Mapa-Mole (Sul Infinito)

Mapa-Mole (Sul Infinito), 2022. © Marina Camargo.
A maioria dos meus trabalhos têm início com desenhos em nanquim sobre papel. Até certo momento do processo de trabalho, é um mistério se o desenho se transformará numa escultura, num Mapa-Mole, numa instalação, num desenho sobre outro suporte. Penso que os desenhos que faço diariamente constroem uma espécie de campo potencial de acontecimentos, de atos, de desdobramentos.
Costumo fazer maquetes para experimentar os materiais, simular as dimensões, entender o peso, o corpo e como o trabalho vai se estruturar. Os trabalhos se desenvolvem em diversas etapas, como se eu fosse tateando o trabalho até o encontro de uma configuração que o estabiliza em determinada forma, conceito, materialidade (como uma tensão equilibrada que o sustenta).
Quando fiz o primeiro Mapa-Mole, pensava em como ativar outras camadas de distorção para além daquela que constitui uma projeção cartográfica. Pesquisei materiais e comecei a experimentar com recortes em borracha, assim como projetos que envolviam dobras, curvaturas, planos que se descolavam da superfície para se projetar no espaço.
Em Mapas-Moles, os desenhos que se iniciam sobre o papel ganham um corpo físico no espaço, como um corpo invertebrado, que é todo ele superfície, assim como a pele que encobre nossos corpos. Embora corpo e cartografia pertençam a universos distintos, eles se encontram nos Mapas-Moles.
África / Desdobramento 2

África/ Desdobramento 2, 2026. © Marina Camargo. Foto: Filipe Berndt.
O fato de um mapa impresso ser, por princípio, só superfície, isso o mantém circunscrito ao campo do desenho ou da representação gráfica. Quando uma sombra se forma, há a indicação de que um objeto ocupa o espaço. Uma folha de papel dobrada ou curvada projeta sombra – assim, se transforma num volume no espaço.
África / Desdobramento 2 pertence à família dos Continentes dobrados, esculturas que se formam a partir de um plano que parece se descolar da superfície. O mapa do continente da África aparece dobrado, como se se enrolasse sobre si mesmo, deixando ver, na parte de trás, uma espécie de desenho-sombra de sua forma original. Iniciei a série Continentes dobrados junto com a série Mapas-moles. Ambas lidam com a representação dos continentes a partir de estruturas amolecidas ou flexíveis.

RePangeia, 2023. © Marina Camargo. Foto: Viva Foto.
De certo modo, é como se os mapas falassem por si mesmos, como se encontrassem um modo de existir, crescer, desenvolver-se por meio do meu trabalho; eu os escuto, mas também os reinvento, destruo-os, deformo-os. Não se trata de uma cartografia precisa, mas de um pensar com os mapas.
Mar Aberto

Mar aberto, 2026. © Marina Camargo. Foto: Filipe Berndt
A medida em que os mapas impressos se tornam obsoletos e desatualizados, eu os recolho e os coleciono. São justamente essas “sobras”, uma espécie de cartografia em ruínas, que me interessam, como evidências de uma cultura, restos materiais de outros momentos da História. É como se, por essas sobras, eu pudesse imaginar outras formas ou outras narrativas.
O meu foco não é apenas repensar a representação gráfica de um mapa, mas expandir as possibilidades dessas representações até uma fronteira que esgarça o próprio sentido de mapa: a desconstrução dessas representações ou estiramento dessas convenções levadas até um ponto de quase apagamento. Resta, entretanto, um pensamento sobre o mundo, a matéria de que são feitas, sua presença como corpos que ocupam o mundo.
Nesse processo, é como se um ciclo se expandisse: um mapa é desenhado a partir de referências de um mundo físico e de certo contexto histórico; depois, a partir desses desenhos, são criados trabalhos que existem como presença no mundo físico – deglutindo essa cartografia encontrada para depois devolvê-la transmutada (já sem função) para o mundo.
Em Mar Aberto, as regiões de águas (como mares e oceanos) são recortadas, dobradas e pintadas, de modo a criar um sistema de espelhamento e expansão dos contornos dos mapas. Os mares que vemos nos mapas parecem extravasar os limites deles próprios, expandindo-se para fora do impresso, e criando uma zona “entre” os mapas que é tão importante quanto cada desenho individualmente.
Songlines

