Exposição inédita na Fondazione Giorgio Cini reúne pinturas monumentais concebidas como obra final do artista alemão, dias após sua morte
Aberta ao público nesta semana em Veneza, a exposição Eroi d’Oro marca não apenas a estreia de um novo conjunto de obras de Georg Baselitz, mas também a consolidação de um encerramento anunciado pelo próprio artista. Instalado na Fondazione Giorgio Cini, o projeto apresenta uma série de pinturas figurativas de grande escala, construídas sobre fundos dourados, que agora assumem o peso de um testamento visual após sua morte em 30 de abril, aos 88 anos.
Concebida como uma continuidade tardia de sua célebre série Heroes, iniciada nos anos 1960, a nova produção retoma figuras humanas em estado de vulnerabilidade, agora inseridas em superfícies douradas que evocam tanto a tradição dos ícones quanto uma suspensão do espaço pictórico. Ao substituir a profundidade pela planicidade luminosa do ouro, Baselitz radicaliza uma investigação formal que atravessa décadas de sua prática, aproximando o gesto contemporâneo de uma memória histórica da pintura europeia.
Curada por Luca Massimo Barbero, a mostra reúne esse conjunto recente como um núcleo coeso, no qual aparecem autorretratos, nus e retratos de sua esposa, tratados com linhas incisivas e áreas de cor espessa que contrastam com a superfície metálica. A escala monumental das telas reforça a dimensão física dessas figuras, ao mesmo tempo em que o ouro absorve a luz e dissolve qualquer ilusão de profundidade, criando uma tensão entre presença e apagamento.
Pouco antes de sua morte, o artista registrou um vídeo no qual apresenta a série como sua última declaração, atribuindo ao conjunto um caráter conclusivo que agora se confirma de maneira definitiva. O título Eroi d’Oro, longe de sugerir heroísmo clássico, parece operar como uma ironia tardia, na qual o corpo, envelhecido e instável, substitui qualquer noção de grandiosidade.
Aberta até 27 de setembro e realizada em paralelo à 61ª Bienal de Veneza, a exposição insere esse desfecho em um contexto já marcado por tensões e reconfigurações institucionais. Nesse cenário, o trabalho final de Baselitz não surge como um epílogo isolado, mas como uma presença silenciosa que atravessa o ruído do presente, reafirmando a pintura como um campo ainda capaz de absorver o tempo, a história e, agora, a própria finitude do artista.
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