POR MATTEO BERGAMINI
Sensualidade e delicadeza, naturezas mortas e baladas, rapazes e tesão: após a consagração na Bienal de Veneza de Adriano Pedrosa, o universo do destacado pintor estatunidense Louis Fratino se mostra pela primeira vez em um museu, no Centro de Arte Contemporânea Luigi Pecci, em Prato (Itália)
Pelos descasos da vida, aliás, por aqueles do sistema da arte que segue, como todas as formas de poder, a sua própria anarquia criando trajectórias que nem sempre aparecem lineares ou ultrapassam de vez todas as etapas, Louis Fratino já teve as suas obras expostas na Bienal de Veneza de 2024, convidado pelo curador Adriano Pedrosa, mas nem sequer até agora houve uma sua individual em um museu publico.
A suprir essa lacuna, até o mês de maio, é o Centro de Arte Contemporânea Luigi Pecci, em Prato (Itália), um dos mais antigos do país inteiramente dedicado a promoção da arte de hoje desde a sua fundação, em 1988.
Louis Fratino (1993, Annapolis, Maryland), conforme escrito queimou todos os degraus em pouquíssimo tempo: após a graduação (2015) em pintura e ilustração no Maryland Institute College of Art, em Baltimore, viaja para Berlim como Fulbright Research Fellowship em Pintura (2015-16) e em 2019 entra na galeria Sikkema Malloy Jenkins de Nova Iorque, pela qual realiza três individuais: “Come Softly to Me” (2019); “Morning” (2020); “In bed and abroad” (2023).
Vale destacar que já em 2019 o pintor foi exposto na Itália, no Museo MAN de Nuoro, em Sardenha, parte da exposição “O Youth and Beauty!” que incluía também os artistas Anna Bjerger e Waldemar Zimbelmann, com curadoria de Luigi Fassi, reunindo os três pelo uso íntimo da pintura figurativa, onde os fragmentos da vida cotidiana tornavam-se a ferramenta para dar forma à própria experiência, viva de melancolia e até solidão.
No entanto, muito rapidamente, o estilo inconfundível do artista se espalha aos quatro cantos do mundo e as suas cotações comerciais sobem demasiadamente, os museus o querem: vem adquirido pelo The Baltimore Museum of Art, pelo Hammer Museum em Los Angeles, e também pelo Whitney Museum of American Art, em Nova Iorque, entre outras instituições norte-americanas, até que em 2024 chega o convite do diretor do MASP para participar da Bienal “Stranieri Ovunque – Foreigners everywhere”, numa sala quase individual, onde ao seu lado tinha algumas pequenas pinturas do italiano Filippo De Pisis e uma do indiano Bhupen Khakhar.
A primeira individual de Fratino, em Prato
Curada pelo diretor do Museu Pecci, Stefano Colicelli Cagol, intitula-se “Satura” a primeira individual do artista, referencia à locução latina “Satura lanx” que significa “prato misto de primícias da terra destinados aos deuses”: de fato, o universo poético de Fratino parece modelar-se nas riquezas e nas belezas da juventude, na curiosidade pelas cores e pelas demais atividades de lazer ou da cultura: frequentemente os rapazes retratados pelo artista estão absortos em leituras ou em contemplações silenciosas ou, ainda, flagrados meditabundos em ambientes domésticos.
Fratino protagoniza nas suas telas, desenhos e gravuras – melhor do que ninguém, a onda queer que pegou de vez as artes visuais nos últimos anos e que tinha nos seus antepassados autores tais como David Hockney, Robert Mapplethorpe, Nan Goldin, Derek Jarman, cada um deles a relatar em formas diferentes: relações homossexuais, naturezas mortas, afetividade e corpos alheios as regras sociais. Eis que o autor continua alimentando esse eixo, com uma pintura agridoce que já se tornou fonte de inspiração para ademais jovens artistas tentando replicarem quer a delicadeza de cenas do lar quer o tesão de momentos bem mais que íntimos, até pornô se observados com olhos desencantados: sexo oral, penetrações, masturbação, a criar também um allure de voyeurismo, “fotografando” a vida cotidiana que acontece também nas redes sócias, de Instagram até X, transbordando de conteúdos e de uma nova estética cada vez mais cativante, sutilmente ou escancaradamente devassada.
Talvez não seja por acaso que o sucesso de Fratino veio à tona e se consolidou na época dos confinamentos devidos à pandemia e do consequente retorno generalizado à pintura: as intimidades reveladas pela internet funcionam como isca para um engate com um imaginário que vive suspenso entre polos opostos, de boques de flores a nudez sem filtro, investigando de uma forma sensual as lições de Picasso, Henri Matisse, Marsden Hartley e Georgia O’Keeffe.

Louis Fratino, The pink and green light, 2024. Cortesia do artista e Sikkema Jenkins & Co., Nova York e Galerie Neu, Berlim
Um corpo à solidão
De fato, os jovens eternamente sensuais que vivem nas telas de Fratino, (incluindo os autorretratos) mantem um ar impassível mesmo durante os amplexos, nas banheiras, encostando-se um com outro nos mesmos espaços ou fumando sozinhos em baladas super coloridas: o artista parece até por em luz as dinâmicas dos aplicativos de encontro, a conquista do sexo cada vez mais fácil e cada vez mais vazio, onde ninguém se agarra a intensidade nenhuma a não ser a do singelo momento da sedução, proporcionando múltiplas conquistas, desconhecidas e evanescentes.
Enfim, enquanto Edward Hopper retratava a solidão exterior de postes de gasolina, de casas vazias à beira da praia ou de encontros “mudos”, Fratino oferece um corpo à solidão que se perde, também, na mudança obsessiva de parceiros e na busca de “O melhor que já não vem” – como cantava Antonio Variações, mais um ícone queer da música pop portuguesa, logo perdido na epidemia de HIV na metade da década de 1980.
O que diferencia Fratino daquela geração, é exatamente uma curiosa frieza pela qual o artista parece olhar o mundo em volta numa perspectiva quase “congelada”, inclusive, longe do espectro da morte que agarrava a produção artística dos seus antepassados, muito pelo contrario, bem próximo aos maiores desencantos e as distâncias afetivas atuais, embora da multidão, das festas, dos amplexos e das demais simbologias sentimentais.
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Louis Fratino, Satura
Centro de Arte Contemporânea Luigi Pecci, Prato
Até o dia 11 de maio de 2025
Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte. É
diretor da revista italiana Exibart, e também
colabora com a portuguesa Umbigo Magazine.
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