Songlines, 2019-2021. © Marina Camargo. Foto: Viva Foto.
Penso nos trabalhos como seres autônomos que precisam existir de modo independente (ainda que eu entenda que os trabalhos estão sempre em relação uns com os outros).
Na realidade, já não saberia dizer se sou eu quem conduzo os trabalhos por meio de experimentações, ou se são eles que conduzem e indicam os caminhos a seguir através de minhas pesquisas.
Em Songlines (2019-2021), reuni o desenho de todas as fronteiras políticas entre países em cinco livros que são mostrados em estantes de partitura musical. Ao deslocar as linhas fronteiriças dos mapas e ordená-las em uma sequência linear, as fronteiras entre países se apresentam como uma espécie de notação musical. É como se esse deslocamento evidenciasse tanto a natureza gráfica dos mapas (linhas sobre papel) quanto o sentido abstrato de uma linha que divide dois lugares no espaço. Há um sentido de tradução que se evidencia no processo de transposição entre coisas de naturezas distintas: do território para o mapa, do mapa para os cadernos com as linhas de fronteira, dos desenhos para a música. Marcelo Cabral foi convidado a fazer uma interpretação musical dos desenhos de Songlines.
Geografias desdobradas

Geografia Desdobrada, 2023. Foto: Viva Foto.
Quando comecei a fazer os desenhos/pinturas da série Geografias desdobradas, em 2020, primeiramente, desenvolvi um conjunto de módulos recortados em papel, que são mapas com dobras em formato triangular. A combinação desses mapas com um sistema de dobras forma uma espécie de sistema de linguagem a partir do qual eu faço os desenhos.
Como mapas que se dobram e desdobram sobre si mesmos, os desenhos me lembram corpos em um processo de metamorfose, onde os continentes parecem se expandir, ou aparecem como sua forma “contraída”, reduzida a suas dobras triangulares. Por vezes, imagino que sejam como sombras que se projetam no espaço ou sobre outros continentes.
Após muitos anos trabalhando nessa série, esse conjunto modular (que é tanto uma espécie de alfabeto quanto uma estrutura geográfica) se torna visível em trabalhos como Dobrável / América do Sul dupla. Nessa escultura, o sistema de dobras sobre os mapas ganha um corpo no espaço, retomando os desenhos Geografias desdobradas. É como se um arco temporal entre o momento que antecede o trabalho se encontrasse com o momento em que o trabalho se lança para outros desdobramentos possíveis. Dobrável é, nesse sentido, um testemunho do processo de trabalho de Geografias desdobradas, como se os pequenos conjuntos modulares feitos em papel que habitam o meu ateliê se transformassem e ocupassem o espaço.
Nesse processo de dobrar, desdobrar, sobrepor, encolher e expandir, os mapas acabam assumindo simultaneamente sua forma e seu avesso, numa cartografia experimental (essencialmente inútil como mapa, mas rigorosa em seu método) que mais se parece a um mundo fragmentado e mutante, como se os continentes se movessem no espaço como criaturas que caminham por meio de suas dobras.
Mapas de fuga (Mediterrâneo)

Mapas de fuga (Mediterrâneo), 2026. © Marina Camargo. Foto: Letícia Remião.
Os mapas são uma representação reduzida do mundo, como uma espécie de prisma que condensa modos ou meios para se pensar o mundo (mesmo que carreguem visões parciais de mundo, marcadas por escolhas, omissões, apagamentos). Em muitos trabalhos, recolho mapas desatualizados e os transformo por completo, seja com pinturas ou cortes que deslocam suas partes ou com a reinvenção completa de suas formas.
Entretanto, quando as fronteiras são redesenhadas no mundo concreto, há uma dimensão da realidade que não costuma aparecer nos mapas: o redesenho de uma fronteira se dá por meio de guerras, disputas e violências diversas que não aparecem nos desenhos de mapas. Foi pensando na perspectiva de que os mapas e as guerras estão intimamente relacionados, que cheguei aos mapas de fuga.
Os mapas de fuga, assim como outros mapas impressos que utilizo em meus trabalhos, foram originalmente produzidos em um contexto específico. Os primeiros foram produzidos durante a Segunda Guerra Mundial, pelos serviços secretos britânicos. Posteriormente, uma nova série desses mapas foi produzida na década de 1950. Esses mapas, impressos em tecido para facilitar seu uso em fugas de prisioneiros de guerra, são tanto documentos históricos quanto testemunhos de épocas de conflitos disseminados e, justamente por isso, podem ter ressonância nos dias de hoje.
Os procedimentos gráficos realizados nos Mapas de fuga (Mediterrâneo) e Mapa de fuga (mar do Norte) são semelhantes àqueles realizados nos Mapas-Moles: são cortes que, ao mesmo tempo em que enfatizam uma estrutura possível para os mapas, destroem um pouco de sua integridade, sendo transformados em ruínas de sua própria história.

