POR DOMI VALANSI
“São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba”. Os versos de Noel Rosa e Vadico na canção Feitiço da Viladialogam com a produção recente do artista paraense PV Dias, radicado há 10 anos no Rio de Janeiro. O tradicional bairro da Zona Norte, considerado um dos berços do samba carioca, foi o ponto de partida para a pesquisa desenvolvida para sua individual Modos de Comungar, em cartaz no MUHCAB – Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira. A mostra tem curadoria de Pedro Marco, Larissa Machado e Marina Pinheiro.
Como morador, ele tem uma vivência cotidiana com a cultura musical do lugar. Diariamente, a caminho do ateliê, ele passa pela escola de samba homônima, pela estátua do compositor Noel Rosa em bronze, que marca a entrada do Boulevard 28 de Setembro, cujas calçadas de pedras portuguesas são decoradas com partituras de clássicos da MPB. “Me interessa muito o passado, a musicalidade, me agrega muito no bairro”, conta o artista.

PV Dias no MUHCAB
Com uma produção que pesquisa fatos históricos e culturais, assim como ações coloniais e seus desdobramentos a partir de imagens de arquivo, para esta série o artista desbrava as narrativas de Vila Isabel como território, assim como a produção musical afro-diaspórica. PV Dias parte da rixa entre dois compositores, Noel Rosa (1910-1937) e Wilson Batista (1913-1968), um duelo musical que rendeu ótimas histórias e canções.
Dizem que a polêmica começou quando Wilson Batista compôs Lenço no Pescoço, uma homenagem aos guaiamuns, uma das principais maltas de capoeiristas que dominaram as ruas e o cenário político do Rio na segunda metade do século XIX, que exaltava a figura do malandro. A canção, que chegou a ser censurada na época, foi “respondida” por Noel Rosa com o samba Rapaz Folgado. Outra versão sugere que o pivô da briga foi uma bela moça que dançava no Dancing Apollo, na Lapa, por quem os dois estavam encantados.
“Tem uma história que me encantava muito, há algum tempo, que era essa confusão entre o Noel Rosa e o Wilson Batista, que eram dois compositores de samba, que se digladiaram. Um falou mal do outro, aí um xingava o outro em uma música, o outro xingava de volta, mas no final eles escreveram uma música juntos, super-romântica e bonita. O Wilson era um cara negro, que defendia uma questão da malandragem, o Noel tinha uma outra relação com o samba e já batia um pouco nessa questão da malandragem”, conta o artista.

PV Dias no MUHCAB
Segundo o curador Pedro Marco, a pesquisa curatorial começou com investigações sobre o espaço e suas formas possíveis de ocupação. “As tantas maneiras de se estar junto, mas sem que essa copresença leve a uma uniformização ou neutralização da diferença. O interessante, na verdade, seria pensar o estar junto na diferença e a relacionalidade desses níveis na pesquisa. Nesses movimentos de estar junto, o som apareceu como um elemento central, sobretudo na região da Pequena África, no Rio de Janeiro, mas também na poética do próprio artista. PV Dias tem um trabalho extenso com as representações da sonoridade paraense e seus diálogos com esse contexto amazônico, que, agora, na série apresentada na exposição, encontra as histórias do samba carioca, sobretudo o samba de Vila Isabel, em meados dos anos 1920, com Noel Rosa e Wilson Batista. PV reencontra as tensões do samba carioca de um século atrás e como o próprio território da Vila é ficcionalizado pelos sambistas de jeitos diferentes, a ponto de nem parecer descrições do mesmo território. De novo, volta-se às posições pelas quais o espaço é visto e quais regimes de historicidade são enquadrados por meio do som, principalmente em áreas urbanas como o Rio de Janeiro”.
Em pinturas de grandes dimensões, PV Dias aborda esta briga a partir de uma estética de história em quadrinhos, mas também com elementos de carnaval. Outra fonte de inspiração foram os arquivos de imagens do MUHCAB, onde estão registros do Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias Nascimento, que foram incluídos na exposição. Outro nome do samba, Heitor dos Prazeres, é homenageado em uma grande tela do Pierrot.
“Essas fotos têm esse aspecto teatral, de fabulação. Então deu para aproximar essas fotografias dos trabalhos. Eu queria muito também trazer uma tela do Heitor, mas ela está na exposição de longa duração do museu. Então decidi trazer a música dele com Noel, que é Pierrot Apaixonado (1935). Então fiz um Arlequim, baseado no Heitor”.
Na paleta de cores, é possível ver valores mais rebaixados na mostra. “Eu trabalhei muito com gesso acrílico também para dar um movimento, para dar um tipo de relevo nas obras. Trabalhei com esse gesso por baixo do óleo e quis experimentar algumas tonalidades que eu ainda não tinha usado antes”.
PV Dias também destaca como é expor em um museu localizado na Gamboa, região da Pequena África, no Rio. “É muito legal quando a gente vê que o público de um espaço é muito diferente do público branco de arte. Tem outros olhares, provocações e questões que são levantadas. Então é superempolgante estar com esse trabalho no MUHCAB, estou superfeliz”, completa.

PV Dias no MUHCAB
Novas formas de colecionismo
O projeto da exposição Modos de Comungar, de PV Dias no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira, começou com uma provocação dos curadores. “Eles me contaram sobre a vontade de fazer uma exposição individual, mas ainda estavam nesse processo de conversas, de como realizar a mostra, se eles iam aplicar para algum edital, se não, e tudo mais”, conta o artista paraense.
“A curadora Clarissa Diniz então me apresentou o Pedro Marco, que era seu aluno no curso de curadoria da Zait Art para a colecionadora paulista Alayde Alves. Como desdobramento de encontros e diálogos, ela acabou financiando a individual. Acho que foi essencial ter esse contato, porque a gente estava querendo muito fazer a mostra, e é muito difícil em aparelhos públicos, por uma série de questões que envolvem recursos financeiros e outras dinâmicas. E a parceria da Alayde não foi exatamente um apoio especificamente financeiro, foi uma coisa bem mais interessante, nesse caso de uma pessoa que chegou para trocar com a gente, conversar, falar sobre a própria mostra”.
A colecionadora reforça a potência desse ciclo: “O curador propõe, o colecionismo viabiliza a formação, a escola promove o aprendizado, o aluno desenvolve sua prática, articula novas conexões e, novamente, o apoio do colecionismo permite que o trabalho aconteça. O resultado é uma exposição excelente, construída por jovens profissionais extremamente talentosos”.
Modos de comungar, de PV Dias, está em cartaz no MUHCAB e vai até o dia 21 de junho de 2026. Entrada gratuita.


