© Yayoi Kusama.

DASARTES 30 /

YAYOI KUSAMA

Após passar com grande sucesso pelo Malba, na Argentina, a primeira retrospectiva da artista japonesa na América Latina chega ao Brasil para preencher o CCBB com seus círculos multicoloridos

O mundo de Yayoi Kusama, artista japonesa cuja exposição sai do Malba para o CCBB em outubro, é diferente do nosso. Fica claro quando adentramos seus ambientes cobertos por bolinhas, ao ver suas pinturas em que os mesmos temas são repetidos obsessivamente ou ao ler seus poemas e livros. Mais claro quando aprendemos que ela vive em um hospital psiquiátrico desde 1977. Sua arte, então, explica-se assim: fruto de uma mente perturbada, como ela mesma faz questão de informar sempre que fala à mídia. No entanto, por trás da máscara da loucura, está uma artista de vanguarda, influência pouco reconhecida a figuras como Claes Oldenburg e Donald Judd e de produção extremamente versátil.

Happening Explosão Anatômica na estátua de Alice no País das Maravilhas, Central Park, 1968.

Para entender a obra de Yayoi Kusama, é necessário conhecer a vida dela. Nascida em uma família rica do Japão, sofreu desde pequena o repúdio violento da mãe à sua pintura e a ausência do pai mulherengo. Ainda assim, insistia na arte, única válvula de escape para transtornos psíquicos e alucinações que já começavam a se manifestar. Aos 18 anos, saiu de casa para estudar pintura tradicional em Kioto e lá ficou por quase dez anos, antes de se mudar para os Estados Unidos com a intenção de nunca mais voltar.

OBSESSÃO COM BOLINHAS

Retrato Yayoi Kusama, 2011.

Em 1957, quando chegou a Nova Iorque, sua sorte mudou. Foi recebida por Georgia O’Keefe, a quem vinha escrevendo em busca de conselhos, e introduzida por ela ao circuito de arte. Naquela época, Kusama se dedicava a pinturas etéreas, com elementos surreais à la Dalí, que talvez justificassem uma aproximação à grande aquarelista americana, mas alguns meses na efervescente capital libertaram seu espírito criativo, tão limitado pela rígida escola japonesa de pintura.

A primeira exposição aconteceu 18 meses mais tarde, onde mostrou as Redes do Infinito, pinturas onde as bolinhas aparecem muito próximas e o espaço entre elas se assemelha a uma rede. O trabalho – branco sobre branco, delicado, minimalista – chamou a atenção de Donald Judd e da crítica, abrindo à artista novos caminhos e a chance de conviver com os grandes nomes do cenário da arte.

As bolinhas (dots, ou pontos em inglês, da estampa de bolinhas polka dot) surgiram em sua pintura aos dez anos de idade – cobrindo totalmente uma figura feminina, possivelmente a mãe – e permeiam todo o trabalho dela até hoje. De acordo com a artista, são transcrições de suas alucinações. “Vejo pontos. Estão por toda a parte, o cosmo está coberto por pontos. O Sol é um ponto, a Lua é um ponto. Eu e você somos pontos” (entrevista ao programa BBC Newsnight, em 2012).

© Yayoi Kusama. Filled with the Brilliance of Life, 2011.

Em parte de sua obra, as bolas são um método de obliteração ou anulação. No vídeo de 1968, Self-obliteration (Auto-obliteração), tudo é coberto com bolas, desde o cavalo em que ela passeia aos próprios cabelos, quando ela os lava na água de um lago também coberta de círculos flutuantes. Muitas das técnicas atualmente usadas no cinema de suspense estão neste filme escuro e atordoante, uma viagem pelo inconsciente da artista. Em uma instalação mais recente, Obliteration room, visitantes são convidados a cobrir de adesivos redondos e coloridos uma sala mobiliada inteiramente branca.

