POR MAGDALENA DE ARRUDA Ilg
Marina Abramović vem expandindo os limites da performance há mais de três décadas. Entre 1965 e 1970, estudou na Academia de Belas-Artes de Belgrado e, pouco depois, na Academia de Belas-Artes de Zagreb, onde mais tarde passou a dar aulas. Já nos seus tempos na academia, ela começou a trabalhar com ambientes sonoros, vídeo e performance. Em 2012, fundou o Instituto Marina Abramović (MAI), uma fundação sem fins lucrativos dedicada à arte performática, centrada na performance e na aplicação do “Método Abramović”. O MAI é considerado uma plataforma para obras imateriais e de longa duração. Abramović foi uma das primeiras artistas da performance a ser formalmente aceita pelo circuito institucional dos museus, com grandes exposições individuais por toda a Europa, nos EUA e na China.
No Martin-Gropius-Bau, a exposição abrange o interesse de Abramović em explorar questões de rituais, erotismo, morte e o corpo como lugar de resistência política.
As primeiras performances de Abramović refletem sua relação ambivalente com a política socialista da Iugoslávia. Repletas de símbolos comunistas e cristãos, elas expõem as complexidades de um sistema construído sobre a unidade, a disciplina e a exigência de colocar o coletivo acima do indivíduo.
Três décadas depois, Abramović revisita suas origens através das lentes de costumes pagãos, mitos e crenças dos Bálcãs, região que compreende países como Albânia, Romênia, Bulgária, Sérvia e Montenegro, marcada por diferentes históricos culturais e políticos. Seu ciclo de obras Balkan Erotic Epic (2005/2025) reinterpreta os Bálcãs como um lugar onde a energia erótica e os órgãos sexuais funcionam como meios para transformar ciclos ecológicos e ordens sociais. Segundo Abramović, o corpo humano, nesse contexto, não é apenas uma camada de carne que passa de um estado liminar para outro, do nascimento à morte. Ele serve como um recurso compartilhado, um meio para que as comunidades enfrentem coletivamente a morte, garantindo a fertilidade e restaurando o equilíbrio no mundo natural. Nessa abordagem, a artista lida sobretudo de forma irônica e provocativa com mitos tanto internos quanto externos sobre a região dos Bálcãs e sua diáspora.
A entrada da exposição marca a obra inédita O Funeral de Tito (2025), instalada no átrio do Gropius Bau, aberto gratuitamente ao público. O vídeo, projetado em uma tela monumental, revisita o funeral de Josip Broz Tito, em 1980, líder da resistência contra a ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, governante da Iugoslávia socialista por mais de três décadas. O funeral de Tito, transmitido globalmente pela televisão, é hoje considerado uma das maiores manifestações públicas de pesar, com multidões ocupando as ruas para expressar coletivamente sua tristeza e ansiedade diante de um futuro incerto.
O Funeral de Tito faz referência à tradição do sudeste europeu das narikače — mulheres contratadas para chorar publicamente em funerais, expressando a tristeza através de lamentos ritmados, gritos e choros. No vídeo, fileiras de mulheres vestidas de preto batem no peito para lamentar a morte de Tito. Aqui, o ritmo e o coro criam um estado de transe no qual o corpo se torna um espaço de êxtase social, carregado de tensão crescente.

Marina Abramović: Balkan Erotic Epic. The Exhibition, installation view, Gropius Bau, 2026, photo: Rosa Merk.
Na primeira sala da mostra, o visitante é confrontado com uma instalação composta por uma floresta de cogumelos gigantes em forma fálica. As esculturas são acompanhadas pela vídeo-instalação de dois canais Magic Potions (2025). Com esse trabalho, Abramović imagina os Bálcãs como um lugar impregnado de mitos. Em meio a esse cenário, uma suposta cientista apresenta ao espectador os resultados de sua pesquisa antropológica sobre a sexualidade da região. Nela, a sexualidade balcânica é reduzida a práticas consideradas fora do habitual e associadas ao exótico. Junto à narração da cientista, uma série de vídeos de animação ilustra essas práticas: agricultores que massageiam os testículos de touros cansados para que recuperem as forças; receitas de poções de amor que incluem fluidos corporais com o objetivo de fazer o amante se apaixonar.
Por meio dessa paródia da perspectiva científica, Abramović demonstra como os países considerados parte dos Bálcãs foram definidos principalmente através de uma lente ocidental. Sistemas de conhecimento transmitidos por histórias orais, canções e práticas cotidianas foram frequentemente descartados como retrógrados e selvagens, sendo utilizados para construir a região como a antítese de um Ocidente supostamente racional e civilizado. Em Balkan Erotic Epic, Abramović expõe tais noções estereotipadas através de seu exagero intencional.

