POR NOAH MANCINI
O íntimo espetacular da pintura de Titi Rivotril
Há aberturas que parecem inaugurar também estados de espírito. No dia 20 de Setembro, debutou a exposição Na Cama com Titi, individual de Titi Rivotril na Belizário Galeria. Com curadoria de Orlando Lemos, reúne uma inédita série de pinturas da artista, e permanece aberta à visitação até 25 de Outubro.
Titi Rivotril, além de pintora, canta, escreve e performa. Seu trabalho se destaca pelo caráter espontâneo e despretensioso. Em 2018, lançou o álbum Pop Conceito, com faixas como Empoderada e Leonina, além de estrear com o single Dentista Sedutor. Participa/participou da academiatransliteraria, coletivo artístico de Belo Horizonte, e da ONG Transvest.
Ao entrar em contato com seu trabalho, percebe-se a força de trânsito entre linguagens. Entre a acrílica e o óleo, passando por aplicações sobre tela, as pinturas apresentadas por Titi são vívidas, espirituosas. Possuem expressividade latente, seja nas personagens protagonistas dos quadros, ou pelas cores vivas, diferenciadas entre si, pulsantes. Nota-se que até brotam alguns brilhantes delas, tamanha a sobrepujança visual que evocam. Strass, partes de joias, espelhos, são materiais que se sobrepõem às vibrantes cores em tela.
Com espontaneidade, ilustra situações corriqueiras em ares de fantasia. Percebe-se algo do cotidiano, de si, um imagético particular, que desemboca em um universo recheado de situações imaginativas. Cenas de filmes melodramáticos, fotografias icônicas, algo que baila entre a realidade extasiante e os brilhos coloridos que extravasam a tela.
Sua pintura encontra fôlego no íntimo: o arcabouço sentimental é jardim florido onde Titi vai buscar inspirações, nas situações vividas, suas referências, no círculo afetivo que a cerca – e suas quimeras, que se materializam nas criações. O exercício da pintura é gesto de narração, ao compartilhar as histórias que atravessam sua vida, e no exercício da fabulação, transformando tais histórias em atmosferas lúdicas, do campo imaginativo que fertiliza seus pensamentos. As telas assim se apresentam, num intrigante diário aberto, confessional e fabulado. Podem haver situações tristes, que explicitam a vulnerabilidade, embora se expressem com olhar contemplativo. Sobretudo o que predomina é a ação do pulsar, da contação.
Nesses capítulos, a cultura pop emerge como linguagem tradutora. Titi usa do imaginário pop para preencher e florear seus trabalhos. Não como mero adorno, mas gerando protuberâncias, rompantes de beleza que florescem dos mais sublimes devaneios, frutificam nossas mentes com suposições diante de situações curiosas.
Enraizar (2025) vem com uma pop-art mais deflagrada: quadrinhos, em fundo preenchido por grandes plantas e flores vermelhas. Numa HQ fragmentada, três cenas distintas se desenrolam entre as folhagens. No topo, um homem em terno preto tenta segurar uma mulher loira, que o estapeia na cara. No centro, de vestido vermelho, se reclina. Já na parte inferior, o homem acende o cigarro dela.
Por outro lado, em Renasce (2025), vemos uma divertida releitura de Beyoncé, no álbum Renaissance. Em trajes dourados de cowgirl, uma mulher negra cavalga um cavalo preto. A mulher, dona de si e da porra toda, segura confiante as rédeas do corcel. As estrelas douradas se destacam frente ao céu azul.
Num delírio tragicômico, destaca-se Decadência Dourada (2025): uma socialite loira, toda de dourado, simplesmente cai estatelada pela porta de um carro rosa choque, com as pernas para cima e os braços estendidos. Visivelmente torpe, a mesma ainda segura uma garrafa de champanhe e sua bolsa – também dourada. Ao fundo, vemos o Coliseu romano. Estamos diante de uma tour de tesão e loucura inesquecível no verão europeu.
Ainda neste viés incisivo, outro peculiar destaque: Dama Violenta (2025). Trajando uma coroa dourada e coberta de joias vistosas, uma mulher de cabelos escuros desce uma escadaria dourada em tapete vermelho. O lustre brilhante pende do teto rosa. Em seu volumoso vestido roxo parece carregar um coração em mãos. Atrás dela, destituído de cor, na tela branca do quadro, uma esguia figura masculina a observa insatisfeito.
Essa dramaticidade explode nos grandes formatos. Os trabalhos de maiores dimensões também chamam atenção. Expressão Compartilhada (2025), meio figurativa mas abstrata, é repleta de diversas formas competindo no espaço. Múltiplos rostos, corpos estilizados, cobras entrelaçadas, se misturam em um emaranhado de árvores, flores e nuvens. Em viagem onírica, cria uma composição a ser decifrada, em diversos ângulos e fluxos pictóricos.
Seguindo as obras de maior dimensão, temos Sobre a Vitória Régia (2025). De forma sedutora, uma mulher de vestido amarelo e saltos vermelhos ostenta joias azuladas, brincos, colar e anéis, que se destacam em sua pele. A boca entreaberta com os dentes ligeiramente expostos contribuem para a expressividade provocativa.
Já em Mergulho (2025), nos deparamos com uma cena subaquática num abissal deleite insuspeito: uma sereia de cauda roxa está montada em um tubarão. Adornada com joias, de cabelos escuros e longos, segura um espelho enquanto encara seu reflexo. Nas profundezas marítimas, uma diversa fauna submarina baila ao seu redor.
Essa ficção encontra raiz no afeto. As personagens retratadas em suas pinturas referenciam-se na própria artista e em suas amigas, no círculo afetivo que a cerca. A representação das figuras de seus quadros são majoritariamente femininas. O homem, quando ali aparece, vem secundário ou em posições não tão agradáveis – menos pela negação de seu papel do que pela ênfase no protagonismo feminino, que organiza a narrativa. Na elaboração de um espaço simbólico, a intencionalidade estética se alia a uma aguda ironia das condições dos papeis de gênero.
Comparecer à exposição de Titi foi como ver um trabalho que já queria, mas não sabia de sua existência. Cada obra é um estimulante episódio, uma confidência. Há ecos entre as imagens, alguns na vertigem, outros no sonho, acariciando e provocando. Compete certo riso diante da queda, mas há sedução diante do risco, nos tragando para a próxima peripécia. Aguardo ansioso para os próximos capítulos de suas novelas pictóricas.
“Na Cama com Titi”, de Titi Rivotril
Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 491. São Paulo
Noah Mancini (1996 – Juiz de Fora, MG), é Bacharel Interdisciplinar em Artes e Design pela UFJF, MBA em Comunicação e Marketing pela Descomplica e Mestre em Cinema e Artes do Vídeo pela UNESPAR (Bolsista Fundação Araucária). Desenvolve seu trabalho entre texto, corpo e imagem.






