Um artista no centro do Solar

POR DOMI VALANSI   De autoria e residência do arquiteto Grandjean de Montigny, que veio ao Brasil junto com a Missão Artística Francesa em março de 1816, o Solar é um dos raros exemplos da arquitetura neoclássica brasileira. Localizado na Gávea, no Campus da PUC-Rio, foi revitalizado na década de 1980 e desde então é […]

POR DOMI VALANSI

 

De autoria e residência do arquiteto Grandjean de Montigny, que veio ao Brasil junto com a Missão Artística Francesa em março de 1816, o Solar é um dos raros exemplos da arquitetura neoclássica brasileira. Localizado na Gávea, no Campus da PUC-Rio, foi revitalizado na década de 1980 e desde então é um museu universitário, voltado para realização de atividades culturais. Depois de passar pela gestão de Frederico Coelho, desde junho do ano passado o espaço é gerido pelo artista visual e professor Cadu, que investe numa agenda voltada a exposições que dialoguem com a história do edifício e o território no qual está localizado.

O convite surgiu do Centro de Teologia e Ciências Humanas (CTCH) e do Reitor Padre Anderson, que buscavam alguém do quadro da instituição com trajetória em cultura e que atuasse, pedagogicamente, também como curador e criador. Cadu é professor pesquisador do Departamento de Artes e Design onde coordena o LINDA – Laboratório Interdisciplinar em Natureza, Design & Arte, que constitui com outros centros de pesquisa o programa de pós-graduação da Pontifícia. Atuou por quase uma década como professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV) e participou de inúmeras exposições nacionais e internacionais como artista e idealizador. Além de ser representado pelas Galeria Vermelho (SP) e Silvia Cintra (RJ).

“O Solar Grandjean de Montigny, ao redor do qual, literalmente, orbitam os diferentes edifícios da universidade, merecia retomar sua relevância. As contingências dos últimos anos, dentre elas a pandemia, eclipsaram o papel aglutinador que o lugar sempre exerceu. Mas estamos num novo momento. Há movimentos e parcerias que estão pensando o Vale da Gávea: que se inicia na EAV, passando pelo parque e o Museu do Jardim Botânico, pelos teatros e galerias de arte da região, além do Instituto Moreira Sales e se estendendo até o Museu Histórico da Cidade – localizado no Parque da Cidade, próximo à comunidade da Rocinha –, formando um verdadeiro corredor cultural”, conta Cadu. Sua ideia é que o Solar volte a exercer gravidade, como na astronomia, recuperando sua vocação para os debates artísticos tanto no interior da comunidade acadêmica, quanto no resto da cidade.

“Em algum momento também, com a nova estação do metrô, a região ganhará um trânsito e fluxo de pessoas muito interessante, muito diverso, tornando o Solar mais acessível. Logo, temos que aproveitar esse potencial e eu estou disposto, com o humilde capital simbólico que adquiri nesses anos todos de atuação, atrair exposições de relevância, que unam saberes científicos e poéticos, ancestrais e tecnológicos, históricos e pra frentex, espelhando a diversidade de saberes e visões que circulam diariamente nesta universidade. Mas não nego, é um desafio dos grandes, porém dos que compensam”, conta o artista.

No fim de 2024, Cadu cumpriu a agenda deixada por Frederico Coelho, com um cunho mais histórico etnográfico. Foi exibida a mostra “32 Dias: imagens da Prisão”, com registros videográficos de uma câmera de filmar infiltradas para dentro no Presídio Frei Caneca, no Rio de Janeiro, em 1979, onde o fotógrafo Paulo Jabur estava encarcerado com outros companheiros. A mostra foi organizada pelos grupos Lacuna e Contraarquivo formado por pesquisadoras da PUC e colaboradoras externas.

Em seguida aconteceu a primeira edição do Corredor Cultural na Gávea, evento que marcou oficialmente o lançamento do projeto Gávea do Rio, com o objetivo de integrar o campus a outras instituições culturais da região. “Para a ocasião consolidamos uma parceria com o Museu Bispo do Rosário e o Ateliê Gaia, o grupo de artistas que trabalha como um coletivo num dos prédios da antiga colônia. Discutimos o tema da exposição com os integrantes e elaboramos a mostra ‘Primavera’. Uma curadoria compartilhada entre o professor da PUC André Côrtes, as curadoras Diana Kolker, Juliana Trajano e Napê Rocha do Bispo e eu. Foi realmente uma primavera, um ressurgimento, marcando de esperança e fertilidade esse novo início”.

