POR TEREZA DE ARRUDA
A exposição En Passant é dedicada à longa trajetória artística de Luzia Simons e à sua investigação profunda da natureza — em especial, do jardim como símbolo, campo de pesquisa e espaço de memória cultural. O jardim, em sua obra, não é apenas um lugar físico, mas um conceito histórico, poético e político que evoca temas como identidade, memória, migração, efemeridade e transformação.
Simons utiliza o jardim como ponto de partida para uma reflexão complexa sobre a relação entre o ser humano e a natureza. Suas obras, que englobam fotografia, vídeo, objetos e instalação, transitam entre documentação botânica, metáfora poética e análise ecológica. Para a artista, o jardim representa tanto um espaço controlado quanto selvagem, simbolizando deslocamentos culturais, histórias coloniais e a fragilidade dos ecossistemas.
A mostra apresenta obras de 30 anos de prática artística de Luzia Simons, incluindo trabalhos mais recentes desenvolvidos durante uma residência no Instituto Bardi / Casa de Vidro, em São Paulo. Nessa série, ganha destaque a pesquisa atual da artista sobre o legado cultural de Lina Bo Bardi, cujo jardim se transforma num espaço de reação artística, memória coletiva e estética natural brasileira.
En Passant é uma exposição multifacetada e sensorialmente poética, na qual Luzia Simons entende o jardim como arquivo, espaço de pensamento e espelho das transformações sociais. Suas obras levantam questões cruciais sobre como lidamos com a natureza, o papel da memória em contextos ecológicos e as interseções entre estética, ciência e política. A exposição é, ao mesmo tempo, uma homenagem à natureza e uma reflexão crítica sobre sua domesticação e instrumentalização.
Estrutura da Exposição
Primeiro Espaço
O primeiro ambiente oferece uma visão geral das pesquisas e expedições artísticas globais de Luzia Simons, que a levaram a locais como a Amazônia no Brasil, jardins botânicos na Europa e arquivos históricos. Fica evidente como Simons não retrata fenômenos naturais ou plantas apenas como objetos, mas como portadores de narrativas culturais.
Estão expostas, entre outras, obras das séries STOCKAGE e AMAZONAS, nas quais flores e frutos digitalizados, paisagens fotografadas e elementos naturais desenhados revelam uma presença fascinante e misteriosa. Esses universos visuais unem precisão científica e abstração artística, transformando as plantas em protagonistas de histórias globais — seja por meio do comércio colonial, da classificação botânica ou da migração.
Segundo Espaço
No segundo espaço, Luzia Simons aborda a relação entre o jardim existente como lugar planejado e o contexto expositivo. Suas obras instalativas interagem deliberadamente com a arquitetura do ambiente, traduzindo estruturas vegetais em novas linguagens visuais e criando locais atmosféricos de estranhamento e transformação.
Elementos centrais dessa apresentação são objetos cerâmicos que reproduzem folhas de plantas. Essas esculturas remetem às formas orgânicas da natureza, ao mesmo tempo em que refletem o desejo humano de conservar e ordenar esteticamente o mundo natural.
A intervenção é acompanhada por obras da série STOCKAGE, nas quais flores digitalizadas são organizadas em composições visuais complexas, quase barrocas. Simons transforma os motivos vegetais em ícones digitais que investigam a natureza como imagem culturalmente codificada. O próprio espaço expositivo torna-se, assim, um jardim expandido — um lugar de transformação e percepção.
Terceiro Espaço
O terceiro ambiente é dedicado à residência artística no jardim da Casa de Vidro, lendária residência da arquiteta Lina Bo Bardi e seu marido Pietro Maria Bardi, em São Paulo. O jardim — concebido originalmente como espaço de “natureza selvagem” — torna-se, aqui, uma metáfora para as reflexões de Simons sobre história, arquitetura e ecologia.
São apresentadas obras criadas no local, incluindo fotografias, esboços aquarelados, estudos botânicos, frottages, cianotipias florais e assemblages de objetos, que se revelam no espaço como arquivos botânicos. O jardim surge não apenas como motivo estético, mas como lugar de conhecimento: Simons o interpreta como um arquivo aberto da história cultural brasileira, um espaço de modernidade vivida e, ao mesmo tempo, uma zona ecológica frágil. O diálogo com o legado de Lina Bo Bardi é apresentado na exposição como uma continuidade artística, e não como uma simples homenagem museológica.
Quarto Espaço
O quarto ambiente oferece um panorama retrospectivo da evolução de Luzia Simons desde o início dos anos 2000. São exibidos grupos de obras fundamentais que moldaram a linguagem artística da artista.
Essas obras evidenciam como Simons, em sua pesquisa, revisita constantemente as relações entre natureza e cultura. Temas como efemeridade, controle, ecologia, migração e transformação percorrem sua prática como um fio condutor. As obras convidam o público a refletir sobre nossa posição no ambiente: como criadores, usuários e, simultaneamente, como parte de um sistema biológico maior.
O visitante transita por um conjunto de materiais, formas e cores que ecoa a lógica de um jardim — entre controle, crescimento, decadência e renovação. Os jardins que Simons evoca ou constrói não são idílicos, mas espaços reflexivos sobre o estado do mundo.
Pavimento Superior
No andar superior, o público encontra um intenso diálogo com séries anteriores de Luzia Simons.
A série Camera Obscura oferece um olhar fascinante sobre formas orgânicas. A artista utiliza uma técnica baseada no princípio da câmara escura histórica, criando pequenas projeções luminosas sobre o fundo escuro de caixas pretas. Esses pontos de luz transformam-se em “subjetividades” poéticas, proporcionando ao público uma percepção quase visionária das estruturas naturais encenadas pela artista.
Elementos orgânicos aparecem também em imagens em movimento, como no filme Blacklist, onde composições fantásticas de formas orgânicas ganham vida, quase como seres autônomos. No filme Amazonas, Simons documenta sua pesquisa na região amazônica, transformando artisticamente a natureza e os rios em fontes de cor, vitalidade e mistério.
A exposição se encerra com a série Transit — uma coleção de 32 colagens digitais feitas a partir de páginas escaneadas de seus passaportes e documentos oficiais do Brasil, França e Alemanha. Essas colagens oferecem uma reflexão crítica sobre identidade individual e coletiva, fragmentando os ornamentos de segurança desses documentos e revelando o que há por trás das estruturas controladas pelo Estado. Simons combina elementos gráficos de diferentes passaportes em composições visuais e fotográficas, expondo a ironia da uniformidade presente nas encenações de poder estatal.
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Luzia Simons – “En Passant”:
Uma jornada artística pela natureza, cultura e memória
De 13 de julho até 21 de setembro de 2025
no Mönchehaus Museum Goslar, Alemanha
Tereza de Arruda é curadora e colabora internacionalmente com diversas instituições e museus na realização de mostras coletivas ou monográficas. É mestre em História da Arte, formada pela universidade Livre de Berlim.
Vive desde 1989 entre São Paulo e Berlim.