Yayoi Kusama. Self-Obliteration (Net Obsession Series), c. 1966

Aos poucos, as bolinhas se converteram em uma assinatura da artista. Estão em quase todas as obras da exposição do Malba/CCBB, cobrem suas recentes esculturas de abóboras e as árvores nas calçadas. A associação à arte pop vem dessa repetição de temas, não apenas das bolinhas, mas de fotos de seu barco coberto de falos em Aggregation: one thousand boats (1963) e de etiquetas de envio postal aéreo em Air mail N.2 accumulation (1962), entre outros. Em entrevista à Dasartes, Philip Larratt-Smith, curador da mostra ao lado de Frances Morris, explica que “a ideia da exposição era dar uma visão equilibrada da produção de Kusama, enquanto destacavam a tese curatorial da mostra: o movimento no trabalho da artista, a partir de algo mais pessoal e privado nos primeiros trabalhos em papel até as ações radicais nos anos 1960”. A própria artista, no entanto, deixa claro que não é parte do movimento pop ou minimalista do período. “Sou uma artista ‘obsessional’. Sou afetada apenas pelas obsessões que se alojam no meu corpo enquanto crio uma peça atrás da outra.”

 

PIONEIRA MULTIMÍDIA

O estilo próprio permitiu que Yayoi Kusama dialogasse não apenas com os principais movimentos da época – pop, minimalista, feminista, hippie – mas também que fizesse incursões em todos os suportes. Além de pinturas, vídeos, esculturas e instalações, a artista criou e encenou diversos happenings, que a mantinham no foco da cena artística. Em um deles, modelos nus cobertos de bolinhas representavam personagens de Alice no País das Maravilhas sobre a estátua de mesmo nome no Central Park. Também criou a Yayoi Kusama Fashion Company Ltd., que criava e vendia roupas avant-garde, com pouco sucesso. Para Philip, o trabalho de Kusama “é a revelação de sua realidade psíquica interna através de uma riqueza de meios e de uma gama de inovações formais. Sua produção divide-se em períodos discretos, com uma notável coerência em seus dispositivos simbólicos e preocupações temáticas. Ela dá um equivalente simbólico da sua psicologia por meio de um vocabulário que se torna cada vez mais pop. Assim, poderíamos dizer que é uma forma de psicopop”.

© Yayoi Kusama.

Nos anos 1970, sem conseguir alívio para seus transtornos, a artista decide retornar ao Japão e buscar tratamento. Ao contrário do que se diz, não optou por se internar em um hospital psiquiátrico, mas foi orientada a fazê-lo por seu médico. Isolada, foi lentamente esquecida pelo mundo da arte, até que seu quarto de espelhos na Bienal de Veneza de 1993 reviveu o interesse pela artista, abrindo portas. Desde então, teve retrospectivas em cinco dos maiores museus do mundo, criou estampas para Louis Vuitton, pintou embalagens para Lancôme e colaborou na criação de um videoclipe de Peter Gabriel, comprovando sua versatilidade multimídia.

Sua rotina, no entanto, pouco mudou com a fama ressuscitada. Kusama continua produzindo incansavelmente em seu estúdio em Tóquio, a poucos quilômetros do hospital onde vive, vestida sempre com roupas estampadas e sua característica peruca vermelha, buscando na arte a paz que sua constituição a negou. Pela crescente alegria presente nas cores vivas e paisagens psicodélicas de suas obras e pela fraqueza cândida com que fala de sua doença, talvez a tenha encontrado.

Pumpkin, 2003.

BOX

TRÊS PERGUNTAS PARA YAYOI KUSAMA

O ponto é um símbolo do cosmos, ele está em todo lugar. O Sol, o planeta Terra, a Lua são pontos. Então por que razão obliterar a si mesma, ou a um quarto, cobrindo de pontos?

Eu também sou um ponto. O Sol, a Terra, a Lua são pontos também. O desenvolvimento dos pontos ao longo de milhões de anos não vai acabar nunca, ele se expandirá indefinidamente e continuará nos surpreendendo. É um hino ao amor do ser humano e também o desenvolvimento da vida. Nós, que vivemos em um florescimento da força vital, sentimo-nos felizes em saber que temos um infinito de possibilidades.

A vida em uma instituição psiquiátrica e o contato constante com pacientes psiquiátricos têm mudado seu pensamento ou sua arte de alguma maneira?

Não. Sempre penso na minha prática artística como uma artista. Não importa onde vivo ou o contato com pacientes psiquiátricos.

Seu trabalho contém muitos símbolos de seus medos e obsessões. No entanto, você parece muito clara quanto ao seu lugar na vida e na arte. Você se considera em paz?

Eu não estou em paz. Sempre penso além da arte de Yayoi Kusama e do processo de criação que tenho desenvolvido. Eu me mantenho lutando ao longo de muitos anos.

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