O COTIDIANO VORAZ DE CLARE ANDREWS

POR DOMI VALANSI Clare Andrews se divide entre duas paisagens extremamente distintas: Escócia e Brasil. Em Edimburgo, uma histórica cidade medieval está lado a lado com construções do século 18. E no Rio de Janeiro, o clima tropical ferve a exuberância da natureza, em meio a uma cidade com vista para o mar. Mas não […]

POR DOMI VALANSI

Clare Andrews se divide entre duas paisagens extremamente distintas: Escócia e Brasil. Em Edimburgo, uma histórica cidade medieval está lado a lado com construções do século 18. E no Rio de Janeiro, o clima tropical ferve a exuberância da natureza, em meio a uma cidade com vista para o mar.

Mas não é o entorno que inspira sua produção atual. Para a artista natural de Aberdeen, cidade portuária do Mar do Norte, a inspiração vem dos registros fotográficos do cotidiano, que são levados para suas telas, pintadas à óleo. As imagens então se desdobram em um entrelaçar de elementos figurativos e abstratos, com cores planas e narrativas cheias de significados.

Aliás, o cheiro da tinta à óleo, tão peculiar, é o que nos recebe nas escadas que levam à Galeria Mercedes Viegas, no Jardim Botânico, onde Clare Andrews apresenta a individual “Hiding in plain sight” (“Escondendo à plena vista”), até o dia 19 de abril. 

Em uma obra que leva o título da exposição, uma mulher nua de costas, cujo desenho foi inspirado no corpo da artista, contrasta com campos de cores que fazem referência ao trabalho do pintor norte-americano Mark Rothko e a uma padronagem, em diálogo com a produção do inglês William Morris, designer têxtil associado com o movimento artístico inglês Arts & crafts e ativista socialista. 

Hiding in plain sight, de Clare Andrews.

Como escreveu o crítico e curador inglês Mel Gooding, “A obra de Andrews é diretamente política: seu trabalho é abertamente engajado com as realidades político-sociais de nosso tempo, especialmente onde a obra se faz encontrar à vida cotidiana de mulheres, seja no trabalho, na saúde no trabalho doméstico, etc”.

O feminino aparece fragmentado na obra “Connoisseur” de grandes dimensões, em que a artista traz diferentes referências a corpos de mulheres de pinturas clássicas de Sandro Botticelli, Gustave Courbet e Jean-Auguste Dominique Ingres. As partes aparecem em uma estrutura que remete a um quadro de Piet Mondrian. Irônico, o título se refere a um pinguim, que aparece em meio à tela.

Os animais também estão na individual em um díptico que traz a pintura de um lobo ao lado de uma tela de um vermelho intenso, representando o perigo. E na entrada da galeria, duas pinturas de pássaros fazem alusão às aves que vivem nos arredores do ateliê de Clare, no Brasil, e que acabaram morrendo ao se chocar nos vidros da janela.

waiting in the wood.

Grounded, Brown Bird.

Grounded, Yellow Bird.

 

“Tento não conceituar muito enquanto trabalho, isso pode ser restritivo e inibidor. É melhor manter as coisas fluidas. Só depois de concluída uma pintura é que entendo melhor o que ela é. Geralmente trabalho em série. Várias pinturas se desenvolvem ao mesmo tempo, com elementos, cores e ideias comuns; que se resolvem de maneiras cada vez mais diversas, até que o processo se esgote”, conta a artista.

Outras pinturas trazem homens e mulheres em situações cotidianas, feitas a partir de fotografias. Um destaque é uma tela em grandes dimensões com grandes campos de azul, vermelho e amarelo. Uma figura de saia longa e sapatos pretos com um brilho de verniz faz a fronteira e a interseção entre as tintas, ressaltando a presença do feminino. Por meio de sua plástica impecável, ela eterniza o cotidiano com uma voracidade suave e hipnotizante.

A Galeria Mercedes Viegas fica na Rua Abreu Fialho, 5 – Sobrado, Horto, Jd. Botânico. A galeria funciona de 12h às 19h, de segunda a sexta. Aos sábados, com hora marcada pelo tel: 2294-4305. Entrada gratuita. 

Sobre a artista

Clare Andrews é uma artista contemporânea escocesa, nascida em Aberdeen, que há três décadas vive e trabalha entre Edimburgo e o Rio de Janeiro. Sua pesquisa em pintura contemporânea centra-se principalmente em obras de grande escala e em séries, onde explora a coexistência de formas de ver abstratas e figurativas. Seu trabalho foi exposto em mostras individuais em instituições como o Museu Metropolitano de Arte de Curitiba, o Centro Cultural dos Correios, Rio de Janeiro, e The Art Gallery, Aberdeen e em galerias comerciais no Brasil e no Reino Unido. Críticos de arte como Mel Gooding e João Henrique do Amaral publicaram ensaios sobre o seu trabalho e suas obras participaram de diversas mostras coletivas entre elas Royal Scottish Academy Annual Exhibition, Edimburgo e ING Discerning Eye Exhibition na The Mall Gallery, Londres.  O seu trabalho figura em coleções públicas e privadas no Reino Unido, EUA, Portugal, Suíça e Brasil.

Domi Valansi é jornalista com foco em artes visuais e museus com pós-graduação em Fotografia com instrumento de pesquisa das ciências sociais
As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da revista Dasartes, sua equipe e conselho editorial.
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