Ninetta Rabner. Créditos: Jamil Kubruk.

NINETTA RABNER E SHIRLEY CIPULLO | TRAVESSA DONA PAULA

POR NOAH MANCINI Vizinhanças poéticas na exposição Atravessa Duas artistas, dois ateliês, uma mesma rua, casas diferentes, vizinhas de porta. Dois contextos distintos de criação que se encontram em trajetória. Trabalhos produzidos em diferentes tempos, em outras épocas, mas também agora. Atravessar a rua de uma travessa, deixar-se levar por uma sugestão poética. Assim se […]

POR NOAH MANCINI

Vizinhanças poéticas na exposição Atravessa

Duas artistas, dois ateliês, uma mesma rua, casas diferentes, vizinhas de porta. Dois contextos distintos de criação que se encontram em trajetória. Trabalhos produzidos em diferentes tempos, em outras épocas, mas também agora. Atravessar a rua de uma travessa, deixar-se levar por uma sugestão poética. Assim se apresenta a exposição Atravessa. Em cartaz até 27 de setembro de 2025, reúne as artistas visuais Ninetta Rabner e Shirley Cipullo em seus ateliês localizados na Travessa Dona Paula, em Higienópolis, São Paulo. Com curadoria de Thais Rivitti e assistência de Sophia Faustino, a mostra parte da relação de vizinhança entre as artistas para refletir sobre a história da vila operária, suas transformações ao longo do tempo e os atravessamentos de memória e subjetividade que emergem desse território.

As trajetórias das artistas denotam a diversidade das práticas reunidas. Ninetta Rabner, grega radicada no Brasil desde a infância, atua como artista desde 1977, com passagens por exposições no país e no exterior, incluindo o Carrousel du Louvre. Shirley Cipullo, nascida em Birigui, iniciou-se na escultura em 2004 e trabalha principalmente com cerâmica, mas também explora outros materiais, tendo participado de mostras nacionais e internacionais como a Bienal de Roma e a Bienal de Florença. Ambas integram o grupo de artistas mulheres Rosa Choque. Nasce daí um propício encontro. 

Além de pensar o lugar, o tempo também é tema presente. Não só nas trajetórias que ali se hospedam, mas um convite a pensar as ações cronológicas sobre os espaços que atravessamos. Em quanto tempo se passam as histórias que vivemos e em quanto tempo podem ser contadas. O que viramos, o que virou, o que fazemos com as viradas. Tal ponto de partida anuncia uma exposição organizada em vizinhança e diálogo, mas também na singularidade de cada percurso criativo.

Em uma galeria, vemos os mapas de uma São Paulo antiga, predecessora dos poucos paralelepípedos que ainda restam para pisarmos. A história dessa vila é espremida pelos prédios da cidade. Histórias outras, as diferentes perspectivas internas, de casas, corredores, janelas, varandas, edifícios que podem ou não existir mais. Histórias que aconteceram e agora se apresentam no presente. 

O exercício das artes plásticas é presente em ambos trabalhos. Ninetta Rabner expõe um caderno de viagens que se dobra e desdobra pelos papéis, traços que se continuam quase ininterruptamente, revelados ou ocultados nas dobraduras do papel. Por outro lado, Shirley Cipullo toma uma questão tridimensional na cerâmica e no têxtil. Dimensões, execuções pictóricas e técnicas diversas, resoluções plásticas também. Reside, na maior parte das obras, uma prática da manualidade.

Shirley Cipullo. Créditos: Jamil Kubruk.

Essa multiplicidade de procedimentos explicita simultaneamente o fazer artístico como investigação material e simbólica: no gesto que molda e ressignifica o suporte, no trânsito da memória, costurando fragmentos, composições oscilantes de registro e invenção. Tais paisagens íntimas e urbanas revelam-se identidades em percurso, retratos de passagens, ou abstrações sensíveis. São capturas de uma continuidade por vezes deslocada, por vezes transeuntes. 

A expografia faz intervenções gráficas e espaciais, como as setas brancas de direção na rua, sugerindo interlocuções do lugar andante. Ou os tecidos azuis em franjas, escondendo e convidando, como também os papeis de parede correlatos ao fundo, a mesa disposta com trabalhos para manusear, tijolos e peças de cerâmica pelo ambiente. Ao expandir a experiência, a montagem convoca o público a participar ativamente da travessia proposta, transformando a visita em um percurso físico e interpretativo.

Ao colocar lado a lado produções que partem de ateliês vizinhos, a proposta curatorial converge tanto as singularidades de cada artista quanto o território comum que se desenha entre elas. No cruzamento desses dois universos criativos, Atravessa vem no encontro, na vizinhança em metáfora, matéria a ser dobrada em obras. Memórias e invenções, reminiscências arquitetônicas e gestos de criação. 

 

 “Atravessa” de Ninetta Rabner e Shirley Cipullo
Curadoria: Thais Rivitti
Ateliês Ninetta Rabner e Shirley Cipullo
Travessa Dona Paula, 37 e 126. São Paulo
Até 27 de setembro de 2025

Noah Mancini (1996 – Juiz de Fora, MG), é Bacharel Interdisciplinar em Artes e Design pela UFJF, MBA em Comunicação e Marketing pela Descomplica e Mestre em Cinema e Artes do Vídeo pela UNESPAR (Bolsista Fundação Araucária). Desenvolve seu trabalho entre texto, corpo e imagem.

As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.
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