Luiz Paulo Baravelli, Exatidão de um menino n2, 2016

Rever Baravelli

Em Rever Baravelli, a reunião de obras do artista no Centro MariAntonia se estrutura no registro oblíquo, em que o verbo ‘rever’ funciona menos como revisão do passado do que como recusa educada de qualquer teleologia

POR FABRÍCIO REINER

Certas exposições, ainda que se anunciem como retrospectivas, exigem discretamente do visitante a suspensão da ideia de conclusão, gesto vacilante numa cultura ansiosa dos dias atuais. Em Rever Baravelli, a reunião de obras do artista no Centro MariAntonia se estrutura no registro oblíquo, em que o verbo ‘rever’ funciona menos como revisão do passado do que como recusa educada de qualquer teleologia. Afinal, nada ali parece disposto a cumprir o protocolo evolutivo que tornaria algumas obras degraus preparatórios de outros ápices definitivos. E isso não por capricho ou rebeldia tardia, mas porque a própria ideia de uma obra que ‘se resolve’ – que amadurece, abandona seus resíduos e finalmente se depõe diante de si mesma como forma plena – parece, aqui, ingenuidade. O que se instala na exposição é uma substância de tempo espesso, mas reversível, no qual avanços e recuos deixam de ser apenas categorias úteis. Ali a obra não substitui a si mesma, posto que se reitera sob novas condições de percepção. Nesse regime, o passado não se apresenta como etapa superada, mas como reserva ativa; onde o presente é uma dobra num campo em que as imagens circulam, reaparecem e se contaminam.

Há, nesse sentido, uma recusa da depuração que atravessa grande parte da tradição artística – aquela que associa maturidade à eliminação de ruído, à conquista de um idioma pessoal isolado e, em última instância, à estabilização de um discurso. O que Baravelli põe em xeque não é apenas a retrospectiva como formato, mas a ficção pedagógica que lhe costuma servir de esqueleto: aquela em que o artista partiria de uma infância formal, atravessaria impurezas juvenis e chegaria enfim à idade adulta de si mesmo. Em Rever Baravelli, essa narrativa edificante é tão frágil quanto um ‘beijo de novela’. Se há maturidade, ela consiste menos em depurar a linguagem do que em suportar sua contaminação. Aqui, o discurso parece permanentemente em risco de dispersão, não por falta de controle, mas por excesso de mundo. E talvez seja justamente isso que sustente a estranha coerência do conjunto: não uma unidade formal, mas uma fidelidade obstinada à complexidade do vivido, com suas interrupções, desvios e reincidências.

Luiz Paulo Baravelli, Sem título, 1968

Assim, ver deixa de ser reconhecer etapas e passa a ser aceitar a convivência de temporalidades distintas dentro de um mesmo campo sensível. O olhar não percorre uma linha – ele oscila, retorna, rompe e salta. E nesse movimento, o visitante percebe que aquilo que parecia falta de conclusão é, na verdade, outro regime de rigor: não o da síntese, mas o da abertura; como se cada obra recusasse delicadamente o gesto final que a encerraria para continuar a nos ‘olhar de volta’. Desde o tríptico Sem título (1968), com sua arquitetura impossível, suspensa entre arcos e pilares que parecem simultaneamente sustentar e desmentir o espaço pictórico, até a convivência sem constrangimento com Exatidão de um menino n2 (2016), cuja cabeça recortada paira como se tivesse esquecido o corpo no caminho, o que se vê na exposição, como um todo, não é progressão, posto que reincidência, variação e insistência.

Essa obstinação, convém dizer, não se apoia num método redentor, daqueles que tranquilizam historiadores e críticos. Ao contrário, o que se percebe é uma deliberada opção por uma sensibilidade que resiste a ser capturada por programas formais. E isso se manifesta desde os trabalhos iniciais, em que o vocabulário construtivo aparece contaminado por uma certa instabilidade narrativa. Em Paisagem com Construção Cor de Rosa (1988), por exemplo, o horizonte não organiza o espaço e a paisagem não se não se deixa estabilizar como cena. Nessa obra, o rigor se recusa a ser previsível; e testa a visualidade de quem confia mais no olho que na régua.

