A abertura oficial da 61ª edição da Bienal de Veneza começou sob um clima de ruptura institucional raramente visto na história da mostra italiana. Em um gesto coletivo sem precedentes, 54 artistas da exposição internacional “In Minor Keys” e representantes de 22 pavilhões nacionais anunciaram oficialmente sua retirada da disputa pelos prêmios da Bienal, aprofundando a crise política que domina esta edição desde as semanas que antecederam sua inauguração pública.
A decisão foi divulgada por meio de um manifesto publicado pela plataforma e-flux e surge como resposta direta à renúncia do júri internacional da mostra, ocorrida no fim de abril. O grupo de jurados havia provocado forte repercussão ao declarar que não consideraria elegíveis países cujos líderes fossem acusados de crimes contra a humanidade perante o Tribunal Penal Internacional, posicionamento que retiraria Israel e Rússia da disputa pelos tradicionais Leões de Ouro. Poucos dias depois da declaração, os integrantes do júri abandonaram coletivamente suas funções. Segundo informações confirmadas pela Fundação Bienal de Veneza, o artista israelense Belu-Simion Fainaru, representante do pavilhão de Israel, apresentou advertências jurídicas alegando que a decisão do júri configuraria discriminação nacional e antissemitismo.
Diante do colapso do modelo tradicional de avaliação, a organização da Bienal extinguiu excepcionalmente os Leões de Ouro desta edição e criou uma nova premiação intitulada “Visitor Lions”, definida por votação pública e prevista para ser anunciada apenas no encerramento da mostra, em novembro. A reformulação recolocou automaticamente Israel e Rússia entre os países elegíveis, decisão que desencadeou nova reação entre artistas e curadores.
Quase metade dos 111 participantes da exposição central decidiu então retirar suas candidaturas às novas premiações. Entre os nomes que aderiram ao movimento estão figuras amplamente consolidadas da arte contemporânea internacional, como Laurie Anderson, Alfredo Jaar, Otobong Nkanga, Walid Raad, Tuan Andrew Nguyen e Carolina Caycedo. A mobilização também se espalhou pelos pavilhões nacionais. Representantes de países como França, Bélgica, Espanha, Países Baixos, Polônia, Irlanda, Suíça e Emirados Árabes Unidos aderiram ao boicote simbólico, ampliando a dimensão internacional do protesto e transformando a disputa pelos prêmios em um novo campo de tensão diplomática e cultural.
O anúncio ocorre após uma sequência de manifestações que já vinham alterando o funcionamento da Bienal durante os dias de pré-abertura. Protestos direcionados aos pavilhões de Israel e Rússia se multiplicaram ao longo da semana, enquanto uma greve inédita de trabalhadores da cultura interrompeu atividades em diferentes espaços da mostra, incluindo o complexo do Arsenale, onde está instalado o pavilhão israelense temporário.
As tensões, contudo, não começaram agora. Ainda em março, quando a Fundação Bienal confirmou oficialmente a presença de Israel e Rússia nesta edição, artistas da exposição “In Minor Keys” e representantes de diversos pavilhões nacionais publicaram uma carta aberta pedindo a exclusão de Israel do evento. Na ocasião, Carolina Caycedo afirmou que artistas participantes estavam sendo “arrastados para uma posição de cumplicidade” ao compartilhar o espaço expositivo com o pavilhão israelense.
Veja a lista:
Fabric Aragno
arms ache avid aeon
Laurie Anderson
Sammy Baloji
Éric Baudelaire
Sabian Baumann
Nancy Brooks Brody Estate
BuBu de la madeleine
Carolina Caycedo
Annalee Davis
Bonnie Devine
Nolan Oswald Dennis
rana elnemr
Joy Episalla
Rachel Fallon
Sofía Gallisá Muriente
Joana Hadjithomas & Khalil Joreige
Sohrab Hura
Mohammed Joha
fierce pussy
Alfredo Jaar
Michael Joo
Nina Katchadourian
Guadalupe Maravilla
Natalia Lassalle Morillo
Florence Lazar
Zoe Leonard
Alice Maher
Sally Mizrachi
Avi Mograbi & Avital Barak
Tuan Andrew Nguyen
Otobong Nkanga
Hagar Ophir
Uriel Orlow
Alan Phelan
Leonard Pongo
Walid Raad
Mohammed Z. Rahman
Tabita Rezaire
Guadalupe Rosales
Yo-E Ryou
Rose Salane
Carrie Schneider
Hala Schoukair
Berni Searle
Yoshiko Shimada
Himali Singh Soin and David Soin Tappeser
Cauleen Smith
Vera Tamari
Jo-ey Tang
Carrie Yamaoka
Raed Yassin
Thania Petersen
Pavilhões Nacionais
Bélgica
Miet Warlop, artista; Caroline Dumalin, curadora e equipe
Luxemburgo
Aline Bouvy & Stilbé Schroeder
França
Yto Barrada
Eslovênia
Nonument Group (Neja Tomšič, Martin Bricelj Baraga, Nika Grabar, Miloš Kosec); Nataša Petrešin-Bachelez, curadora
Letônia
MAREUNROL’S, Bruno Birmanis & equipe
Lituânia
Egle Budvytyte, artista; Louise O’Kelly, curadora
Suíça
Gianmaria Andreetta, Luca Beeler, Miriam Laura Leonardi, Lithic Alliance, Yul Tomatala, Nina Wakeford
Espanha
Oriol Vilanova
Países Baixos
Dries Verhoeven, artista; Rieke Vos, curadora
Polônia
Bogna Burska & Daniel Kotowski, artistas; Ewa Chomicka & Jolanta Woszczenko, curadoras
Equador
Boloh Miranda, Tatiana Lopez, Sani Montahuano, Mukutsawa Montahuano, Enoc Merino, Tawna Collective
Irlanda
Isabel Nolan, artista; Georgina Jackson, curadora; Cian O’Brien, produtor
Kosovo
Brilant Milazimi
Finlândia
Juha Huuskonen, comissário
República Tcheca e Eslováquia
Jakub Jansa, Selmeci Kocka Jusko, artistas; Peter Sit, curador
Chipre
Marina Xenofontos
Albânia
Genti Korini
Emirados Árabes Unidos
Farah Al Qasimi
Turquia
Nilbar Güreş, artista; Başak Doğa Temür, curadora
Granada
Mostra coletiva; Susan Mains, comissária
Islândia
Ásta Fanney Sigurðardóttir
Moldávia
Pavel Brăila, artista; Adelina Luft, curadora

