Meses após permanecerem em silêncio desde a prisão, os dois principais suspeitos do roubo das Joias da Coroa Francesa no Museu do Louvre apresentaram uma nova versão dos acontecimentos à Justiça de Paris e reacenderam as dúvidas sobre quem realmente comandou um dos crimes patrimoniais mais audaciosos da França nos últimos anos. Em depoimentos divulgados pelo jornal Le Monde, Abdoulaye N., de 40 anos, e Ghelamallah A., de 36, afirmaram que foram recrutados poucos dias antes da invasão por um financiador cuja identidade, segundo eles, continua desconhecida das autoridades e permanece protegida por receio de represálias.
Os investigados, denunciados por participação em roubo cometido por organização criminosa, relataram que receberam instruções detalhadas para executar a ação. Segundo seus depoimentos, o suposto mandante enviou um vídeo gravado no interior da Galeria Apollo, espaço que abriga parte das joias históricas da monarquia francesa, acompanhado de orientações objetivas para quebrar uma das janelas do salão e retirar as peças expostas nas vitrines. Abdoulaye declarou que atravessava uma grave crise financeira e aceitou participar da operação após a promessa de receber entre 15 mil e 20 mil euros, valor que poderia ser ampliado conforme o resultado do crime. Já Ghelamallah sustentou que acreditava estar participando de um roubo contra uma joalheria em Paris e afirmou que jamais teria aceitado a proposta se soubesse que o alvo era o museu mais visitado do mundo.
Na manhã de 19 de outubro de 2025, os dois homens encontraram outros comparsas em Aubervilliers, na região metropolitana de Paris, e utilizaram uma plataforma elevatória motorizada para alcançar a Galeria Apollo. Vestindo coletes de operários da construção civil, quebraram uma janela, invadiram o espaço e cortaram o vidro de duas vitrines em uma ação que durou cerca de oito minutos. O grupo conseguiu fugir levando oito joias históricas, entre elas tiaras, colares, brincos e um broche, avaliadas em mais de 88 milhões de euros. Durante a fuga, Abdoulaye admitiu ter deixado cair a coroa da imperatriz Eugénie, posteriormente recuperada nas proximidades da janela utilizada para a invasão.
Os suspeitos afirmam que, após escapar do Louvre, seguiram um trajeto propositalmente confuso para dificultar o trabalho da polícia antes de retornar a Aubervilliers, onde o suposto patrocinador aguardava para receber as peças. Imagens de baixa qualidade obtidas por investigadores em um estacionamento seriam compatíveis com essa narrativa e mostram um homem usando capacete manipulando as joias. Segundo Abdoulaye, o financiador teria demonstrado insatisfação com o resultado do roubo por acreditar que o grupo poderia ter levado um número maior de peças e, em seguida, repassou o material para outras pessoas que aguardavam no local. Apesar das declarações, ambos se recusam a revelar qualquer nome, alegando que receberam contatos externos durante o período de prisão preventiva e temem consequências para si e para seus familiares caso colaborem com a identificação do suposto mandante.
As autoridades francesas, entretanto, ainda tratam essa versão com cautela. Até o momento, investigadores não encontraram evidências digitais ou materiais capazes de confirmar a existência do alegado patrocinador ou de uma estrutura criminosa mais ampla além dos quatro suspeitos já identificados. Paralelamente, as buscas pelas joias continuam sem resultados concretos, alimentando o receio de que parte desse patrimônio histórico francês tenha sido desmontada e que esmeraldas, safiras e diamantes tenham sido separados de suas montagens originais para abastecer o mercado clandestino internacional. Enquanto a investigação permanece aberta, Abdoulaye reconhece sua participação na invasão e afirma lamentar o envolvimento, mas insiste que desconhece o destino final das peças e o verdadeiro alcance da organização que, segundo sua versão, teria planejado toda a operação.


