POR GIOVANA NACCA
Os otimistas incorrigíveis: o realismo frustrante de The Mastermind
Hollywood costuma ignorar roubos mal–sucedidos a museus, mas não é o caso do filme de Kelly Reichardt.
“Como, exatamente, os quadros são transformados em dinheiro?”, pergunta um dos colegas de James Blaine (Josh O’Connor) ao ouvir seus planos de como roubar o museu da cidade, logo no início “The Mastermind”.
Numa irônica coincidência, o filme dirigido por Kelly Reichardt, apresentado no Festival de Cannes 2025, estreou nos cinemas brasileiros em 16 de outubro, apenas três dias antes de um dos roubos à museu mais impressionantes dos últimos anos: o de nove joias históricas do Museu do Louvre. Os paralelos comparativos, portanto, são inevitáveis. De um lado, um crime real, que mais parece filme: em cerca de oito minutos, em plena luz de uma manhã de domingo, dois homens acessam o segundo andar do museu mais visitado do mundo usando um caminhão com uma escada mecânica, quebram uma janela, arrombam vitrines e fogem na garupa de scooters levando consigo joias seculares avaliadas em 102 milhões de dólares. A cena tão bem orquestrada fez a operação parecer simples e o museu um alvo fácil. Na internet, muitos questionaram se poderia ser uma ação para promover uma nova temporada de “Lupin”, série popular da Netflix, baseada nos romances policiais de Maurice Leblanc do início do século XX. O cinema e a televisão, aliás, alimentaram muito desse fascínio popular por roubos de arte, pintando esses crimes como façanhas épicas. O que muitas das produções hollywoodianas ignoram é que há uma grande parte dos criminosos que não são bem-sucedidos mesmo depois de conseguirem tirar a peça do museu, e é nessa contramão que o filme de Reichardt tem chamado atenção.
Na trama fictícia, inspirada em um roubo real ao Museu de Arte de Worcester, em Massachusetts, em 1972, JB aproveita um passeio com a esposa e os filhos para testar a segurança do museu com um pequeno furto, antes de pôr em ação seu crime mais audacioso. Com os seguranças literalmente dormindo em serviço, ele discretamente abre uma gaveta expositiva sem trancas, pega uma pequena estátua que cabia na palma de sua mão, guarda-a na sua caixinha de óculos e a leva para casa sem ninguém dar falta. Tamanha facilidade do ato, até pouco tempo atrás, poderia ser justificada pela falta de infraestrutura de segurança da época, ou vista como pura ficção cinematográfica, mas hoje, diante dos recentes acontecimentos, parece bastante atual e realista.
Para um filho de juiz, Blaine entendia muito pouco de crimes. Com meia-calças na cabeça, seus capangas pegam quatro pinturas, colocam debaixo do braço e fogem apontando uma arma para uma criança. Há apenas improviso. Mesmo com sucesso em seu objetivo inicial, JB não é tratado como herói, muito pelo contrário, é sem dúvidas um fracassado. Poucos dias após o crime, as peças são recuperadas e os ladrões, incluindo Blaine, são identificados. Nas manchetes dos jornais, ele é citado como um artista frustrado que desistiu da escola de artes.
Poderiam três inexperientes e desastrados bandidos serem capazes de executar tamanha façanha na vida real? Aparentemente, sim. Segundo a promotoria de Paris, os responsáveis pelo roubo das joias do Louvre são criminosos amadores, com antecedentes por furtos e delitos comuns, muitos residentes na região de Seine-Saint-Denis, área periférica ao norte da capital francesa. Apesar da magnitude do crime, a promotoria acredita que a ação não tenha sido arquitetada por uma quadrilha especializada em arte, visto que ela revelou claros sinais de despreparo: ferramentas foram deixadas no local e uma das peças mais valiosas, a coroa da imperatriz Eugênia, chegou a cair durante a fuga.
Mas voltando a trama: se antes James Blaine estava com dificuldades financeiras para sustentar a família, que dependia do salário da esposa, depois do crime executado, o mastermind não consegue usufruir da recompensa prometida pelo professor que havia encomendado o “serviço”. Blaine acaba sendo detido pela polícia durante uma manifestação hippie, na qual se envolveu apenas por estar no lugar errado, na hora errada.
