Performance histórica de Yoko Ono ganha nova apresentação após 60 anos

Poucas obras da história da arte performática carregam uma tensão tão imediata quanto Cut Piece, criada por Yoko Ono em 1964. Na ação original, a artista permanecia sentada e imóvel enquanto pessoas da plateia eram convidadas a cortar pedaços de sua roupa com uma tesoura. Seis décadas depois, o trabalho retorna ao palco em uma nova apresentação organizada pelo The Broad, em Los Angeles, como parte da retrospectiva Yoko Ono: Music of the Mind. A instituição exibirá a performance ao vivo no teatro Redcat nos dias 18 e 19 de julho, desta vez interpretada pela artista MPA, baseada na Califórnia.

A decisão de levar novamente Cut Piece ao público não surgiu apenas do valor histórico da obra, mas da percepção de que a documentação em vídeo já não transmite plenamente o desconforto que ela provoca. Nas imagens da apresentação de 1965 no Carnegie Hall, projetadas na exposição do The Broad, o espectador observa a artista tentando manter a compostura enquanto desconhecidos decidem quanto de sua roupa remover. Para Sarah Loyer, curadora e gerente de exposições do museu, assistir ao registro filmado significa estar protegido por uma distância temporal e física. A apresentação ao vivo, ao contrário, devolve ao público a responsabilidade de agir e de lidar com as consequências de suas escolhas.

MPA aceitou o convite do estúdio de Yoko Ono com entusiasmo e apreensão. Acostumada a trabalhos de longa duração e a performances que investigam a relação entre corpo, política e exposição pública, ela afirma que o desafio não está na presença das tesouras, mas em enfrentar uma obra tão conhecida que já influenciou artistas como Marina Abramović e até referências da cultura pop. Sua principal pergunta era se Cut Piece ainda poderia ferir, surpreender ou inquietar em 2026, ou se correria o risco de se tornar apenas uma reconstituição reverente de um clássico do século XX.

O estúdio de Ono rejeita justamente essa ideia de reencenação. Segundo Connor Monahan, diretor da instituição desde 2008, cada apresentação constitui uma obra nova, determinada pelo contexto, pelo público e pelo momento histórico em que ocorre. As instruções permanecem as mesmas, mas as pessoas nunca são as mesmas. A artista japonesa apresentou Cut Piece diversas vezes entre 1964 e 2003, e sua relação com o trabalho mudou profundamente ao longo desse período. O gesto que nasceu associado à raiva diante da violência dirigida aos corpos femininos acabou sendo reformulado por ela como um ato de paz e de compartilhamento.

Essa transformação interessa particularmente a MPA. Em sua pesquisa preparatória, ela percebeu que a expressão de vulnerabilidade presente nas primeiras imagens de Yoko Ono se torna menos ansiosa nas apresentações posteriores. A própria performer reconhece uma afinidade com o subtexto violento da obra inicial, já que parte de sua produção também nasceu da tentativa de elaborar experiências de violação e exclusão. Hoje, porém, diz encontrar um estado emocional mais próximo da convivência entre indignação e afeto, algo que considera essencial para interpretar Cut Piece sem reduzir a obra a um símbolo histórico congelado.

Para as apresentações em Los Angeles, MPA escolheu roupas de designers ligados a contextos marcados por guerra e violência estatal, o mexicano Víctor Barragán e a moldava Aliona Kononova, reforçando a dimensão política do corpo em cena. Ainda assim, ela admite que não há qualquer garantia sobre como a performance irá se desenvolver. O contato das tesouras com sua pele, o comportamento da plateia e os limites que cada participante decidir respeitar continuam sendo incógnitas. Talvez seja justamente essa ausência de controle que explique por que Cut Piece permanece tão perturbadora: a obra não revela apenas a vulnerabilidade de quem está no palco, mas também a disposição do público de avançar, hesitar ou parar diante do outro.

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