Ação performática com fumaça colorida e palavras de ordem intensifica crise política e obriga interrupção temporária da exposição
A escalada de tensões na Bienal de Veneza ganhou um novo capítulo com a intervenção direta dos coletivos feministas Pussy Riot e FEMEN, que protagonizaram um dos protestos mais visíveis desta edição ao bloquear o acesso ao pavilhão da Rússia durante os dias de pré-abertura. A ação, que reuniu dezenas de ativistas, resultou no fechamento temporário do espaço e consolidou o evento como epicentro de disputas geopolíticas que ultrapassam o campo artístico.
Vestindo os característicos balaclavas coloridos, integrantes do grupo lançaram fumaça nas cores da bandeira ucraniana enquanto entoavam slogans contra a presença russa na mostra, em um gesto que combinou performance e ação direta. A intervenção, que durou cerca de meia hora, impediu o funcionamento normal do pavilhão e mobilizou forças de segurança no local, sem registro de confrontos mais graves.
O protesto foi motivado pela decisão da organização da Bienal de permitir o retorno da Rússia ao evento, após sua ausência desde a invasão da Ucrânia em 2022, uma escolha que vem sendo amplamente criticada por artistas, instituições e autoridades europeias. Para as ativistas, a participação russa opera como instrumento de “soft power”, utilizando a cultura como forma de legitimação simbólica em meio ao conflito internacional.
A ação também incorpora um discurso mais amplo, articulado por figuras como Nadya Tolokonnikova, que questionam a abertura institucional da Bienal diante de países envolvidos em conflitos armados, propondo inclusive a substituição da representação oficial por projetos de artistas dissidentes e presos políticos.
Inserido em um contexto já marcado por renúncia do júri, ameaças de corte de financiamento europeu e protestos contra o pavilhão de Israel, o episódio reforça a transformação da Bienal em um espaço de confronto ativo, onde a produção artística se entrelaça com estratégias de visibilidade política. Nesse cenário, a ação de Pussy Riot e FEMEN não apenas interrompe o funcionamento de um pavilhão, mas evidencia a fragilidade de um modelo expositivo que busca sustentar neutralidade em meio a um ambiente global cada vez mais polarizado.


