Sérgio Ferro. Le-meintre, 1989.

Sergio Ferro | Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo

POR Fabrício Reiner “A transformação do trabalho em capital é, em si, o resultado do ato de troca entre capital e trabalho.” Karl Marx, Para a crítica da economia política (manuscrito de 1861-1863). Nessa afirmação, Marx aponta para um dos fundamentos centrais de sua crítica à economia política: a alienação do trabalho no sistema capitalista […]

POR Fabrício Reiner

“A transformação do trabalho em capital é, em si, o
resultado do ato de troca entre capital e trabalho.

Karl Marx, Para a crítica da economia política
(manuscrito de 1861-1863).

Nessa afirmação, Marx aponta para um dos fundamentos centrais de sua crítica à economia política: a alienação do trabalho no sistema capitalista e sua conversão em mercadoria dentro das relações de produção. Para ele, o trabalhador, ao não possuir meios de produção próprios, é compelido a vender sua força de trabalho ao capitalista, que, ao adquiri-la, subordina-o a um processo de exploração que não apenas expropria os frutos desse trabalho, como ainda transforma sua atividade produtiva em um elemento de valorização do capital.

Esse ciclo de troca entre capital e trabalho, longe de ser uma relação equilibrada, é a base da perpetuação da exploração no sistema de produção capitalista. O trabalho, ao ser convertido em mercadoria e apropriado pelo capital, perde sua autonomia e se dissocia do trabalhador enquanto expressão de sua criatividade ou necessidade social. Em vez de um processo emancipador, a produção sob o capitalismo se organiza como um mecanismo de acumulação privada, onde o trabalhador contribui para a ampliação do capital sem que sua própria condição material seja observada.

Essa crítica marxista à alienação do trabalho ressoa fortemente no pensamento de Sérgio Ferro. Assim como Marx denuncia a separação entre o trabalhador e os meios de produção como base da exploração capitalista, Ferro observa como as relações de produção se manifestam no campo artístico, evidenciando que a arte não é apenas um espaço da criação estética, mas sim o terreno onde as formas de organização e autonomia do trabalho entram em disputa diante do modo de produção vigente. Sua pintura, ao expor essas contradições sugere a ideia da possibilidade de um trabalho que não se submeta à lógica mercantil, pois que se posicione como gesto de emancipação e oposição à alienação capitalista.

A partir desse princípio, a exposição Sérgio Ferro – Trabalho Livre, realizada pelo Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), propõe uma imersão na trajetória singular do artista. Para além das artes e da arquitetura, a ação de Sérgio Ferro é sedimentada inclusive na sua profícua atividade teórica e docente, e que se estendeu, desde os anos 1960, diretamente na resistência à política da ditadura militar e nas reflexões sobre o papel da arte na sociedade.

Ao longo de sua vida, Ferro consolidou um pensamento artístico e teórico que não apenas reflete sobre a função social do artista, como também tensiona a relação entre obra e procedimento, produção e ação. Seu trabalho incorpora camadas de significado histórico e político que evidenciam seu compromisso com a luta social. O conceito de “trabalho livre” que nomeia a exposição está no centro de seu pensamento e de sua atuação artística: a prática que resiste às imposições mercadológicas e constrange as relações de exploração que permeiam a produção cultural no capitalismo.

Em seu livro mais representativo, retomado no título da exposição como elemento fundante do pensamento de Sérgio Ferro, Artes Plásticas e Trabalho Livre, o teórico investiga sobretudo a relação entre criação artística e dominação da produção, especialmente a partir da ascensão do capitalismo, argumentando que nesse modo de produção as artes plásticas são as únicas que, à despeito da classe social de seus produtores, “subsistem à sua subordinação produtiva pelo capital”.  Esse pensamento, contraposto ao modelo fundamentado na alienação da produção, no qual a divisão do trabalho subtrai a autonomia do trabalhador, não apenas revisita a história da arte, como oferece modelo teórico que reflete sobre a relação entre trabalho, política e cultura na sociedade contemporânea, uma vez que expõe as contradições da produção artística e nos convida a imaginar um lugar em que o trabalho escape da lógica mercantil e possa se afirmar na sua integridade.

