Organizações culturais acusam a representação inédita do país de excluir artistas locais e reacendem debates sobre diáspora, colonialismo e legitimidade institucional no circuito global da arte.
A estreia da Bienal de Veneza para a Somália, um marco histórico para a presença cultural do país no circuito internacional de arte contemporânea, foi rapidamente atravessada por uma onda de críticas vindas de organizações e artistas locais, que acusam os organizadores do pavilhão nacional de ignorarem a cena artística atuante dentro do território somali. O centro da controvérsia envolve o pavilhão SADDEXLEEY, primeira participação oficial da Somália na mostra italiana, cuja seleção artística reúne exclusivamente nomes da diáspora. Entre os participantes estão a pintora Ayan Farfah, a poeta e cineasta Asmaa Jama e a escritora Warsan Shire, todos residentes fora do país.
A ausência de artistas baseados na Somália provocou reação imediata da Somalia Arts Foundation, instituição que se apresenta como o primeiro centro de arte contemporânea do país. Em comunicado divulgado no mês passado, a organização afirmou que artistas e grupos culturais locais “não foram consultados, incluídos ou reconhecidos de maneira significativa em um processo que deveria pertencer à nação de forma mais ampla”. A discussão ganhou novas camadas após críticas direcionadas ao co-curador do pavilhão, o designer gráfico italiano Fabio Scrivanti, cuja participação foi questionada pelo coletivo queer somali Warbixinta Cidda. Para os grupos envolvidos, a escolha de um curador italiano carrega implicações históricas difíceis de dissociar do passado colonial da Itália na região, iniciado no século XIX.
Segundo Sagal Ali, fundadora e diretora executiva da SAF, as disputas em torno da representação cultural da Somália não podem ser tratadas como questões neutras dentro de um contexto marcado por relações históricas de poder. A crítica não se dirige à presença da diáspora em si, mas à forma como a construção simbólica de uma representação nacional teria acontecido sem diálogo consistente com artistas que atuam no país e participam da reconstrução de seu ecossistema cultural. O projeto curatorial do pavilhão foi concebido por Scrivanti em parceria com Mohamed Mire, produtor ligado ao museu Fotografiska, em Estocolmo. A comissão oficial da participação somali está sob responsabilidade de Abdirahman Yusuf Mohamud, assessor cultural do gabinete do primeiro-ministro da Somália.
Batizada em referência a uma estrutura poética tradicional somali, a exposição aborda oralidade, deslocamento e memória, temas que atravessam boa parte das experiências da diáspora africana contemporânea. Ainda assim, organizações locais argumentam que o discurso da mostra acaba produzindo uma desconexão entre a narrativa institucional apresentada em Veneza e a realidade cultural cotidiana da Somália.
Outras entidades culturais aderiram às críticas públicas, entre elas o espaço Arlo Art Space, o grupo de preservação patrimonial Biciid e a revista Shineemo Banaadir. Em um segundo comunicado, a SAF acusou ainda os organizadores do pavilhão de utilizarem intimidação e pressão coercitiva contra grupos que denunciaram o processo de seleção. Em resposta às acusações, representantes do pavilhão afirmaram que artistas residentes na Somália participam de ações paralelas vinculadas à Bienal, incluindo o pintor Abdinasir Abdikadir, conhecido como 4C, baseado em Mogadíscio. Segundo os organizadores, eventos complementares ocorreriam tanto em Veneza quanto na própria Somália ao longo da programação da mostra, embora detalhes adicionais não tenham sido divulgados.
As tensões cresceram ainda mais após a poeta e cineasta Ladan Osman anunciar publicamente que decidiu não visitar o pavilhão. Em carta aberta publicada nas redes sociais, Osman afirmou que sua decisão foi influenciada por alegações de que o processo oficial de seleção artística teria contornado mecanismos previamente aprovados pelo governo somali, evitando avaliações envolvendo artistas locais.
As críticas ao pavilhão somali emergem em meio a uma edição particularmente turbulenta da Bienal de Veneza, marcada por protestos, boicotes e manifestações ligadas sobretudo à permanência de Israel na mostra durante a guerra em Gaza. Nesse contexto, a discussão sobre representação nacional ultrapassa o campo estritamente artístico e passa a expor disputas mais amplas sobre legitimidade, poder institucional e heranças coloniais dentro das grandes exposições internacionais.
Embora os artistas e curadores envolvidos no projeto ainda não tenham respondido publicamente às críticas, a controvérsia em torno do primeiro pavilhão da Somália já transformou sua estreia histórica em um dos debates mais delicados desta edição da Bienal.


