Tadeu Jungle | Kobbi Gallery

POR FABRÍCIO REINER Diálogo como legenda Fotolegenda, de Tadeu Jungle, reúne 32 imagens extraídas de telas de televisão de filmes legendados: obras que congelam um instante em que a legenda – originalmente suporte – torna-se superfície ativa, deslocando a narrativa e abrindo fendas interpretativas na imagem e no texto. A mostra amplia essa operação em […]

POR FABRÍCIO REINER

Diálogo como legenda

Fotolegenda, de Tadeu Jungle, reúne 32 imagens extraídas de telas de televisão de filmes legendados: obras que congelam um instante em que a legenda – originalmente suporte – torna-se superfície ativa, deslocando a narrativa e abrindo fendas interpretativas na imagem e no texto. A mostra amplia essa operação em sala por meio de uma instalação sonora feita em parceria com Luiz Macedo, onde as falas legendadas são reelaboradas em polifonia fragmentada, que atravessa as imagens e exige uma fruição produzida pelo estranhamento e interpretação.

O diálogo que segue nasce dessa exposição; em que Fotolegenda se converte em dispositivo para pensar práticas, instituições e as tecnologias que reconfiguram a produção e circulação de obras e de imagens. Colocar em cena as vozes do artista e do curador é recurso que permite transformar a conversa em extensão do pensamento que produz arte. Diálogo que se justifica como artifício entre ruído e linguagem

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Fabrício: Fotolegenda me parece a continuidade de uma trajetória que sempre se alimentou dos acasos e brechas que você procura no sistema cultural. Você veio do TVDO, dos atos que desmontavam as tele-presenças, e aprendeu a ouvir as inflexões artísticas onde a maioria só vê passagem. Hoje, ao fotografar legendas na tela, mais que o ato de fotografar o ‘instante decisivo’: está trazendo justamente camadas que se ajeitam nos dias de hoje entre protocolos de leitura, economia da atenção e genealogia de imagens que agora vêm à superfície massivamente.

Tadeu: Quando eu fotografei a tela legendada pela primeira vez senti que havia uma operação de translação acontecendo, uma espécie de roubo delicado ao tempo do filme – eu parava o fluxo e empurrava a legenda para o primeiro plano. Não é só gesto documental; é exercício de reescrita. É um exercício de VLER, como diria Lenora de Barros. Ao congelar o fotograma e deixar a legenda em evidência, eu provo uma raspagem da narrativa: o texto deixa de servir e vira matéria, uma superfície que risca a imagem e abre fendas interpretativas. Minha história me ensinou a gostar do estilhaço. Do Fragmento. Do pequeno. Do insignificante para muitos. O gesto de parar a imagem é uma maneira de forçar o tempo a ceder. E reenquadrar o fotograma original me empodera como coautor. A legenda, quando tira a narrativa do seu lugar de suporte e vira matéria, revela estruturas que normalmente passam como transparência. Meu interesse não é nostalgia da ruptura, é manter a ruptura como condição de trabalho: fazer com que o ruído seja produtivo, que a captura, ou melhor, a escavação, seja campo de invenção.

Fabrício: É aí que eu me detenho. Vejo claramente essa potência poética. O ruído como método é potente enquanto mantém uma dimensão crítica. Mas vivemos num mercado que captura toda transgressão e transforma em estilo. Minha ressalva é política e também ética: essa mesma tática, quando replicada em ambientes que não versam sobre fricção crítica, tende a virar circulação de instantâneos apelativos. A reprodução massiva de “imagens-poema” sem processo reflexivo transforma o gesto em mercadoria. O que você chama de escavação pode virar economia de atenção. A sua prática resiste a isso porque reclama tempo e fricção; o risco é que, fora da sala, o gesto se reduza a imagem pronta para circulação e lucro. Como garantir que a tensão não vire commodity?

