Laura Mello de Mattos vive entre Sorocaba e São Paulo. Há algum tempo, ela desenvolve uma investigação consistente sobre intimidade, feminilidade e os modos de existir no espaço doméstico – não como cenário neutro, mas como território político e afetivo. Em suas obras, emerge um mundo de silêncio que permeia a vida da maioria das mulheres que, habitualmente, transformam o íntimo – aquilo que seria o vulnerável – em coragem.

© Laura Mello de Mattos.
Observe-se ainda que seu percurso se insere em uma longa tradição de mulheres-artistas que empregam os autorretratos por meio de reflexos, ecos e duplicações, evocando nomes que vão de Frida Khalo a Vivian Suter, de Paula Rego a Francesca Woodman. Porém, nossa artista desloca essa genealogia para um lugar contemporâneo.
Em especial, porque um dos seus elementos centrais é o uso de espelhos e objetos domésticos como dispositivos de autorrepresentação. Para além de instrumentos ópticos, seus espelhos se tornam portais a uma subjetividade que se constrói entre fragmentos, sombras e presenças parciais. Ao permitir que o olhar do outro acesse fissuras das imagens refletidas, ela assume uma vulnerabilidade que, simultaneamente, é gesto de afirmação.
Em Ainda há tempo de ver (2025), óleo sobre painel têxtil, a artista reafirma essa força silenciosa a partir de uma pintura que se constrói sobre o cotidiano, mas que nunca se limita a ele. A obra apresenta uma cena que parece emergir de um instante suspenso, como se a artista captasse o momento anterior a um gesto ou a um pensamento. A superfície têxtil, escolhida como suporte, introduz uma vibração material que dialoga com a própria ideia de interioridade: o tecido absorve, respira, retém. Sobre ele, o óleo se deposita com delicadeza e precisão, criando uma atmosfera que oscila entre o real e o fabulado.

Ainda há tempo de ver, 2025. © Laura Mello de Mattos

Ainda há tempo de ver, 2025. © Laura Mello de Mattos
O espelho, por sua vez, não devolve tão somente uma imagem – ele replica uma pergunta. O que vemos é a artista, mas também é o espaço que ela habita, os objetos que a cercam, os gestos que a constituem. A pintura transforma o ato de olhar em um exercício de reconhecimento e, igualmente, de estranhamento. Há uma tensão entre exposição e resguardo, entre se revelar e permanecer opaca, que confere à obra uma densidade emocional rara. Essa oscilação entre mostrar e se proteger é, novamente, a própria matéria da vulnerabilidade corajosa: a artista se expõe sem se entregar totalmente, revela-se enquanto preserva zonas de silêncio.

Borboletas não voam mais, 2025. © Laura Mello de Mattos.

Sem título. © Laura Mello de Mattos
Duas outras obras – Tempo é sempre bom acima das nuvens e Entre luzes e sombras (ambas de 2025) – trazem o diálogo poético entre luz, tempo e atmosfera. Em Tempo é sempre bom acima das nuvens, óleo sobre painel têxtil de 120 × 100 cm, a artista cria uma sensação de suspensão, como se o observador fosse convidado a atravessar camadas etéreas onde o tempo parece desacelerar. Já em Entre luzes e sombras, em formato quadrado de 90 × 90 cm, a pintura aprofunda o contraste entre claridade e escuridão, revelando nuances emocionais que emergem desse jogo visual. Juntas, as obras constroem uma narrativa sensível sobre percepção e interioridade, evocando estados contemplativos que se desdobram entre o visível e o intuitivo.
“A pintura aprofunda o contraste entre claridade e escuridão.”
entre luzes e sombras , 2025. © Laura Mello de Mattos.
Em seus trabalhos, então, o doméstico, longe de ser um tema menor, torna-se aqui crucial. Laura Mello de Mattos transforma o cotidiano em matéria pictórica, elevando gestos simples – arrumar um objeto, observar um reflexo, cruzar um cômodo – à condição de rituais de presença. Sua pintura não busca monumentalidade; busca profundidade. E é justamente nessa recusa ao espetáculo que reside sua potência – algo que nasce do assumir o íntimo como território político.

Uma vez, eu tive uma ilusão, 2022. © Laura Mello de Mattos

Um caminho, 2022. © Laura Mello de Mattos
Enfim, suas obras afirmam a urgência de olhar para dentro – não como fuga, mas como gesto político. Ao transformar a intimidade em imagem, ela inscreve o feminino no espaço da pintura contemporânea com delicadeza e rigor. Sua obra nos lembra que o cotidiano, quando observado com atenção, é sempre um campo de revelações – e que, como diz Chimamanda Ngozi Adichie, é na vulnerabilidade que, muitas vezes, se encontra a forma mais profunda de coragem.
Alecsandra Matias de Oliveira é Doutora em Artes Visuais pela ECA-USP e tem pós-doutorado na mesma área pela Unesp. Mestre pela ECA-USP e bacharel e licenciada em História pela FFLCH-USP, atua como crítica de arte e curadora independente. Atualmente, é professora na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e no Celacc (ECA-USP). Pesquisadora do Centro Mario Schenberg de Documentação e Pesquisa em Artes. É membro da Associação Internacional de Crítica de Arte (AICA) e colabora com diversas publicações, como o Jornal da USP e a revista Dasartes. Além disso, é editora de Arte/História na revista Arte & Crítica e autora dos livros Schenberg: crítica e criação (Edusp, 2011) e Memória da resistência (MCSP, 2022).
PRÊMIO GARIMPO DASARTES 2026
• ARTISTA VENCEDORA PELO VOTO POPULAR



