Artista americana transformou referências da cultura pop, da cerâmica e da vida cotidiana em uma pintura de cores intensas e formas precisas
Mary Heilmann morreu aos 86 anos na última sexta-feira, em Riverhead, no estado de Nova York. Segundo comunicado divulgado por seu estúdio, a artista morreu em decorrência de complicações provocadas por uma queda. Ao longo de mais de cinco décadas, Heilmann construiu uma obra que recusava as fronteiras rígidas da abstração, aproximando pintura, escultura, artesanato, música e experiências pessoais.
Nascida em San Francisco em 1940, Heilmann começou pela cerâmica. Estudou na University of California, Santa Barbara, e depois na UC Berkeley, onde teve aulas com Peter Voulkos, artista ligado à expansão da cerâmica nos Estados Unidos. Em 1967, após concluir o mestrado, mudou-se para Nova York e passou a pintar. As telas ganharam acrílicos luminosos, campos de cor e formas geométricas, mas também uma dimensão física que fazia a pintura avançar sobre o espaço da exposição. Heilmann chamava seus trabalhos de “material escultórico”.
A artista apareceu pela primeira vez na Whitney Annual Exhibition em 1972, mostra que antecedeu a Whitney Biennial, e voltou ao evento em 1989 e 2008. Sua linguagem amadureceu entre os anos 1970 e 1980, quando referências à Califórnia, às estradas, ao surf, à música e às ondas foram reduzidas a círculos, faixas e quadrados. Os títulos funcionavam como outra camada da obra. Alguns vinham de canções populares, outros de situações cotidianas, como Driving at Night. Para o crítico Dave Hickey, Heilmann recorria à história da abstração sem se submeter a ela. “Os cânones da abstração geométrica, da pintura Color Field e do Minimalismo são honrados no espírito, mas não na letra”, escreveu.
O reconhecimento institucional cresceu de maneira particular. Em 1990, Heilmann teve uma mostra panorâmica no ICA Boston. Em 2008, aos 68 anos, veio sua primeira exposição individual em um museu de Nova York, no New Museum, depois de passar pelo Orange County Museum of Art e pelo Contemporary Art Museum Houston. A exposição ampliou decisivamente sua projeção e foi seguida por apresentações no Whitney, no Bonnefantenmuseum, na Holanda, no Hamburger Bahnhof, em Berlim, na Whitechapel Gallery, em Londres, e no Dia Beacon. Ellsworth Kelly resumiu sua importância naquele momento ao chamá-la de “a melhor das novas abstracionistas”.
Heilmann também manteve uma relação duradoura com a galeria Hauser & Wirth, onde realizou sua primeira exposição em 1997. Iwan Wirth, presidente da galeria, lembrou que ele, Manuela e Ursula Wirth conheceram a artista em 1994 e começaram a colecionar seu trabalho imediatamente. “Mary também nos apresentou a outros artistas que conhecia e admirava, como Louise Bourgeois”, afirmou. Antes de se consolidar no circuito institucional, Heilmann sustentou sua prática por décadas como professora, primeiro na Stony Brook University e depois na School of Visual Arts, em Nova York. Viveu seus últimos anos em Bridgehampton, região que frequentava desde os anos 1960.

