POR FABRÍCIO REINER
Marx nos lembrava, em 1852, que a história se repetia pela primeira vez como tragédia, mas na segunda como farsa. Essa reflexão sobre eventos históricos, que enfatiza a repetição de contextos carregados de superficialidade e ironia, ganhou uma recente narrativa e encontrou no roubo de obras do álbum Jazz, de Henri Matisse, pertencentes ao acervo da Biblioteca Mario de Andrade, novos contornos trágicos e farsescos.
Trágicos porque, mais uma vez, fomos suprimidos de obras públicas tão importantes e significativas, farsescos porque parecia ser possível evitar incorrer no mesmo embaraço. Quando um acontecimento retorna como tragédia, há a dimensão do infortúnio e do choque: fenômenos que surpreendem, que expõem contradições profundas e que, por sua intensidade, mobilizam sentidos de perda e urgência. Quando volta como farsa, o retorno é desprovido de gravidade moral: repete‑se o erro em versão caricata, com justificativas vazias e a mesma impunidade, transformando o que poderia ser lição em espetáculo de incompetência.
Apontar essa distinção no campo cultural e no sentido de proteção do patrimônio é esclarecedor. Um furto que ocorre por falha imprevisível pode ser lido como tragédia; um roubo que decorre de cortes sucessivos, protocolos negligenciados e gestão descomprometida tende a reaparecer como farsa – não porque o crime seja anedótico, mas porque a repetição revela um padrão previsível de descaso que foi tolerado e naturalizado. A diferença é política: tragédia convoca solidariedade e mudança; farsa aponta resignação, e conduz à repetição.
Recontar episódios de perda e recuperação do patrimônio, com precisão, responsabilização e transparência – (como recentemente apontei em meu artigo para a revista Dasartes a propósito do álbum de Matisse) evita que a memória se transforme em folclore e que a repetição se disfarce de destino. A memória constrange a política e poderia ter evitado que, mais uma vez, o álbum fosse roubado.
No Brasil, a história está cheia de desastres que não surpreenderam especialistas nem comunidades afetadas, e as instituições culturais, longe de serem refúgios imunes, frequentemente aparecem como espaços privilegiados do descaso, onde cortes, abandono e políticas curtas de vista se acumulam até produzir ruínas humanas e simbólicas. Chamar de “tragédia” o que aconteceu na Biblioteca no último domingo é naturalizar o evitável.
A sensação de insegurança que acompanha quem percorre as ruas da cidade é agravada quando instituições públicas – que deveriam funcionar como contraponto e refúgio – replicam a mesma lógica de abandono. Cortes orçamentários e modelos de gestão que priorizaram economia imediata corroeram as condições mínimas de preservação e vigilância; não por destino, mas por opção. Reconhecer que o ocorrido foi consequência de negligência é um passo necessário para exigir responsabilização e mudanças concretas. Trata-se de se recusar a narrativa que contingencia a omissão.
O furto e a subsequente recuperação do álbum Jazz, de Matisse, nas duas primeiras décadas do novo milênio, cujos contornos narrativos poderiam demonstrar exemplo bem-sucedido de política pública, não deveriam ter sido omitidos nesses últimos anos nem pelas gestões nem pelos eventos que vieram celebrar os cem anos da instituição; ao contrário, deveriam ter convertido o episódio em lembrança insistente e ritualizada, um exercício público de memória que impedisse a negligência de se sedimentar em hábito. Recontar com precisão o que aconteceu – as falhas que permitiram o crime, as decisões que fragilizaram a guarda do acervo, os procedimentos adotados na busca e na devolução – poderia transformar o relato em instrumento de vigilância e fazer da memória um mecanismo de prevenção. Manter o caso vivo em arquivos acessíveis, em debates públicos, em relatórios e em ações educativas é recusar a naturalização do descaso: cada recontagem se converteria em lembrete de que o patrimônio exige cuidado contínuo, orçamento adequado e protocolos claros. Se a recuperação do álbum foi possível por um esforço conjunto, de vários órgãos e entidades governamentais, que ela servisse de lição e de alerta permanente, para que o evitável deixasse de ser apresentado como destino e passasse a ser responsabilidade coletiva.

Henri Matisse. Jazz, 1947. Biblioteca Mário de Andrade, Núcleo de Obras Raras e Acervos Especiais
Não foi o caso, nem acaso. A violência do ato não se explica apenas pela atitude do ladrão; explica-se, sobretudo, pela sucessão de escolhas administrativas que fragilizaram a proteção do acervo e pela indiferença que permitiu que esse risco se concretizasse, novamente.
Mais do que lamentar a perda, é urgente que este episódio sirva como um chamado para a reflexão sobre as políticas culturais brasileiras. A memória coletiva não pode ser tratada como um bem descartável ou um mero objeto de exibição; ela é um campo de resistência e um bem que exige compromisso, investimento e vigilância.
Viu‑se ampla repercussão do roubo entre profissionais e agentes do meio de arte, mas a mensagem não parece ter chegado com a mesma intensidade a quem gerencia o circuito. Há uma zona de complacência que precisa ser perturbada: não se trata apenas de repercussão midiática, mas de fazer com que esses atores percebam que a vulnerabilidade que atinge espaços públicos repercute diretamente sobre outras coleções.

Entrar, à luz do dia, na maior e mais tradicional biblioteca de São Paulo para subtrair obras de uma exposição que incluía itens de antigas coleções particulares (como as do MAM‑SP) e sair caminhando pelas ruas da cidade sem ser interpelado por uma única viatura, lança uma sombra sobre a segurança de todo o circuito cultural. O episódio não é apenas um incidente isolado; é um sinal de que a proteção do patrimônio depende de cuidados compartilhados e de uma atenção que ultrapasse o comentário que atribui o caso ao extraordinário.