Seria tentador chamar isso de ecletismo, palavra cômoda com que a crítica às vezes mascara certa preguiça. Mas o caso é outro. Há muito tempo Baravelli formula essa escolha em termos mais exigentes: preferir uma sensibilidade a um método. A frase, se lida rapidamente, pode soar como salvo-conduto para a dispersão; se lida com atenção, ela diz o contrário. Significa recusar um sistema prévio para assumir o risco de decidir, a cada obra, o que ver, o que reter, o que transformar. Não se trata de liberdade contra critério; trata-se de critério sem catecismo.

Luiz Paulo Baravelli, Passagem, 1981

Essa recusa do programa encontra sua consequência mais visível na impureza dos meios. Ao percorrer a exposição, torna-se rapidamente inútil perguntar se estamos diante de pintura, objeto, relevo ou projeto. Passagem (1981) talvez seja o exemplo mais didático – e, justamente por isso, um dos mais perturbadores. A obra se projeta no espaço com a saliência de uma escultura, mas insiste em conservar a lógica de plano da pintura, como se não tivesse decidido em que lado da história da arte pretende habitar. E em Limbo (1990), essa ambiguidade se refina: a superfície plana recebe um dispositivo que a arrasta para fora do quadro, mas não o suficiente para abandoná-lo. O resultado é um objeto indeciso – e, portanto, preciso.

Mas dizer que essas obras hesitam entre pintura, objeto e relevo é insuficiente; melhor seria dizer que elas se comportam mal diante das categorias que deveriam enquadrá-las. Não porque ignorem a história dos meios, e sim porque a conhecem o bastante para torná-la inoperante. Há nelas uma espécie de indisciplina metódica: a pintura adquire espessura sem querer virar escultura; o objeto conserva vocação de superfície; o relevo se oferece como pensamento espacial sem abdicar da frontalidade. É como se a obra admitisse a divisão acadêmica dos gêneros apenas para, em seguida, tratá-la com a cortesia ligeiramente cruel reservada às convenções que perderam a necessidade.

Luiz Paulo Baravelli, Motivo Maia, 1971

E, nesse sentido, não surpreende que a arquitetura apareça aqui como sintaxe. A formação de Baravelli infiltra-se na estrutura do pensamento visual: perspectivas são usadas como armadilhas, plantas como desvios, cortes como espécies de feridas abertas no espaço. Ela oferece ao olhar um esquema de orientação – planta, corte, elevação, perspectiva – apenas para frustrar a promessa de estabilidade que esse esquema traz consigo. Primeiro organiza; depois vertiginiza. Primeiro dá chão; depois o retira. O resultado não é uma pintura ‘de arquitetura’, mas uma pintura que pensa arquitetonicamente para desregular a própria segurança da visão. Em Motivo Maia (1971), o jogo entre planos e volumes cria uma situação em que ver é já projetar. Não se trata de representar um espaço, mas de produzi-lo no ato mesmo da visão. A pintura deixa de ser janela para tornar-se dispositivo – um mecanismo que, ao ser acionado pelo olhar, alterna entre plano e espaço com a naturalidade de um objeto ilusionista.

Essa oscilação não é apenas formal; ela é também afetiva. A oposição entre abstração e empatia, que no artista aparece frequentemente como um par dialético, ganha na exposição uma materialidade curiosa. Em Cerca da ana No.2 (1970–1997), a estrutura aparentemente simples – um quase fragmento de construção rural ou desenho de gibi – é reduzida a um esquema de linhas e superfícies que poderia ser lida como pura abstração; mas algo na escala, na textura da juta, insiste em devolver-lhe um corpo, uma memória, um uso. O que se vê é, ao mesmo tempo, coisa e intervalo, presença e vestígio. O decisivo, aí, não é apenas que a obra oscile entre abstração e figuração, mas que ela também suspenda a decisão entre leitura e lembrança. O olho tenta lê-la como estrutura; a matéria a devolve ao campo da experiência. Tenta reduzi-la a sintaxe; a textura restitui espessura de mundo. Talvez seja essa a forma baravelliana de empatia: não a identificação sentimental com uma imagem, mas a resistência que a imagem opõe ao ser inteiramente formalizada.

