POR DOMI VALANSI
Nome incontornável da arte brasileira contemporânea, Hélio Oiticica (Rio de Janeiro, 1937-1980) se ligou à vida e às coisas do mundo, por meio de sua criação artística sensível, de consciência individual e sociocultural. A partir de seu movimento de subir os morros cariocas, sua produção passa a abordar o corpo, a dança, os objetos do cotidiano e a arquitetura, criando novas formas de relação do espectador com a obra e o espaço expositivo. “Em Mangueira, na vida do morro, eu descobri o meu caminho”, disse o artista em entrevista para Norma Pereira Rego, no jornal Última hora, em janeiro de 1970.
Uma década antes, a partir de 1960, o Hélio começava a produzir os penetráveis, trabalhos no domínio da arquitetura. “A partir desse momento, meu trabalho foi um desenvolvimento constante da desintegração de conceitos formais da arte, pelo questionamento da natureza da ‘obra de arte’ e pela procura de uma forma de contato não contemplativo; a participação do espectador (participante), que não somente pode penetrar no interior das peças mas também pode tocá-las. (…) Esses projetos são simples e generosos, não ainda definidos, e são mostrados como situações para serem vividas”, escreveu Oiticica em 1971.

Macaléia
Um destes penetráveis é Macaléia (1978), uma homenagem do artista ao músico Jards Macalé, feita de aço inox e tinta. Inspirada na estrutura de um galinheiro, a obra reflete os interesses de Oiticica por construções populares, orgânicas e informais. O penetrável está em exibição no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (CMAHO), onde a artista Marina Ribas, como parte da sua individual “Nada é de n0vo”, em um exercício de pensamento, cria um diálogo por meio de uma performance.
Na ação batizada de “Rito para Oiticica”, Ribas começa a costurar a roupa branca de diferentes camadas que está vestida, criando uma espécie de bolsa/suporte. Em um grande site-specific, uma parede de metal onde centenas de ovos de cerâmica estão suspensos por imãs (e podem ser manuseados pelo público, que cria novos grafismos) ela começa uma colheita desses ovos, que enchem a vestimenta. Elemento recorrente na sua produção escultórica e na arte contemporânea, eles abordam um equilíbrio impermanente. O peso na roupa reforça essa ideia de impermanência.
O descer das escadas do centro cultural, harmonizando esta carga, se torna lento e o público segue o ritmo em procissão, com o silêncio quebrado apenas pelo ranger dos degraus. Até que se chega na Macaléia, com seus gradis azul, amarelo, vermelho e branco, chão de brita, com um saco de novos significados para integrar à instalação.
A artista dança, se move pelo espaço a partir da intervenção sonora do músico Wladimir Gasper. A ação faz referência à fala de Oiticica “descobri que o que faço é música e que música não é ‘uma das artes’ mas a síntese da consequência da descoberta do corpo”. A sala tem a frase “O que eu faço é música” em seu portal de entrada.

Detalhe ovos Macaléia
Assim como nos parangolés, cujas réplicas estão no espaço expositivo ao lado, os ovos começam a ser disponibilizados e colados em Macaléia. O espaço proposto por Oiticica é ativado, celebrado em som e movimento. As paredes de metais que são linhas, ganham pontos, e por mais sensível que seja o equilíbrio, a memória da festa, da dança é compartilhada por todos.
Macaléia foi materializada apenas em 2010, 32 anos após sua criação. A obra, que foi exposta no Pérez Art Museum Miami em 2023, também deu nome a um documentário de Rejane Zilles, sobre a relação e o experimentalismo de Hélio Oiticica e Jards Macalé.