Nessa trajetória histórica do modo de produção capitalista, conforme analisada por Sérgio Ferro, evidencia-se a singularidade das artes plásticas, a qual deve ser interpretada a partir da dialética que se estabelece na tensão entre adaptação e resistência às estruturas hegemônicas da sociedade. Se, a partir dos séculos XV e XVI, a pintura e a escultura buscaram se desvencilhar das formas convencionais de trabalho subordinado, sua relação com os mecenas e sua inserção no mercado da arte frequentemente condicionaram sua prática para além da autonomia. Essa dualidade evidencia que, mesmo preservando um potencial crítico e subversivo, a arte pode ser absorvida pelas relações de produção do capital, operando simultaneamente como forma de contestação e como elemento integrado às dinâmicas de mercado.

“Ora, é precisamente por deverem ser exceção que se torna necessária a rarificação de seus produtos: pressupõe trabalho ‘livre’ (as aspas indicam que essa liberdade é relativa), trabalho que só pode existir como exceção – já que a lei do capital é a subordinação. Deixá-lo expandir-se [o produto da arte], diminuir sua raridade, é ameaçar a lei. Ele só pode ser admitido como contraprova pontual e argumento de exclusão: se a maioria absoluta das pessoas deve aceitar a subordinação é porque unicamente pouquíssimos têm o ‘direito’ ou o privilégio de trabalhar ‘livremente’.”

Ferro examina essa inquietação histórica por meio da transição do artesão ao artista renascentista (o primeiro comumente reconhecido como trabalhador e o segundo enquanto gênio), identificando um processo de deslocamento que redefine o estatuto do trabalho artístico. Enquanto o artesão reproduzia um saber de ofício coletivo, fundamentado na repetição técnica e na tradição corporativa, o artista reivindica sua individualidade, conferindo à prática artística um caráter intelectual e progressivamente desvinculado da execução manual. Essa ruptura paradigmática se manifesta em três estratégias fundamentais na produção pictórica: o ‘virtuosismo técnico’, que exalta a excepcionalidade da perícia artística como elemento legitimador da valorização social do pintor; o ‘liso’, no qual os traços do processo produtivo são suprimidos a fim de instaurar uma ilusão de perfeição, eliminando qualquer vestígio da materialidade do ato pictórico; e, por fim, a ‘sprezzatura’, que teatraliza o gesto técnico, enfatizando a autonomia do criador e evidenciando a incompletude como escolha estética e conceitual deliberada. 

De certo modo, a exposição no MAC USP emula as reflexões do artista e evidencia as características mais singulares desse pensamento ao reunir obras onde é possível visualizar claramente cada estágio da produção pictórica – desde o suporte até os esboços, a estrutura compositiva, a volumetria e as camadas de pigmentação. Um fazer artístico que preserva sua autonomia e não se submete às exigências do mercado ou da cultura institucionalizada.

Sérgio Ferro. São Sebastião (Marighella), 1969-1970. (MAC/USP)

A pintura de Sérgio Ferro, grosso modo, fundamenta-se em uma abordagem crítica que enfatiza a relação dialética entre obra e espectador. Ainda que sua estética revele um distanciamento em relação aos modelos convencionais de representação, ela mobiliza uma reflexão marcada pelas determinantes sociais e históricas da produção artística. Seu método pictórico desmonta a estrutura tradicional da composição acadêmica, recusando o acabamento pleno e revelando o processo técnico como parte essencial da narrativa visual. O artista desconstrói as convenções impostas pela tradição artística ao expor os vestígios da feitura da obra – os traços do esboço, as camadas de pigmento, a materialidade da tinta – como elementos centrais da composição, em oposição à ilusão idealizada da pintura clássica. Sua obra transforma a prática pictórica em um campo de investigação sobre as contradições do trabalho artístico, revelando os mecanismos internos da criação e subvertendo os princípios de ocultamento técnico e simbólico que estruturam a pintura tradicional.

A dimensão experimental da obra de Sérgio Ferro evidencia-se também na apropriação estratégica de referências históricas, onde a recorrência de imagens de artistas como Andrea Mantegna, Michelangelo, Van Gogh e Rauschenberg não apenas reafirma seu vínculo com a tradição artística como opera subversão crítica. Ao fragmentar e ressignificar elementos pictóricos da história da arte estabelecida, Ferro constrói um discurso visual marcado por tensões temporais e deslocamentos simbólicos, em que os conflitos históricos e estéticos emergem como catalisadores de novas leituras. Sua abordagem promove a apropriação da tradição artística em contextos contemporâneos, inserindo-a em uma nova ordem de significação que dialoga diretamente com as dinâmicas econômicas e políticas do presente, evidenciando a relação dialética entre memória visual e transformação social.

