POR FABRÍCIO REINER
“Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!”
João Guimarães Rosa, Grande Sertão, Veredas
Jesus José – pinturas
O paralelo entre a frase do escritor do sertão e o pintor dos negrumes pode parecer em primeiro momento um despropósito. É que Jesus José é artista desses que guardam uma vastidão por dentro, mas dessas vastidões sem fim. Se para Rosa o sertão estava em toda parte, para Jesus ele se encontra em qualquer lugar onde ele o leve. É uma grandiosidade que se impõe pela abertura que se deixa atravessar. E nessa sua pintura que carrega, inclusive nas tintas, basta encostar o ouvido na matéria e esperar ela falar, aos poucos, uma sabedoria que se adensa gesto a gesto, camada a camada, como numa conversa de soleira que vai somando os saberes que a maturação aprendeu a condensar.
Não há revelação súbita; as formas não se impõem nem se deixam ver de primeira, já que se acomodam no tempo da mão diligente, que, por assim, demora. Presença que se forma e se esgarça, retorna para se deixar escapar novamente. No Sertão de Jesus a materialidade se amplia porque não se entrega e, nessa vastidão, o campo cresce de dentro pra fora, discreta mas contínua.
Na sua obra, a profundidade sustenta o tempo da travessia. O que se apresenta na aparentemente simples superfície negra vai se confirmar como muito; não porque se avoluma, pois que se intensifica. Como no sertão, o essencial no artista goiano não está à frente, está ao lado, um pouco atrás, nos intervalos. E é nessa forma que Jesus José opera seus milagres: uma pintura que multiplica o espaço de ver.
É que Jesus se esmerou no ofício e sabe que a pintura é digna “de que lhe consagremos todo nosso trabalho e dedicação”. Pois a viagem do recôndito goiano para o meão toscano encontra Jesus na justeza da prescrição de Alberti; que dizia conter a pintura “a força divina de fazer presentes os ausentes”, fazendo assim viver longa vida aos desencarnados.

Essa afinidade entre o ofício aprumado de Jesus e a doutrina de Alberti aponta para a mesma direção: a pintura como ato de presença que torna matéria a ausência. Pois a ideia no pintor pode se resumir a uma presença que se faz por retenção, uma imagem guardada antes de ser exposta. Segredo que imprime à obra um peso de responsabilidade e precisão. E essa ideia na sua pintura é manter o entendimento de uma imagem vista com olhos interiores, em profundo silêncio e segredo; é imaginar e escolher a mais rara e excelente que a imaginação e a prudência possam alcançar, seja um exemplo sonhado, visto no céu ou em outro lugar (na própria família talvez); e, após têla seguido e desejado, pôrse a reproduzila e manifestála pelas próprias mãos, conforme a concebeu e viu dentro de seu entendimento.

E o leitor atento certamente capturou a emulação a Francisco de Holanda aplicada ao pintor. É que a imensidão de Jesus é capaz de se ver aderir a tão diferentes matérias. Pois sua visão com ‘olhos interiores’ trata de uma disciplina da atenção. Mas não de privilegiar o plano mental sobre o manual, já que marca o tempo em que a imaginação e a prudência dialogam. A imaginação produz a variação, intensidades, figuras possíveis; a prudência regula a escolha, evita a vontade do excesso e decide o que a mão poderá concretizar com verdade. A escolha da ‘mais rara e excelente’ imagem é, portanto, decisão ética: medida no alcance do desejo frente às condições materiais.
O sonho, o céu, a observação são todas fontes legítimas. O que importa é o modo como a visão interna é tomada como norma de trabalho: não um projeto imutável, mas um exemplo regulador que orienta o gesto, que flui na medida da intenção. Traduzir essa visão exige fidelidade; exige que o pintor reconstitua externamente o sentido que viveu internamente, sabendo que a materialidade da tinta sempre resistirá, contrapondo consistência ao impulso.
Lidar assim com esses tempos, permite a forma emergir da matéria. Nesse ponto, a tela deixa de ser representação do ausente, para se tornar campo de emergência, onde figura e fundo se implicam mutuamente. Não há hierarquia: o que surge é fruto de justaposições, sobreposições, aglutinações de pinceladas que se acumulam até que algo se deixe ver. A figura não é anterior à pintura, mas efeito de sua própria dinâmica. E o prazer estético, nesse contexto, não está em reconhecer uma forma, mas em acompanhar o processo de sua constituição. O êxtase não é transcendência, mas subproduto do êxito cognitivo: o instante em que o olhar percebe, no fluxo da matéria, a possibilidade de sentido. As subfiguras que emergem e desaparecem não são oposições entre presença e ausência, mas variações de intensidade, modos diferentes de inscrição do gesto.
A pintura de Jesus José não se constrói contra nada, mas a partir de tudo o que nela se acumula. É uma escuta radical da matéria, uma especulação que não busca resolver, mas prolongar a experiência sensível. O milagre, aqui, não é a revelação de uma verdade oculta, mas a insistência em fazer aparecer o que não estava dado e tornar visível, agorinha, agorinha, o que só existe mesmo no ato de pintar.

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As pinturas de Jesus José podem ser vistas na mostra:
Sob a febril agitação de um pulso
Artistas: Shay Marias / Rafaela Foz / Jesus José
Curadoria de Henrique Menezes
WG Galeria, São Paulo
Até 25 de outubro de 2025
Fabrício Reiner é mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo, aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto a Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador e curador independente.