Tadeu: Garantir é palavra pesada. Prefiro produzir condições. A sala, a instalação sonora, o deslocamento temporal que proponho são arquiteturas que dificultam a captura imediata. Uma imagem na parede já pede tempo. Já propõe camadas.  Quando o público encontra essas camadas, a imagem circulante se comporta diferente: ela carrega vestígios de fricção que podem reabrir perguntas em quem a vê. E aí reside um dos elementos mais importantes para a minha arte. O acaso, que vem de uma brecha, é decisivo para mim; eu o internalizei como método. Me interessa deixar espaço para o imprevisto. E buscar no certo, o incerto. Buscar no padrão, o erro. No caso dessa série, por exemplo, há uma realidade que é a do cinema, e um real poroso que se infiltra nas imagens e é aí que encontro matéria – relações circunstanciais entre verbo e imagem, falas que, ao serem congeladas numa legenda, revelam uma poesia latente no filme. O diretor não dirigiu aquela junção, o roteirista não pensou a associação, a atriz não performou essa leitura; essa coincidência radical é o ponto decisivo. O corte da frase sobre o fluxo narrativo contínuo cria uma tensão que se pode recontar e estender: a mesma legenda pode habitar mais de uma imagem, distender-se, multiplicar sentidos, mas sempre a partir do ‘momento decisivo’ que eu capturei. E é nessa abertura – no acaso, no erro, no tropeço, na surpresa – que encontro a potência desse trabalho.

Fabrício: Mas e quanto ao sujeito que vê? É preciso considerar que a experiência do espectador mudou. A cultura do scroll e do consumo rápido empurra a fricção para a superfície e a reduz a meme. Seu trabalho busca desacelerar, mas a recepção coletiva está condicionada à velocidade. 

Tadeu: Acredito que a mediação é parte da obra. Crio condições de fruição que obrigam presença: som que revive o silêncio da pausa, imagem de filmes que não são mais filmes, telas que não se resumem a frames cinematográficos. Penso talvez que práticas educativas ajudem na conversão de espectadores em agentes. A desaceleração também se aprende; não há só imposição. Mas, não me intimida que um fotolegenda vire meme. Se tiver que correr na raia veloz, que corra. Quem sabe pare na retina de alguém, que dirá: Puxa!

Fabrício: Aprender demanda também suporte institucional e econômico. A infraestrutura que domina a circulação (plataformas, algoritmos, mercados de atenção) continua operando em outra escala. A inteligência artificial amplia isso. Modelos que treinam em massas de imagens e legendas reorganizam visualidades de maneira automatizada.

Tadeu: Por isso acredito que o enfrentamento é duplo: um trabalho estético que obrigue o receptor a investir tempo e atenção. O tempo é o que temos de raro. É nele que reside a esperança da iluminação. Temos que prever um esforço coletivo para criar economias alternativas que valorizem processos, que valorizem a contemplação.  

Fabrício: A apropriação existe, claro, mas não se resolve no gesto individual. Há uma assimetria: os modelos de IA se sustentam em dados massivos, muitas vezes não autorizados, e em infraestruturas controladas por plataformas que se beneficiam do trabalho e da memória cultural de terceiros. A pergunta que me assombra é quem se apropria de quem – o artista do algoritmo ou o algoritmo do artista? Sem políticas e transparência, o processo tende a apagar a biografia da imagem e a reduzir o gesto humano a entrada num sistema de otimização. Sem modelos que estimulem a experimentação e preservem o tempo do artista, a tendência é a adaptação a padrões que remunerem rapidamente. Parte do meu receio à adoção acrítica da tecnologia é essa precarização do processo criativo.

Tadeu: Por isso defendo o uso da IA como provocação e não como substituto. Mesmo que eu empregue processos computacionais, procuro colocá-los em risco: uso outputs para fragmentar, para baralhar narrativas, para inserir ruído intencional que exige releitura. O embate com o algoritmo tem que ser real. Tem que ser desafiador. Sem fricção não há criação. A arte pode pegar o automatismo da máquina e forçar uma falha estética, transformando previsibilidade em oportunidade de estranhamento, em acasos cósmicos.

 Fabrício: E ainda assim há um ponto onde sua estratégia encontra limites pragmáticos. Mesmo as falhas propositalmente geradas acabam circulando em plataformas cujo ecossistema premia o previsível. A questão não é só estética; é estrutural: sem meios de subsistência que recompensem a experimentação longa, muitos artistas acabam cedendo à produção de imagens “otimizadas” para curadoria e vendas. A tecnologia amplia possibilidades, mas simultaneamente acelera desvalorização do tempo artístico.

 Tadeu: Concordo com o risco. Mas acredito que a materialidade do gesto pode resistir à domesticação mercadológica se permanecer contundente no campo da criação. A câmera como extensão do corpo do artista continua a ser o lugar onde se grava uma intenção. Além disso, as tecnologias de hoje ajudam a produzir imagens que são ambientes de experimentação. Mas, de novo, sempre com fricção.