A curadoria também envolve as obras em exposição aos contextos sombrios que percorreram o período da ditadura militar no Brasil e a militância de Ferro na Ação Libertadora Nacional (ALN), assim como sua prisão e posterior exílio na França, considerando-as, inclusive, como manifesto visual da necessidade de um fazer artístico atuante. Nesse sentido, as pinturas de São Sebastião, especialmente São Sebastião (Marighella) e São Sebastião (Lamarca), tornam-se exemplos significativos dessa abordagem. 

Sérgio Ferro. São Sebastião (Lamarca), 1971. (MAC/USP)

Ao empregar ícones cristãos e reinterpretar o martírio de figuras revolucionárias, Ferro constrói uma narrativa pictórica que ressoa as lutas populares e a resistência contra o autoritarismo militar. A partir da figura de Carlos Marighella, líder da ALN, assassinado por agentes da ditadura em 1969, o quadro reinterpreta (com base na pintura de Mantegna), o martírio de São Sebastião, guerreiro cristão torturado por fidelidade a sua fé. Conhecido como o santo protetor contra pestes, guerras e fome, São Sebastião é celebrado como um exemplo de fé inabalável, coragem diante das adversidades e amor a Cristo; martírio que simboliza a coragem de perseverar nas dificuldades, por mais agudas que sejam. As setas transpassando o corpo santificado do ícone cristão e popular não mira apenas no sofrimento, antes, imprime a garantia de sobrelevação; sobretudo na apropriação que Ferro faz da iconografia, associada à morte de Marighella pelos agentes do Dops, a partir da delação de frades dominicanos que auxiliavam na resistência. O quadro, no entanto, permanece inacabado – a última pincelada impedida pela prisão do artista em 1970 converte o inacabamento em um dos seus elementos mais significativos. Vazio que ressoa como lugar de memória e evoca a luta abortada.

Historicamente a imagem de São Sebastião é também expressão serena que contradiz a violência a ele imposta. Essa ambiguidade entre fragilidade e firmeza faz do santo uma figura paradigmática da perseverança diante da opressão. Nesse sentido, na pintura de São Sebastião (Lamarca), o artista desloca a simbologia do santo agora para a figura Carlos Lamarca, ex-militar que se tornou guerrilheiro contra a ditadura brasileira, e foi perseguido e executado pelo Estado. Ferro aqui se apropria do arquétipo cristão, mais uma vez, não como reafirmação religiosa, antes como subversão política. O martírio de Lamarca, assim como o do santo, transcende o da violência institucional para se converter em manifesto visual da persistência de uma ideia que transcende a morte física. Do mesmo modo, Lázaro (1972), onde Ferro recorre à narrativa bíblica da ressurreição como metáfora do renascimento da luta revolucionária. A imagem de Lázaro emergindo do túmulo se insere na construção de um imaginário pictórico em que resistência e continuidade histórica são eixos fundamentais. Se a morte de Lamarca e Marighella representa a brutalidade da repressão, a ressurreição de Lázaro aponta para a persistência daqueles que enfrentam as forças opressoras, reiterando a ideia de que nenhuma luta se encerra com a destruição de seus agentes.

Sérgio Ferro. Lázaro, 1972. (MAC/USP)

Mesmo longe do Brasil, Ferro manteve um vínculo forte com as lutas sociais e as discussões políticas do país. Sua obra, disseminada em museus e instituições acadêmicas, continuou a reverberar os compromissos libertários que marcaram sua militância. E a exposição no MAC reafirma esse legado, mostrando que sua produção não se trata apenas de um testemunho histórico, mas de uma reflexão ativa sobre os desafios que a arte enfrenta na contemporaneidade.

Uma vez que, ao longo da exposição, o público é convidado a percorrer esse universo pictórico, onde cada quadro carrega vestígios da história e do pensamento crítico do artista, a relação entre arte e resistência, memória e ação transforma a mostra em um espaço de reflexão sobre os desafios da criação artística e seu papel na luta por justiça social, assim como, no contexto atual, como espaço de reflexão essencial diante dos desafios da democracia brasileira. Pois que também sugere a denúncia das relações de exploração e dominação na produção social como um todo: desigualdade estrutural, precarização do trabalho e ataque às instituições democráticas.

