Na História da Arte, o uso do corpo como expressão e reflexão é um caminho sedimentado por Ana Mendieta, Lygia Clark, Pina Bausch e outras artistas-mulheres que, cada uma à sua maneira, desafiam normas e expandem as fronteiras do processo criativo. Juntas, essas artistas inauguram novos modos de ver e pensar sobre identidade, corpo, natureza e experiência humana. Com o emprego de diferentes mídias e linguagens, as proposições de Hana Brener pisam neste chão fecundo, mas seguem além …

Colher com os olhos. © Hana Brener. Foto: Ziza Gomes.
Em seu trajeto, Brener faz interfaces entre a dança, o teatro, a fotografia e a instalação, porém, a fotoperformance (a imagem capturada pela câmera que imortaliza a arte que se dá ao vivo) parece se tornar instrumento de essência à sua práxis. Artista visual, educadora, bailarina e performer, ela entende que a fotografia é capaz de apreender o tempo visual, aquele instante crucial da narrativa, proporcionando maior densidade à abordagem de seus temas.

Estreito. © Hana Brener.

Fundir corpos d’água. © Hana Brener.
Sua produção artística pode ser vista a partir da integração entre o corpo em movimento e a concepção de imagens. Seus trabalhos resultam da investigação de motivos ligados à identidade, ao gênero e à natureza. Em seu repertório, destacam-se o corpo-mulher e as conexões com os objetos domésticos, intrinsecamente relacionados às funcionalidades e aos significados míticos, ritualísticos e culturais. Essa interação estrutura e reflete vivências; lida com os ambientes conhecidos.
As coisas designam identidade e pertencimento, conectando sua arte ao imaginário coletivo do Brasil. Como extensões do corpo, os objetos, muitas vezes, criam desconforto; mostram um espaço de intersecção entre o material e o simbólico e, acima de tudo, questionam e reimaginam suas rotinas e atributos.

Colher com os olhos. © Hana Brener. Foto: Ziza Gomes

Colheres. © Hana Brener. Foto: Ziza Gomes
Uma performance que usa colheres pode, por exemplo, discutir a materialidade do cotidiano e sua relação com a alimentação, o afeto e o castigo: a ação de alimentar alguém com uma colher pode ser vista como profundamente íntima e carinhosa – nesse caso, seria o cuidado materno. Mas, também, a colher de pau é lembrada como um instrumento de punição corporal, especialmente em contextos familiares, onde poderia ser usada para disciplinar crianças – nesse outro caso, a repressão.

Recolher (Da Série Colher). © Hana Brener.

Acolher (Da Série Colher). © Hana Brener.
Nos títulos de seus trabalhos, a colher pode evocar “acolher” e “encolher”, ou, ainda, gerar metáforas como a “mulher de pau”. Nessa perspectiva, o objeto visto como o emblema da subserviência ou da domesticidade pode se converter em resistência e força física-emocional. Assim, a artista rememora que objetos domésticos não são passivos. Eles moldam e são moldados por ações, emoções e culturas. Em seu vocábulo, a premissa fundante é: as coisas são testemunhas silenciosas do mundo. Mas, no seu “fazer arte”, elas contam histórias.
A mulher corpo-natureza é outra chave de interpretação do seu trabalho. Sua formação em Biologia e seu interesse em Agroecologia compõem também o chão da artista, cuja interação gênero, terra e natureza surge em plena potência. É algo que se evidencia nas intervenções e performances em ambientes naturais, destacando a importância da preservação ambiental e das tradições agrícolas. Também nesse nexo, estão as questões de gênero e feminilidade que, muitas vezes, utilizam elementos culturais brasileiros para discutir a resiliência das mulheres.

Mulher galho (parceria com Nirlyn Seijas e Cecília Carvalho). Foto: Nirlyn Seijas. © Hana Brener.
Sua investigação e prática artística são relevantes em um contexto cultural cujas questões de igualdade de gênero precisam ser amplamente debatidas. E, aqui, é difícil não pensar no envolvimento do seu trabalho com o ecofeminismo, campo onde se conectam a exploração das mulheres e a degradação da natureza. Por fim, do chão de Mendieta, Clark e Bausch, somado às coisas, os trabalhos de Hana Brener despertam para experiências sensoriais e emocionais que tensionam as percepções convencionais e convidam o público a refletir sobre a relação entre imagem, corpo e espaço.

Danço seu Silêncio (parceria com Ana Pi Videira). © Hana Brener.
Alecsandra Matias de Oliveira é doutora em Artes Visuais (ECA USP). Pós-doutorado em Artes Visuais (Unesp). Curadora independente. Professora da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Pesquisadora do Centro Mario Schenberg de Documentação e Pesquisa em Artes (ECA USP). Especialista em Cooperação e Extensão Universitária no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP). Membro da Associação Internacional de Crítica de Arte (AICA). Articulista do Jornal da USP, editora da Revista Arte & Crítica e colaboradora da Dasartes. Autora dos livros Schenberg: crítica e criação (Edusp, 2011) e Memória da resistência (MCSP, 2022).


