Hudinilson Jr. Caderno de Referências 43 (1990s). Divulgação.

Um Plano de Extrapolação ou Desejo Negativo | Martins & Montero

POR NOAH MANCINI No dia 30 de outubro, estive na abertura da exposição Um Plano de Extrapolação ou Desejo Negativo, na galeria Martins & Montero, em São Paulo. Com curadoria de Jota Mombaça, a mostra reúne obras de Bruna Kury, Hudinilson Jr. e Tetê. A programação segue em cartaz até 24 de janeiro de 2026. […]

POR NOAH MANCINI

No dia 30 de outubro, estive na abertura da exposição Um Plano de Extrapolação ou Desejo Negativo, na galeria Martins & Montero, em São Paulo. Com curadoria de Jota Mombaça, a mostra reúne obras de Bruna Kury, Hudinilson Jr. e Tetê. A programação segue em cartaz até 24 de janeiro de 2026.

A exposição parte de um campo de forças. Num Eros em limiar friccional de corpo e linguagem, o erotismo se converte em ferramenta crítica. O exacerbo e o indício atravessam gestos de arquivo e exposição. Não um discurso uniformizante sobre o desejo, mas alguns exercícios de desajuste, no impulso de interrupção, balançando o existir e desejar. O corpo ou o amor são um campo de batalha, como diria Barbara Kruger ou Pat Benatar. 

Vale anotar, que ao começo de tudo, os trabalhos estão distribuídos pela galeria de maneira não hermética. Através da visitação, vamos supondo-os e os descobrindo. A saleta que a exposição ocupa já nos ambienta em imersão quando nela adentramos: um papel de parede preenche todo o espaço. Trata-se da proposição instalativa de Bruna Kury, Um quebracabeça dentro de outros quebracabeças (2025). Em paredes e teto inteiramente cobertos por colagens, desenhos, palavras, e fragmentos visuais, tal conjunto ambienta-nos em sobreposições não hierárquicas – e são tantas. Com certa apresentação caótica, identificam-se lacraias, cobras, baratas, teias de aranha, beijos de batom, navalhas, pipocas, buracos, recortes anatômicos, flores, facas, seringas, pedaços de carne crua, comprimidos, dildos, melancia no shibari, Lacraia (a dançarina), chamas, e símbolos de gênero. Também constam alguns dizeres disparadores, como  borders”, e “MATE O BRANCO DENTRO DE VOCÊ!”.

Bruna Kury, Escorpionikas (2024). Divulgação

A composição estética, em contemporânea colagem de manifesto, mistura texturas, cores e palavras performáticas, trazendo o texto para caminhar por ângulos e proporções da composição visual. Bruna referencia sua própria trajetória, utilizando imagens de trabalhos anteriores, como o filme Gentrificação dos Afetos (2021). Ao expandir essas heranças para o presente, em proposição divertidíssima, o espaço expositivo verte-se em imersão sensorial e discursiva. Marcada por deslocamentos territoriais e por uma prática que mistura autobiografia e crítica social, Bruna constrói uma instalação em fluxo. Caminhantes errantes num dispositivo de desordem e preenchimento, borrando as fronteiras entre arte e ativismo, corpo e território, público e íntimo. Seu gesto é denúncia mas não somente: propõe a incorporação dos ruídos. Tal efeito de profundidade, como um grande mural de referências e provocações múltiplas, auspicia o olhar e o corpo a circularem pelo espaço, num campo minado de ideias.

Em três totens, estão os Cadernos de Referência de Hudinilson Jr. (1980-2000). Abertas, essas apostilas apontam para imagens de processo, da criação em investigação. Fotografias homoeróticas, homens nus se beijam, desenhos de Tom of Finland, estudos anatômicos, ilustrações de um tempo pregresso. Em páginas amareladas, nos desgastes do tempo, podem ser talvez o ponto iniciante para uma leitura expandida das entranhas entre corpo, imagem e poder. O artista, cuja prática atravessou as décadas de 1980 e 1990, elaborou um repertório de colagens, fotografias e anotações que tensionam o corpo masculino como território de prazer e de vigilância – um ótimo viadão à la Foucault. 

Em determinada página, há uma montagem composta por texto datilografado e colagens em preto e branco. Na metade superior, observam-se retratos masculinos. Em outra página, domina uma grande imagem em preto e branco de uma pessoa nua, de costas, curvada sobre uma cama. A composição é repetida em tamanhos menores, dispostas em sequência na parte inferior, criando efeitos de repetição cinematográfica. Os conjuntos sugerem uma montagem manual, de caráter laboratorial. Por sua vez, outra das fotos exibe dois homens nus abraçados sobre lençóis. O espedaçamento, a sobrepujança da figura masculina e a repetição — características recorrentes em seu trabalho — tornam-se ferramentas desestabilizadoras de certa identidade. A obra de Hudinilson, em pranchas recheadas de seu imaginário visual, aponta assim para uma zona peculiarmente perfumada: por fragrâncias onde o suor sobre o arquivo conflitua entre erotismo, afeto e documentação corporal.

Tetê, fotografia da performance “Lanchão” (2022). © Cortesia da artista e Martins & Montero

Já tetê, apresenta bote (por uma noite apenas ou até que a morte nos separe) (2025), obra resoluta em uma fotografia de dimensões expansivas, dialogante com a arquitetura imponente da casa grande que a galeria habita, desloca a captura do retrato para algum viés de ausência. Ela está fora do espaço expográfico convencionado. A imagem – embora seja grande – convive com um apagamento calculado, ocultando a total legibilidade da face. Instalada na fachada da galeria, cria uma relação direta com o espaço público e seus transeuntes, recusando a total transparência da autoexposição. Onde a princípio estaria o visionamento na entrada do público no espaço, deleita-se como cereja do bolo, esforçando-nos a observá-la, procurá-la, levantar as cabeças em riste para então sermos encarados pela face que prepara o bote, sentido desejante. Cuidado que ela te pega daqui, te pega de lá. 

O envolvimento entre Hudinilson Jr., Bruna Kury e tetê opera um poroso território de contaminação entre diferentes temporalidades, linguagens e corpos. A exposição traz, assim, uma reflexão sobre o erotismo como prática política de descontinuidade, pensando as corrosões das estruturas sustentadoras das normatividades de gênero e de corpo – e como elas nos competem. O corpo aqui recusa sua plenitude produtivista, e muitas vezes vira fragmento, apontando os idiossincráticos sulcos. Entre a ardileza da instabilidade, num joguete de tira e põe o que é visível, a exposição encontra seu nexo e denuncia tais lexos. Aqui está a recusa de estabilizar o desejo – em não vedá-lo como tudo que o mundo às voltas insiste – mas também a insistência em fazer do corpo máquina orgânica de experimentação e disputa.

 

Um Plano de Extrapolação ou Desejo Negativo
Bruna Kury, Hudinilson Jr. e tetê
Curadoria de Jota Mombaça
Martins & Montero, São Paulo
Até 24 de Janeiro de 2026

Noah Mancini (1996 – Juiz de Fora, MG), é Bacharel Interdisciplinar em Artes e Design pela UFJF, MBA em Comunicação e Marketing pela Descomplica e Mestre em Cinema e Artes do Vídeo pela UNESPAR (Bolsista Fundação Araucária). Desenvolve seu trabalho entre texto, corpo e imagem.

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