Fabrício: Vestígios ajudam, mas não bastam. Minha inquietação é política: quem alimenta esses modelos, quem lucra e qual o custo para a singularidade do gesto artístico?

Tadeu: A IA é campo ambíguo: não é ferramenta, mas se faz passar por uma. IA é agente. Agente infiltrado como ferramenta. Figura especular que te reflete, distorce e cospe uma nova ordem de coisas velhas.   Ela revela padrões que já existiam e permite recombinações que antes eram impossíveis. Eu enxergo possibilidades táticas: usar seus outputs como matéria a ser desfeita ou traduzida no muque. Ao submeter o algoritmo à operação humana – truncar, repetir, solapar – o artista força a máquina a mostrar suas limitações. Não penso a IA como substituta do gesto, mas como provocadora e incentivadora de novos acidentes formais.

Fabrício: Aceito a tática, mas insisto na necessidade de arregimentar políticas. Se a IA se alimenta de arquivos sem consentimento e de infraestruturas concentradas, sua apropriação tática por artistas acontece dentro de um campo assimétrico. É preciso transparência nos datasets, formas de remuneração aos donos de conteúdo e repositórios públicos que preservem memória sem permitir a captura mercantil.

Tadeu: Concordo que a apropriação deve vir acompanhada de protocolos. Mas, hoje já vivemos no tempo onde a IA já comeu tudo. Não dá mais pra desler ou desver ou desouvir. Pode-se fazer uma espécie de arqueologia crítica: não só usando imagens, mas documentando como as imagens existem, de onde vêm as falas, quais as camadas de edição. Essa documentação pode virar política quando articulada em redes de artistas e instituições que defendam padrões de uso e compartilhamento. 

Fabrício: Ainda assim, a IA confunde fronteiras. Quando um modelo produz imagens a partir de corpi heterônomos, a noção de originalidade fica em crise. Como você pensa a autoria hoje, quando a imagem é resultado de camadas humanas e algorítmicas?

Tadeu: Vejo autoria como camadas de responsabilidade e escolha. Isso vai mudar muito nos próximos anos. Talvez a IA fique invisível e ninguém mais questione de onde vem uma imagem ou um filme. Talvez se identifiquem os códigos originários e eles sigam para lista de letterings finais. Aí não se trata de desaparecer autoralmente, mas de expor quem fez o quê: seleção, corte, intervenção, decisão estética. Essa visibilidade cria novos critérios de valor. A IA nos força a politizar a autoria: quando mostramos nossos procedimentos, mostramos também nossos compromissos éticos. Mas, minha visão é que a IA vai estar tão presente, que não a notaremos. Aguardemos por processos de remuneração dos criadores.

Fabrício: Políticas e compromissos são necessários. Reivindico que o humano permaneça como instância de responsabilidade e que instituamos práticas que reconheçam e compensem contribuições invisibilizadas. A tecnologia pode ampliar vocabulário, mas não pode apagar o cuidado ético com fontes e memória.

Tadeu: Fecho dizendo que tecnologia e humanidade não são opostos absolutos. Há uma tensão produtiva quando preservamos o lugar da decisão humana, quando exigimos transparência e quando usamos a IA como matéria que pode ser quebrada e remontada. Esse é um jogo de Poder com P maiúsculo. Coisa de grandes dogs corporativos. Aos artistas resta o risco pra arranhar essa plástica toda. Fotolegenda é um exercício dessa tensão: é uma recusa ao consumo automático, uma insistência na pausa, e ao mesmo tempo uma experimentação aberta às ferramentas do presente, mesmo não tendo sido feita por IA.

Fabrício: E eu fecho reafirmando que a preservação do que há de humano no gesto artístico – falha, corpo e memória – deve ser critério permanente. Aceito a tecnologia como campo de experimentação, mas com a condição de políticas, repositórios e práticas coletivas que não permitam que o algoritmo suplante a responsabilidade e a biografia do artista.

Tadeu: Que esse diálogo seja então uma reflexão para a permanência da arte como campo de desvio, ruptura, fendas e acasos, onde a máquina é instrumento e o humano segue sendo o agente que obriga a forma a pensar.

Fabrício: E que o leitor saia inquieto.

Tadeu: Bum!

Tadeu Jungle – Fotolegenda
Instalação sonora de Luiz Macedo
Curadoria de Fabrício Reiner
Kobbi Gallery, São Paulo
Até 18 de Outubro

 

Fabrício Reiner é mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo, aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto a Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador e curador independente.

 

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