Em paralelo ocorreu a exposição de 15 anos do NEXT – Núcleo de Experimentação Tridimensional, coordenado pelos professores do Design Jorge Lopes e Claudio Magalhães, que atua em áreas como saúde, ecologia, gestão, prototipagem e outros processos técnicos avançados em representação digital.  “Esta mostra contou com uma série de experimentos interessantíssimos realizados por pesquisadores da graduação e da pós com impressão aditiva, escaneamento de acervo, robótica, medicina e parcerias com o Museu Nacional, da Quinta da Boa Vista, através da apresentação de obras de artes feitas com os escombros remanescentes do incêndio do museu. Vale destacar aqui a importância do professor Sergio Azevedo da UFRJ, que coordena o LAPID, cujos anos de parceria com o Jorge e o Claudio foi responsável por digitalizar coleções inteiras do museu, que se perderam na tragédia. Foi uma mostra que também ocupou o subsolo, ou o térreo na realidade do Solar, que antes era ocupado pelo Projeto Portinari, hoje localizado em outro local no campus, e que agora foi incorporado como área de exposição. Então é interessante que este novo momento seja marcado por uma ampliação do espaço”. Fecharam o ano as mostras “ANOMALIA” e “Fotosfera”, organizada por alunos do Departamento de Design da PUC-Rio.

“Agora, no calendário de 2025, estamos criando um diálogo da PUC com seus ex-alunos. Tivemos uma primeira exposição com Adriano Motta, intitulada ‘New Object’. Designer formado por nosso departamento, diretor de arte e pintor, o artista apresentou uma série de desenhos e pinturas que fazem a passagem entre o digital e o analógico, usando softwares de modelagem para gerar narrativas repletas de humor e crítica sobre nossa sociedade em rede. Adriano também apresentou uma série de filmes curtos usando esses mesmos softwares, criando um diálogo com a obra do dramaturgo Samuel Beckett, com a linguagem de games e metaversos, além de outras tão provocativas, que não sabíamos se estávamos assistindo a uma propaganda de telefonia ou uma sessão de tortura em Guantánamo”.

No final de maio, foi a vez do Pavilhão 5 de Maxwell Alexandre, “Clube: estudos de tipo”, seguindo o modelo de exposições experimentais do artista, com obras produzidas especialmente para o espaço, a partir de suas vivências no Clube do Flamengo, também localizado na Gávea. A mostra bateu recorde de público para os padrões do Solar. Vale lembrar que Maxwell também foi ex-aluno do design, desenvolvendo por quase dez anos uma relação de troca constante com Cadu. 

A agenda vai prosseguir com a mostra da artista carioca Bete Esteves. “elataquidentro” vai apresentar as múltiplas linguagens exploradas pela artista – vídeo, desenho, fotografia, maquinaria cinética e instalações – celebrando seus 40 anos de carreira. A exposição terá curadoria de Bia Petrus, discutindo a história do Solar e a trajetória familiar da Bete. “Depois teremos a retrospectiva do Mário Mendonça, um pintor dedicado a arte sacra, que é talvez o brasileiro vivo mais importante nessa área. Está completando 90 anos e vai apresentar sua obra em diálogo com a liturgia desta universidade. Em dezembro, a gente fica mais aberto para iniciativas mais rápidas da própria comunidade PUC (como defesas de mestrado, doutorado) e no início de 2026 já temos marcada uma exposição do Ateliê Coletivo de Gravura da Angela Rolim, e uma exposição em parceria com o Museu do Neorrealismo Português”.

Outra informação sobre o Solar de Grandjean de Montigny é que a instituição possui um acervo próprio, que fica em exibição, espalhado pela universidade. “São trabalhos de Cândido Portinari, Roberto Burle Marx e outras doações de gente importante ou nem tão importante assim, nacionais e internacionais, que ficam nos departamentos, pelas salas de reuniões, pelos lugares de passagem dos alunos. O que é interessantíssimo para pensar o museu de forma ampliada. Mas que, claro, gera uma certa responsabilidade de manter e de saber por onde essas coisas andam e em que condição. Mas esse trabalho, essa catalogação braçal e cuidadosa, foi muito bem feito pelas diretorias anteriores, Margarida de Souza Neves e Piedade Grinberg, e consolidado pelo Núcleo de Memória da PUC. Então está tudo mapeado”.

Para abrigar tantas frente, Cadu também pensa na manutenção do espaço para manter as portas abertas. Apesar de pequenas reformas, uma grande obra não é realizada no Solar há mais de 40 anos. Mas, para isso, são necessárias verbas provenientes de Leis de Incentivo. “A gente espera que, com a reforma, haja um espaço de conservação e manuseio onde se possa elaborar com uma equipe ampliada recortes sobre o que temos. Afinal um museu tem por missão, trabalhar, repensar e ampliar seu acervo. Então é realmente a hora de reacender isso aqui, explorar ao máximo as potencialidades circundantes e promover a real vocação para a qual esta contrução está no campus, fomentar a cultura em todas as suas vertentes e nuances. O Solar é pleno de histórias, obras, coisas e pessoas, tornando-o uma fonte de emanação de luz, um farol, e desejamos com essa imanência dar contornos as tantas silhuetas que aqui brilharam”.