Luiz Paulo Baravelli, Cerca da ana No.2, 1970-1997

Luiz Paulo Baravelli, Lado a lado (Arundel), 1971 – 2020

Esse jogo se intensifica quando se considera o caráter francamente onívoro da obra. Poucos artistas brasileiros trabalham com a memória de modo tão sistemático e tão pouco reverente. Em Lado a lado (Arundel) (1971–2020), a convivência entre fórmica industrial e madeira natural expõe uma lógica de montagem que ignora hierarquias. O passado é reincorporado; o repertório é metabolizado. Cada obra parece resultado de um sistema digestivo particularmente eficiente, capaz de absorver arquitetura, cultura visual, paisagem e figura humana sem jamais produzir uma síntese pacificadora. Tudo permanece em estado de trânsito. Convém insistir, entretanto, que essa voracidade não é simples erudição de ateliê, esse esporte melancólico de artistas que citam muito para esconder que veem pouco. Em Baravelli, o repertório é uma máquina de metabolização. O que entra não é preservado em formol; é mastigado, corroído, reapresentado sob outra pressão. A cultura visual, alta ou baixa, culta ou banal, não comparece como estoque de citações, mas como matéria já atravessada por uso, memória e transformação. O ‘onívoro’, aqui, está menos próximo do acumulador do que do alquimista razoavelmente cômico.

Isso talvez explique o humor que atravessa a exposição – seco e afiado. As chamadas “pinturas-gato”, dispostas em série como pequenas armadilhas visuais, recusam qualquer impacto imediato. Diferentemente das “pinturas-cachorro” – aquelas que, na metáfora do artista, saltariam sobre o espectador –, essas pequenas telas insinuam, desviam, retardam. Há algo de profundamente civilizado nessa recusa do espetáculo: como um gato ‘bem-educado’, a obra aproxima-se apenas quando lhe convém. Com efeito, o humor, em Baravelli, está longe de funcionar como intervalo recreativo, essa divisão escolar de tarefas entre o conceito sisudo e a piada simpática. Ele é, ao contrário, uma forma de conhecimento. Ao chamar certas obras de pinturas-cachorro e outras de pinturas-gato, o artista não promove apenas uma graça memorável; ele oferece uma teoria da recepção em miniatura, uma tipologia do encontro entre obra e observador que avança mais do que muito jargão de curador na coleira.

Luiz Paulo Baravelli, Estudo acadêmico 3, 1984

Se há, porém, um momento em que o humor cede lugar a um risco real, técnico, é na série de encáusticas dos anos 1980, que a mostra felizmente reinsere no centro da discussão. Aqui, o artista abandona o conforto relativo do desenho preparatório e se lança diretamente à superfície, pintando com uma mistura de cera quente e pigmento. O gesto, literalmente, não admite hesitação: ou se faz, ou se perde. Em Estudo acadêmico 3 (1984), o corpo feminino aparece frontal, isolado, quase brutal em sua exposição. Não há cenário, não há narrativa, não há distração. A figura ocupa o centro como um fato. Mas um fato relativamente instável: a matéria pictórica, espessa e irregular, registra o tempo do fazer – a urgência do gesto que precisa acontecer antes que a cera esfrie.

Outras obras da série, como Estudo acadêmico 8 ou Estudo acadêmico 2, radicalizam esse processo ao introduzir zonas de instabilidade em torno do corpo, como se a figura estivesse sendo lentamente dissolvida pelo próprio meio que a constitui. É difícil não perceber aqui um deslocamento profundo na lógica do trabalho: a pintura deixa de explicar o desenho e passa a combatê-lo. O corpo já não é resultado de um controle, mas de uma disputa. E talvez por isso mesmo essas obras permaneçam como um núcleo singular na produção do artista: não tanto pela exceção, mas por tornarem visível o risco que sustenta todo o resto.

