure para participar da 36ª Bienal de São Paulo, uma árvore visitava meus sonhos e meus pensamentos. Senti, naquele momento, estar conectada à energia de Ìrókó e de Tempo.

Consultei os búzios e Ifá, queria ouvi-los. A emoção foi grande quando as caídas e Itan contavam sobre a grande árvore primeira, portal da existência humana. “Èyí tó ró ò lè kò (o gigante sem fim), Ìrókó”.

Ciente desse alinhamento, comecei o trabalho, que durou nove meses.

A busca pela matéria-prima foi um grande desafio, pois precisaria de mais de 300 quilos de miçangas de vidro, um espaço alto e iluminado para o trabalho e que abrigasse toda equipe. Vinte e duas pessoas fizeram parte desse trabalho.

Durante essa criação, estive muitas vezes diante de conceitos vívidos que permeiam Ìrókó como: tempo, sustento da coletividade, continuidade.

Ìrókò ocupa lugar particular no panteão iorubano, pela sua condição de árvore sagrada, morada dos ancestrais e, sobretudo, pela sua capacidade de estabelecer conexão entre os mundos físico e espiritual, onde o tempo presente se encontra com sua ancestralidade.

Para essa instalação, eu trouxe as Ìyámi que, segundo os itans, habitam a copa de Ìrókó. Elas são forças femininas de construção e manutenção da existência. Vigiam e cuidam desse portal, garantindo o equilíbrio do mundo.

Para o povo Ègbá e no Brasil, o Ìrókò também é considerado orixá. No Brasil, relacionam frequentemente o oriká Ìrókò ao Inkisse Tempo. Ambos estão associados à ideia de um tempo ancestral no qual presente, passado e futuro coexistem no agora. Apresentar Ìrókò – morada de história, cultura, ancestralidade e sagrado – foi um encontro com minha espiritualidade, sentir, ouvir Ìrókò e sua grandeza, foi existir dentro de um cosmo percepção, no qual me reconheço como mulher, humanidade e ser cósmico.”

NÁDIA TAQUARY: ÒNÀ IRIN: CAMINHO DE FERRO •
SESC BELENZINHO • SÃO PAULO •
23/10/2025 A 26/4/2026

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