Ondas de calor recordes na França já destruíram flores do jardim histórico, enquanto os paisagistas adaptam irrigação, espécies e calendário de floração sem romper o vínculo com a obra do artista
O verão de 2026 está impondo uma nova rotina aos jardins de Claude Monet em Giverny, na Normandia. Depois de uma sequência de ondas de calor sem precedentes na França, flores que deveriam estar em plena atividade morreram sob temperaturas extremas. Entre elas estão as capuchinhas, presença recorrente nesta época do ano e agora reduzidas a áreas queimadas pelo calor.
“É incrivelmente triste”, disse Rémi Lecoutre, vice-chefe dos jardineiros da Casa e Jardins de Claude Monet. Segundo ele, nunca havia visto os efeitos das altas temperaturas chegarem a essa escala. A equipe passou a concentrar plantas, reforçar a irrigação e reservar a rega das espécies mais vulneráveis para a noite. A estratégia ajudou a conter os danos, que ainda são mais perceptíveis quando observados de perto. “Com os miniaspersores e a irrigação subterrânea, conseguimos combater o estresse hídrico”, afirmou Lecoutre à France 3. Mesmo assim, parte da folhagem queimou. As plantas fecham os estômatos, interrompem a floração e produzem flores murchas.
O problema vai além de salvar a temporada atual. Os jardineiros já estudam substituir algumas espécies por variedades mais resistentes ao calor e antecipar períodos de floração, à medida que o clima altera o ciclo natural das plantas. A decisão exige cuidado porque Giverny não é apenas um jardim ornamental. O conjunto, com a casa rosa de detalhes verdes e seus canteiros cuidadosamente compostos, foi preservado para manter a atmosfera dos ambientes que alimentaram a pintura de Monet. “Como é um jardim histórico, é melhor que essas plantas respondam aos critérios estéticos e sejam o mais próximas possível das plantas que Monet conheceu”, explicou Lecoutre.
Ao mesmo tempo, a equipe não pretende transformar o local em uma réplica congelada no tempo. Monet cultivava justamente a diversidade e a sucessão de espécies, com grandes quantidades de flores que podiam desaparecer depois de poucas semanas. O jardim era uma composição em permanente mudança. “Não somos um jardim de museu, mas realmente um espaço que evolui com seu tempo”, disse Lecoutre. Entre as plantas que parecem ter recebido bem a mudança está uma das mais conhecidas do universo de Monet. As ninfeias, que ocupam o famoso lago do jardim, gostam do calor e estão prosperando.
A crise climática chega a Giverny no ano em que o mundo da arte marca o centenário da morte de Monet, com uma série de exposições dedicadas ao pintor. Em Paris, o Musée de l’Orangerie inaugura em 30 de setembro Monet: Painting Time. Dois dias antes, em 24 de setembro, o Musée Marmottan Monet abre Stories of Landscapes: From Monet to Hockney (1893 to 2026), colocando obras de Monet em diálogo com artistas modernos e contemporâneos. Em Giverny, enquanto isso, a homenagem acontece também no terreno onde suas pinturas encontraram parte de sua origem, agora sob a pressão de um clima que obriga seus cuidadores a redesenhar o jardim sem apagar sua história.
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