A estrutura social e econômica do país segue marcada por profundas assimetrias de classe e concentração de poder, evidenciando ainda, a necessidade de um debate sobre formas de emancipação política e econômica. Nesse sentido, a obra de Sérgio Ferro oferece um importante ponto de partida para a formulação de alternativas à lógica hegemônica de produção e organização sociais do trabalho. No momento em que o esvaziamento das condições de vida da classe trabalhadora amplifica, Ferro nos oferece uma alternativa de reorganização econômica na qual a produção comunitária e a autonomia do trabalho prevalecem.

Se no período da ditadura sua pintura denunciava a perseguição e a brutalidade do regime, hoje sua obra nos permite a compreensão de que a luta por justiça continua. A democracia, longe de ser um processo concluído, é um campo permanente de disputa que exige engajamento e resistência.

As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.

Sergio Ferro Trabalho Livre
Curadoria: Maristela Almeida e Fábio Magalhães
Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP)
Av. Pedro Álvares Cabral, 1301
Ibirapuera – São Paulo – SP, Brasil
Terça a domingo das 10 às 21 horas
Entrada gratuita
Até 15 de junho


Fabrício Reiner é mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo, aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto a Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador e curador independente.

Compartilhar:

Confira outras matérias

The Mastermind | Filme

POR GIOVANA NACCA
Os otimistas incorrigíveis: o realismo frustrante de The Mastermind
Hollywood costuma ignorar roubos mal–sucedidos a museus, mas não é …

L’atelier | Casa Zalszupin

POR FABRÍCIO REINER E MARINA FRÚGOLI
Zalszupin e l’atelier: máquina do moderno

A trajetória da l’atelier, fundada por Jorge Zalszupin em 1959, …

Maria Cau Levy | Lapa, Lapa

POR BRUNO SCHIAVO
3 espaços por Maria Cau Levy 
Obras da artista visual e designer Maria Cau Levy são expostas na galeria …

Francisco Maringelli | Atelier Piratininga

POR FABRÍCIO REINER
Os Estigmas da Palma da Mão, as Crateras no Meio da Rua e o Rombo do Coração: reflexões …

Um Plano de Extrapolação ou Desejo Negativo | Martins & Montero

POR NOAH MANCINI
No dia 30 de outubro, estive na abertura da exposição Um Plano de Extrapolação ou Desejo Negativo, na …

Sonia Andrade | Galeria Superfície

POR FABRÍCIO REINER
 

A exposição Situações, na Galeria Superfície, retorna Sonia Andrade à presença como se reabrisse um arquivo vivo; suas …

Luiz Dolino | Galeria Contempo

POR FABRÍCIO REINER
A exposição Ensaio de Tração, de Luiz Dolino, apresentada na Galeria Contempo sob curadoria de Gabriel de San …

Tadeu Jungle | Kobbi Gallery

POR FABRÍCIO REINER
Diálogo como legenda

Fotolegenda, de Tadeu Jungle, reúne 32 imagens extraídas de telas de televisão de filmes legendados: obras …

Jesus José | WG Galeria

POR FABRÍCIO REINER
“Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, …

Titi Rivotril | Belizário Galeria

POR NOAH MANCINI
O íntimo espetacular da pintura de Titi Rivotril
Há aberturas que parecem inaugurar também estados de espírito. No dia …

NINETTA RABNER E SHIRLEY CIPULLO | TRAVESSA DONA PAULA

POR NOAH MANCINI
Vizinhanças poéticas na exposição Atravessa
Duas artistas, dois ateliês, uma mesma rua, casas diferentes, vizinhas de porta. Dois contextos …

Alex Flemming | Biblioteca Mário de Andrade

POR FABRÍCIO REINER
A cidade e o retrato
A noção de espiral, utilizada por Mayra Laudanna como imagem que orienta uma dimensão …

Bruno Neves | Galeria Contempo

POR FABRÍCIO REINER
“A arte ‘agora’ é tão real quanto uma maçã. […]
e é isso que a converte em coisa.”
Ferreira Gullar, …

O território sensível na pintura de Ian Salamente

POR NOAH MANCINI
 

Compareci à abertura de Fome do Cão, primeira exposição individual de Ian Salamente, na Zipper Galeria, no dia …

O silêncio da tradição

POR FABRÍCIO REINER
“Releve-me a impertinência,
os gostos não são iguais.”
Machado de Assis, aferrado na tradição e sutil na cortesia, sugere, com …