A Associação Brasileira de Críticos de Arte anunciou as listas tríplices do Prêmio ABCA 2026, uma das distinções mais tradicionais das artes visuais brasileiras, oferecendo não apenas um panorama dos profissionais e instituições que marcaram o último ano, mas também um recorte contundente das transformações que vêm reorganizando o circuito artístico do país. Com votação final marcada para os próximos dias, os nomes indicados já funcionam como termômetro das narrativas que ganharam força entre museus, bienais, espaços independentes e projetos de formação espalhados pelo Brasil.
Ao longo de 18 categorias, a seleção evidencia um campo cada vez mais descentralizado, atravessado por questões de território, memória, política e pertencimento. A presença de artistas como Jota Mombaça, Gê Viana e Éder Oliveira na disputa pelo Prêmio Mário Pedrosa confirma a permanência de práticas críticas e discursivas no centro da produção contemporânea, enquanto indicações como a da Bienal do Sertão, do Centro Cultural do Cariri e da Plataforma Imaginários revelam o avanço de iniciativas que deslocam o eixo tradicional da arte brasileira para além das capitais do Sudeste.
Entre os destaques desta edição, a categoria dedicada à melhor exposição do ano sintetiza parte das discussões que dominaram 2025. “A terra, o fogo, a água e os ventos – Por um Museu da Errância com Édouard Glissant”, apresentada no Instituto Tomie Ohtake sob curadoria de Ana Roman e Paulo Miyada, aparece ao lado de “Arquipélago Imaginário”, de Luiz Braga, e da monumental mostra de Maria Bonomi no Paço Imperial, consolidando um cenário em que exposições passam a operar menos como simples exibição de obras e mais como dispositivos curatoriais de reposicionamento histórico e político.
Também chama atenção a força das iniciativas voltadas à pesquisa e à documentação. O reconhecimento ao Acervo Artístico da Biblioteca Mário de Andrade, à coleção amazoniana da UFPA e à Fundação Museu do Homem Americano aponta para uma valorização crescente dos arquivos e da preservação institucional em um momento em que o debate sobre memória cultural ocupa lugar central nas políticas das artes visuais.
Na crítica e na pesquisa, nomes como Sônia Salzstein, Moacir dos Anjos e Cristiana Tejo aparecem entre os indicados em categorias historicamente associadas à formulação intelectual do pensamento artístico brasileiro. Em paralelo, a premiação destinada a críticos em início de carreira reforça uma renovação geracional perceptível na produção de ensaios, plataformas independentes e novos formatos de circulação da crítica de arte.
O anúncio das listas também amplia a expectativa em torno da votação final, realizada de forma fechada entre os associados da ABCA. O resultado será divulgado em 22 de maio, enquanto a cerimônia de entrega acontece em 27 de agosto, no Teatro Antunes Filho, no SESC Vila Mariana, em São Paulo. Além da entrega dos troféus, a noite contará com homenagens especiais e apresentação musical, mantendo o caráter simbólico da premiação criada em 1978 e considerada uma das mais longevas do setor cultural brasileiro.
Fundada em 1949 por nomes como Mário Pedrosa, Sérgio Milliet e Antonio Bento, a ABCA reúne atualmente 181 associados em diferentes regiões do país e segue operando como uma das principais instâncias de legitimação da arte brasileira. Em 2026, o troféu da premiação será concebido pela artista Mônica Ventura, cuja produção dedicada à ancestralidade, à materialidade e às cosmologias pré-coloniais vem ocupando espaço crescente no circuito contemporâneo.


