Zamboada de Paulo Agi

A técnica de subtração, reiterada pelo artista – preencher o fundo e desenhar apagando, ou criar um campo cromático e retirar finas camadas de tinta – dá a essa leitura sua sustentação material: a sinédoque não é apenas uma figura do discurso aplicada à pintura, mas um procedimento de superfície que produz o visível como resto, como resíduo controlado de uma operação de desgaste

POR FABRÍCIO REINER

“significar o outro da significação”
Jean‑François Lyotard. Discourse, Figure. 2011, p 13.

Há talvez um ponto de partida literário em Zamboada que pode agir neste ensaio para além do aspecto regionalista e exótico que se quer emoldurar as pinturas de Paulo Agi. Porque a literatura – sobretudo quando se instala no limiar entre nomear e fazer existir – ensina a reconhecer que há mundos que só se deixam capturar quando a linguagem aceita perder a referência. No caso, o Pantanal que inunda as paredes da Gruta, deste pintor sul mato-grossense, mais que descrever o alagadiço regional, faz aparecer recortes, elipses e restos de visagens que contam meias-verdades de um lugar quase descrito apenas pelas partes, nunca pelo todo. A poesia de Manoel de Barros, convocada como horizonte de ressonância, oferece exatamente isso quando faz do ‘fundo’ não um cenário, mas uma anterioridade: um plano que antecede as coisas e que, por isso mesmo, resiste a ser completamente convertido em imagem. Ideia que a curadora Marina Schiesari capta (a partir do poeta) e amplia na excelente apresentação da mostra, tomando-a como base para adensar o leitor na profundidade das telas. O dado decisivo nesse aguaçal é que essa profundeza ilimitada de fundo não é tratada como ilusão de perspectiva, mas como estratigrafia construída apenas pelas raspagens das camadas de óleo. Agi, assim, reúne pinturas recentes em que a fauna pantaneira é o motivo recorrente e renovado, não como retrato, mas como uma espécie de gramática pictórica em que a parte carrega o todo e, ao mesmo tempo, comparece cindida, incompleta e fugidia.

De modo que, se o fundo aqui não é cenário, então também a figura se recusa a ser plenitude. E o que se anuncia, nesse vaivém entre fundo e emergência, é um regime em que a sinédoque deixa de ser apenas um recurso de linguagem para tornar-se um princípio de construção pictórica. Em termos estritos, ela nomeia a substituição do todo pela parte, ou da parte pelo todo, por uma relação de inclusão, não de semelhança; uma figura em que a inteligibilidade depende de pertencimento e de escala, como quando um ‘teto’ basta para evocar a casa, ou ‘cabeças’ para evocar o gado. Ora, o que se instaura nas telas de Agi é precisamente esse tipo de profusão: não há Pantanal, mas uma insistência de suas partes, e, mais radicalmente, uma insistência das partes não como fragmentos acidentais, e sim como recortes constitutivos que fazem do ‘todo’ uma hipótese completada naquele que vê. A sinédoque, nesse sentido, não equivale à redução, mas a imaginar um mundo tão vasto quanto o infinito que o poeta funda e o pintor engaja.

Essa condição tem consequências decisivas para o modo como os animais vislumbram. Já que eles não são emblemas identitários, atuam como unidades metonímicas de contato, índices de uma contiguidade que não se deixa sintetizar no panorama. É sempre útil lembrar que um discurso pode avançar por similaridade ou por contiguidade e que é no eixo metonímico – o da proximidade, do encadeamento, da parte que toca um contexto sem precisar ilustrá-lo – que se instalam as sinédoques. Lidas desse modo, as telas de Zamboada parecem recusar a tentação do tema e preferir o mecanismo: a fauna como um modo de articular o fundo por aderência, de fazer com que um corpo – mesmo quando não se oferece por completo – baste para que o restante do mundo se anuncie como pressão, como rumor, como anterioridade. E porque a fauna, em Agi, não coincide consigo mesma, porque ela comparece frequentemente como porção, como corte, como presença que se dá por aparição, a incompletude se converte em uma forma de verdade da pintura, uma espécie de rigor do recorte que impede que o bicho se estabilize como imagem-objeto.

A técnica de subtração, reiterada pelo artista – preencher o fundo e desenhar apagando, ou criar um campo cromático e retirar finas camadas de tinta – dá a essa leitura sua sustentação material: a sinédoque não é apenas uma figura do discurso aplicada à pintura, mas um procedimento de superfície que produz o visível como resto, como resíduo controlado de uma operação de desgaste. Pois, se o que aparece é aquilo que foi obtido por retirada, então toda figura carrega consigo a memória do fundo como condição. Nesse ponto, ganha densidade a ideia de figural, no sentido de Lyotard: como aquilo que, na imagem, excede o discurso referencial e se impõe como força, como diferença de intensidade, como distribuição sensível que pensa por si. Com efeito, vale dizer que, em Paulo Agi, o pensamento da pintura se dá pela intensidade, pela dicção cromática e pela escavação do plano, e não pela narrativa de um ‘lugar’ que pudesse ser integralmente nomeado.

E talvez seja aqui que a noção ganhe sua maior precisão, porque ela evita dois extremos igualmente rasteiros, mas abundantes: nem o Pantanal como exotismo (o todo mitificado), nem o Pantanal como referente (o todo documentado). A sinédoque de Agi mantém o Pantanal como problema: pictórico e social. O que essas pinturas parecem afirmar é que o mundo não cabe em reduções de imagens higienizadas, mas na honestidade de uma cifra que escapa ao consumível. Nesse montante, o animal é Pantanal e não o é; é sinal de um fundo e um corte em si mesmo; e é justamente por jamais se oferecer como totalidade pacificada que ele escapa da moldura: não porque renuncie ao lugar, mas porque recusa a forma mais comum de capturá-lo.

 Zamboada de Paulo Agi, tem curadoria de Marina Schiesari, na Gruta Espaço de Arte, de 11 abril até 11 maio de 2026.

Fabrício Reiner é mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo, aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto a Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador e curador
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