Tomando como exemplo outros grandes casos de roubos da história da arte, podemos pensar como a compra ou a encomenda dessas peças, se mirar o lucro financeiro, pode ser um investimento extremamente arriscado, especialmente se tratando de obras altamente reconhecíveis ou de grandes museus. Em dezembro de 2007, as telas “O Lavrador de Café”, de Portinari, e o “Retrato de Suzanne Bloch”, de Picasso foram roubadas do MASP, em São Paulo. Mas em menos de vinte dias as obras foram recuperadas e os suspeitos foram presos.
Muitos têm conhecimento de um dos mais famigerados roubos da “Monalisa”, em 1911, quando até Picasso chegou a ser investigado como suspeito. Mas o que poucos sabem é que, na ocasião, o pintor espanhol acabou entregando à polícia um par de estátuas ibéricas antigas que havia comprado anteriormente. Temendo ser processado durante o caso da obra de Da Vinci, o cubista optou por abrir mão das peças, porque elas haviam sido roubadas do Louvre alguns anos antes.
Mas, afinal, como esses roubos fazem dinheiro, se é quase impossível vender essas peças no mercado oficial? Sim, eu disse “quase”, porque a história nos ensina que a expectativa de que a punição se esvaia com o tempo pode ser um dos motores do crime. Em dezembro de 1999, uma casa de leilão em Londres vendeu por 27 milhões de dólares a pintura “Bouilloire et fruits” de Paul Cézanne, que havia sido roubada em 1978, sem responsabilizar criminalmente quem a manteve até então. Como? O crime havia prescrito na legislação local.
No filme, o museu roubado chega a oferecer uma pequena recompensa para quem devolvesse as obras – proposta completamente ignorada por JB. À primeira vista, a estratégia parece estranha, porque poderia incentivar outros roubos, mas não é tão incomum. O Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, chegou a propor uma recompensa de 10 milhões de dólares para quem ajudasse a encontrar os treze quadros de grandes mestres, incluindo Rembrandt e Vermeer, roubados em 1990 – caso que continua sem solução e ficou conhecido como “o maior roubo de arte de todos os tempos” em uma (como esperado) adaptação documental da Netflix. Segundo Edgar Tijhuis, diretor acadêmico da Association for Research Into Crimes Against Art, em seu ensaio “Who is Stealing All Those Paintings?”, a prática do chamado “art-napping” — sequestro de obras de arte mediante pedido de resgates milionários — teve grande força durante a década de 1960. Na maioria dos casos, os museus não podem pagar por eles e também se abstém de fazê-lo por razões táticas. Mas recentemente, o especialista em roubo de arte Anthony Amore, em entrevista ao Artnet News sugeriu que, no caso do Louvre, como os objetos roubados estavam sem seguro, o museu ou o governo deveriam considerar a ideia de oferecer uma recompensa considerável logo no início para obter informações e evitar que as peças fossem desmanchadas.
É importante dizer que as explicações mais conhecidas sobre grandes roubos de arte, na verdade, explicam apenas uma pequena parte do todo, afinal há ainda uma ampla parcela de casos não solucionados. Roubos sob encomenda são difíceis de identificar, e, segundo a pesquisa de Tijhuis, furtos relacionados ao tráfico de drogas ou a outros crimes organizados realmente acontecem, mas com muito menos frequência do que a mídia costuma supor. A partir de cerca de cinquenta casos de furtos resolvidos entre os anos 1960 e 2003 analisados, o pesquisador concluiu que, “furtos comuns” – realizados por ladrões amadores com o propósito de vender as pinturas o mais rápido possível – seria uma das categorias mais significativas de roubos e, geralmente, as obras acabam sendo recuperadas antes que gerem qualquer retorno financeiro aos ladrões.
Além dos casos mal-sucedidos já citados aqui, ainda poderíamos lembrar dos ladrões da York City Gallery, em 2000, que foram presos depois que um deles alugou uma sala de conferências para negociar a venda das peças. No “sequestro” de “O Grito”, em 1994, os criminosos foram capturados no momento da transferência do dinheiro do resgate. E os ladrões do Museu Brücke, em Berlim, em 2002, foram detidos menos de um mês após o roubo, ao tentarem vender as pinturas. A lista é extensa!
Nesse sentido, Kelly Reichardt está em total sintonia com Tijhuis. A ficção – para muitos espectadores, frustrante – não poderia ser mais realista, protagonizando os otimistas incorrigíveis, seduzidos pela promessa desgarantida de melhorar de vida.
The Mastermind entra para o catálogo da MUBI a partir de 12 de dezembro