Marina Abramović: Balkan Erotic Epic. The Exhibition, installation view, Gropius Bau, 2026, photo: Rosa Merk.
Na sala seguinte, encontram-se três produções recentes de 2025. Em Scaring the Gods from the series Balkan Erotic Epic (2025), Abramović dá continuidade ao trabalho anterior Magic Potions. A obra apresenta uma cerimônia conduzida por mulheres em uma paisagem distópica. Durante todo o vídeo, elas mantêm a cabeça erguida para o céu enquanto a chuva cai sobre seus corpos. Não há qualquer indício da época do ano ou da localização geográfica, apenas um céu escuro que envolve as personagens. Enquanto movimentam o corpo em uma coreografia processional, exibem suas vulvas para evitar que a chuva inunde a colheita da estação. Marcante nas obras recentes de Balkan Erotic Epic é o fato de a sexualidade não ser nem comercializada nem ocultada; ela serve como uma oferenda aos deuses, à natureza e como forma de libertação pessoal diante de restrições políticas e sociais.

Marina Abramović, Scaring the Gods from the series Balkan Erotic Epic, Performance documentation, Factory International, 2025, Manchester, UK © Marina Abramović, Courtesy of the Marina Abramović Archives / VG Bild-Kunst, Bonn 2026, photo: Marco Anelli
Balkan Erotic Epic dá continuidade à longa pesquisa de Abramović sobre erotismo, sacrifício e morte, iniciada ainda em sua cidade natal, Belgrado. A infância da artista, marcada pela realidade socialista, exigia disciplina perante o partido e reforçava a ideia de que o corpo pertencia, em primeiro lugar, ao Estado. Sob o regime de Josip Broz Tito, fundador e presidente da Iugoslávia, o Estado multiétnico era orquestrado através de demonstrações coletivas de lealdade, o que trouxe consigo a instrumentalização do corpo coletivo, simultaneamente exaltado e vigiado. Nesse contexto, o interesse de Abramović pelo ritual e pela resistência pode ser interpretado como uma reivindicação da autonomia corporal — um contra-ritual à doutrina estatal de controle, obediência e espetáculo.
Junto às obras atuais, a exposição justapõe peças icônicas, incluindo Rhythm 5 (1974), Lips of Thomas (1975/2005) e Spirit Cooking (1996).
Desde suas primeiras ações na década de 1970, a artista utiliza o próprio corpo como meio para ultrapassar os limites físicos humanos. Em Rhythm 5 (1974), Abramović deitou-se no chão, no centro de uma instalação em forma de estrela de cinco pontas em chamas.
A estrela vermelha, símbolo inseparável da mitologia socialista da Iugoslávia, adotada pelos guerrilheiros comunistas durante a Segunda Guerra Mundial contra a expansão nazista na Europa, representava resistência antifascista, união e vitória da classe trabalhadora. O que havia sido um símbolo de libertação transformou-se em símbolo de controle. À medida que o fogo se espalhava pela instalação em forma de estrela, Abramović perdeu a consciência por falta de oxigênio e precisou ser retirada pelo público. Segundo Agnes Gryczkowska, curadora e autora do catálogo, a performance encenou o sacrifício não como metáfora, mas como perigo real — a artista oferecendo-se à estrela do Estado apenas para desmaiar sob sua fumaça.

Marina Abramović: Balkan Erotic Epic. The Exhibition, installation view, Gropius Bau, 2026 © Gropius Bau, photo: Rosa Merk.
A obra reflete sobre como os símbolos políticos se inscrevem na carne, sobre como uma ideologia se transforma em tortura e sobre como o corpo é destruído por aquilo que promete protegê-lo. Em Lips of Thomas (1975), Abramović comeu mel e bebeu vinho antes de se espancar, gravar uma estrela no abdômen e deitar-se sobre uma cruz de gelo. Sentindo o calor da dor penetrar a pele e se misturar ao frio do gelo, ela desmaiou. Agnes Gryczkowska descreve esse ato como se a estrela de cinco pontas representasse um selo de pertencimento político gravado na carne até fazer o sangue escorrer. A dor não surge em contraste ao prazer, mas como meio de transcendência, como um sacrifício sem retorno. Nessa performance, Abramović substituiu o próprio corpo pelo corpo político, transformando a estrela em uma ferida que jamais cicatriza.
Segundo as curadoras Agnes Gryczkowska e Jenny Schlenzka, essa justaposição de obras permite conectar os trabalhos mais recentes de Abramović ao percurso criativo completo da artista, revelando a evolução de vários de seus temas recorrentes: o tratamento do erótico como potência espiritual, comunitária e sociocrítica; as contradições do socialismo iugoslavo; a história social dos Bálcãs; o folclore e a mitologia.
A exposição foi concebida pela curadoria de Agnes Gryczkowska, curadora e autora da publicação, e Jenny Schlenzka, diretora do Gropius Bau, com Elena Franziska Setzer, curadora assistente do Gropius Bau, e Savannah Thümler, assistente de curadoria do Gropius Bau.
A mostra é acompanhada pela publicação On the Erotic, em formato pocket, que inclui uma entrevista com a artista, bem como textos da curadora Agnes Gryczkowska, de Audre Lorde, Svetlana Racanović, Silvia Federici, Mithu M. Sanyal, Elizabeth M. Stephens e Annie M. Sprinkle.
Marina Abramović: Balkan Erotic Epic, com curadoria de Agnes Gryczkowska e Jenny Schlenzka, está em cartaz no Museu Martin-Gropius-Bau, Berlim, de 15 de abril a 23 de agosto de 2026.