Completa o Solar a Biblioteca Irma Arestizábal, iniciada a partir de doação da própria professora, dedicada à arte, à arquitetura e outros campos de saberes das ciências humanas. “É uma fonte de consulta usada dentro da universidade por alunos que vão desde o departamento de História passando para Psicologia, Artes, Design e Letras. É um patrimônio que precisa ser mais divulgado interno e externamente. Estou pensando em comprar umas redes e abrir as portas da biblioteca pros jardins da casa, como o slogan: “venha se solarizar no Solar”, meio debochado, mas acho que pode dar bom”.

Além do Solar da PUC, Cadu tem mais uma grande obra de Grandjean de Montigny no currículo. Ele acaba de participar do reposicionamento da Casa França-Brasil (antiga Praça de Comércio, inaugurada em 1820, no Centro do Rio), que através do patrocínio da Petrobrás passou a se chamar CASA BRASIL, absorvendo debates atuais ligados à colonialidade e questões da identidade nacional. O artista forma o corpo curatorial e pedagógico da instituição ao lado de Aliã Wamiri Guajajara e Marcelo Campos, com coordenação de projetos de Jocelino Pessoa e direção de Tania Queiroz.

As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.

Domi Valansi, jornalista e pesquisadora de arte.

Compartilhar:

Confira outras matérias

A Bienal em Estado de Tensão: Política, Escuta e Dissenso na 61ª Bienal de Veneza

POR TEREZA DE ARRUDA
A 61ª Bienal de Veneza entra para a história não apenas pela força de sua proposta curatorial, …

Marina Abramović. On the Erotic

POR MAGDALENA DE ARRUDA Ilg
Marina Abramović vem expandindo os limites da performance há mais de três décadas. Entre 1965 e …

Agorinha – Jesus José

POR FABRÍCIO REINER
Há pinturas diante das quais os olhos avançam com o corpo inteiro, como quem chega a um lugar …

A partir da pintura de Paulo Pasta

POR FABRÍCIO REINER
Precisão e espírito é mostra que apresenta obras recentes de Paulo Pasta a partir da pintura como prática …

LUIZA GOTTSCHALK: LUZ_AIR

POR SIMON WATSON
Um colosso gótico e sombrio foi meu primeiro e poderoso lampejo de inspiração ao ver uma pintura de …

Dupla cura, de Dalton Paula

POR ALECSANDRA MATIAS DE OLIVEIRA
“A cura pode acontecer quando escolhemos o amor.”
bell hooks
A exposição Dupla cura, de Dalton Paula, com …

Zamboada de Paulo Agi

POR FABRÍCIO REINER
“significar o outro da significação”
Jean‑François Lyotard. Discourse, Figure. 2011, p 13.
Há talvez um ponto de partida literário em …

CIPIS NA BLACK FRIDAY

POR ANDRÉ TORRES
Segunda-feira, 24 de novembro, ao voltar para casa após o trabalho, entro na Angélica, vindo da Paulista, e …

O FORJAR SAGRADO, DE MATHEUS MESTIÇO

POR DOMI VALANSI
É em meio às Guardas do Catopê, Irmandade do Rosário, manifestação do Congado pelo Norte de Minas, que …

A felicidade é uma arma quente

POR FABRÍCIO REINER
Começar por Belchior sugere uma ética da lucidez que não renuncia à conflagração. Talvez a exposição A felicidade …

João Angelini: passageiro

POR TEREZA DE ARRUDA
A noção de passageiro é central nas obras apresentadas por João Angelini durante sua residência no Koganecho …

Entre matéria e ar - a escultura de José Resende

POR FABRÍCIO REINER
A melhor maneira de entrar na obra de José Resende é assumi-la como pensamento plástico: aceitar que a …

Macaléia é o espaço para “Rito para Oiticica”

POR DOMI VALANSI
Nome incontornável da arte brasileira contemporânea, Hélio Oiticica  (Rio de Janeiro, 1937-1980) se ligou à vida e às …

Vetores

POR FABRÍCIO REINER
Vetores, exposição em que a curadoria de Antônio Gonçalves Filho possibilita uma miríade de interpretações e aproximações, atua …

Sobre a polêmica curadoria da Bienal de São Paulo: bom para o curador, nem tanto para o artista

POR Flávio Rocha de Deus
Sob o título Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática, a 36º Bienal de São …