Luiz Paulo Baravelli, Estudo acadêmico 2, 1984

Valeria, inclusive, demorar-se mais nessas figuras, porque elas não são apenas um desvio técnico no percurso do artista; são um momento em que seu trabalho parece decidir testar a si mesmo no ponto de maior vulnerabilidade. Os Estudos acadêmicos não exibem o corpo como quem o domina, mas como quem o enfrenta. O nu de pé, frontal, sem entorno, retirado de qualquer amparo narrativo, comparece menos como tema do que como prova. A cera quente não modela a figura; ela a põe em estado de emergência. Talvez por isso essas mulheres, tão verticalmente expostas, pareçam ao mesmo tempo arcaicas e atuais: não Vênus, nem modelos, mas aparições submetidas à pressão do fazer.

Seria bom, então, ligar esse núcleo a obras como Mulher chorando em uma herma (1988), em que a verticalidade do corpo se adensa num suporte estreito e quase totêmico, e também A Estrangeira (2016), em que a encáustica reaparece em chave monumental, agora já atravessada pela lógica dos recortes e das ‘caras’. Assim, o leitor perceberá que a encáustica não é um parêntese heroico, mas uma cicatriz produtiva: um momento de intensidade que deixou consequências duráveis na imaginação do artista.

Esse risco, entretanto, não se manifesta apenas na técnica, mas também no modo de vida que a pintura lhe exige. A insistência do artista em trabalhar à noite – quando, como ele próprio observa, a luz está do lado de dentro – encontra eco na atmosfera geral da exposição. Há algo de recolhido, de deliberadamente silencioso, mesmo nas obras de maior escala. Na mesma A Estrangeira (2016), por exemplo, a figura recortada, de olhar vacilante, parece menos interessada em ser vista do que em medir a distância que a separa do observador. É uma diferença sutil, mas decisiva. E trabalhar à noite, aqui, não parece ter nada da mitologia fácil do artista insone. Trata-se antes de uma disciplina da concentração, quase de uma ética da atenção. Se o dia dispersa, a noite condensa; se o exterior multiplica solicitações, o ateliê noturno contrai o mundo para que ele possa reaparecer sob outra forma. Esta talvez seja a verdadeira luz “do lado de dentro”: não uma metáfora sentimental, mas um regime de trabalho em que a percepção deixa de competir com o mundo para começar, enfim, a digeri-lo.

Luiz Paulo Baravelli, Mulher chorando em uma herma, 1988

Nesse contexto, a dimensão pedagógica da obra de Baravelli surge quase como consequência natural. Não se trata de ensinar um modelo (tarefa relativamente simples), mas de sustentar uma atitude: a de quem aceita o preço da autonomia. A variedade de procedimentos, materiais e soluções formais presentes na exposição apontam mais para uma coesão da proposta que para uma dispersão. É a coerência de quem não delega aos estratagemas formais aquilo que exige decisão. Talvez por isso mesmo sua dimensão pedagógica não deva ser lida como um capítulo paralelo da biografia. A relação de Baravelli com a Escola Brasil ou com a Revista Malasartes, por exemplo, podem ser entendidas como desdobramentos da própria poética. Ensinar, nesse caso, nunca foi transmitir estilo nem oferecer fórmula; foi colocar outros diante da mesma condição de risco informado que sustenta a obra. A pedagogia baravelliana, resumindo brutalmente, consiste em não entregar ao método o trabalho que só a liberdade criteriosa pode fazer.

Luiz Paulo Baravelli, A Estrangeira, 2016

Ao sair da mostra, a tentação de organizar mentalmente o percurso – de situar cada obra em seu devido lugar na cronologia, de construir uma narrativa que vá do início ao fim – é forte. E talvez seja precisamente essa tentação que a exposição intenciona frustrar. Rever Baravelli é aceitar que o trabalho continua em aberto. É entender um conjunto de operações que se aproximam, recuam e reaparecem quando menos se espera, como gatos. A impressão é a de que a obra continua a nos observar à distância, com a paciência de quem sabe que a arte, nesse jogo, sempre está do lado de fora, em cima do telhado, e nos chega quando bem entender.

Rever Baravelli, com curadoria de Maria Alice Milliet, está em cartaz no Centro Mariantonia, em São Paulo, de 9 de maio a 26 de julho de 2026.

Fabrício Reiner é mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo, aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto a Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador e curador
As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.
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