Uma pintura do artista francês Pierre Soulages, um dos nomes mais influentes da abstração europeia do pós-guerra, tornou-se o centro de uma nova batalha judicial nos Estados Unidos após ser vendida pela Christie’s, em novembro do ano passado, por US$ 4,955 milhões (cerca de R$ 25,32 milhões na cotação atual). A obra, Peinture 161 x 200 cm, 14 novembre 1958, fazia parte da coleção de Patricia G. Ross Weis e Robert F. Weis e agora é reivindicada por integrantes da tradicional família Zeckendorf, que alegam que o trabalho foi furtado entre 1977 e 1980. A ação, protocolada na Suprema Corte do Estado de Nova York, busca garantir aos autores o valor obtido com a venda da pintura.
O processo sustenta que a tela pertenceu originalmente a Marion Zeckendorf, que a adquiriu em 1959 por meio da histórica Kootz Gallery, galeria nova-iorquina reconhecida por impulsionar artistas ligados ao Expressionismo Abstrato. Após a morte da colecionadora, em 1968, a obra teria permanecido registrada no inventário de seu espólio e, anos depois, sido transferida para um fundo patrimonial criado conforme seu testamento. Segundo os herdeiros, o quadro desapareceu durante a administração desse patrimônio e já era considerado extraviado quando o fundo foi encerrado, em 1980. Desde então, afirmam ter conduzido buscas contínuas para localizar a pintura.
A versão apresentada pela Christie’s, entretanto, descreve uma trajetória diferente para a obra. A documentação de procedência divulgada pela casa de leilões indica que o quadro passou pela Gimpel and Weitzenhoffer Gallery, em Nova York, antes de ser adquirido pela família Weis em 1984. Para os autores da ação, essa cadeia de propriedade apresenta lacunas que impedem sua validação. O processo argumenta que Marion Zeckendorf jamais vendeu a pintura antes de sua morte e que seu marido, William Zeckendorf Sr., falecido em 1976, tampouco teria autorização legal para negociá-la posteriormente. Os herdeiros também afirmam ter solicitado a devolução da obra antes do leilão, mas o pedido teria sido recusado.
Outro ponto central da disputa envolve a documentação utilizada para comprovar a origem da pintura. De acordo com a ação judicial, os representantes do espólio da família Weis apresentaram uma fatura atribuída à Niveau Gallery, datada de 1984, que conteria inconsistências em relação a documentos preservados nos arquivos do Smithsonian Institution. Entre os elementos apontados está a coloração do formulário, que, segundo os autores, não corresponde ao padrão adotado pela galeria naquele período, levantando suspeitas de que o documento possa ter sido produzido posteriormente. A Christie’s, por sua vez, declarou que tinha conhecimento da reivindicação antes da venda e afirmou ter solucionado a questão previamente, sustentando que a titularidade da obra foi regularmente transferida ao comprador e que eventuais disputas financeiras não envolvem a casa de leilões.
O histórico do quadro também passou pelo Art Loss Register, principal banco de dados internacional dedicado ao rastreamento de obras desaparecidas ou furtadas. A pintura permaneceu registrada entre 2008 e 2025, embora o cadastro não incluísse fotografias capazes de confirmar de forma definitiva sua identidade. A organização informou que retirou o registro após o responsável pela notificação comunicar que não desejava impedir a realização do leilão e deixar de apresentar documentação complementar que sustentasse a reivindicação. Enquanto a venda da coleção Weis arrecadou US$ 218,1 milhões (aproximadamente R$ 1,11 bilhão) muito acima da estimativa inicial, o destino dos US$ 4,955 milhões (cerca de R$ 25,32 milhões) obtidos especificamente com a obra de Soulages deverá depender agora do desfecho da disputa judicial, que poderá redefinir a cadeia de propriedade de um dos lotes mais valiosos da temporada.


