Gilbertto Prado e o Grupo Poéticas Visuais | MAC USP

Ao incorporar inteligência artificial, ambientes virtuais e sistemas algorítmicos, a arte contemporânea amplia sua capacidade de problematizar padrões sociais, narrativas e memórias, ao mesmo tempo em que sugere modos possíveis de coexistência entre a natureza, as máquinas e a humanidade

POR ALECSANDRA MATIAS DE OLIVEIRA

Maçãs, dispositivos e “outros paranauês

Ao incorporar inteligência artificial, ambientes virtuais e sistemas algorítmicos, a arte contemporânea amplia sua capacidade de problematizar padrões sociais, narrativas e memórias, ao mesmo tempo em que sugere modos possíveis de coexistência entre a natureza, as máquinas e a humanidade. Nesse movimento de questionamento das convenções, a arte mediada por tecnologias reinscreve corpos e histórias e, sobretudo, inventa mundos nos quais humanos, vegetais, dispositivos, territórios e temporalidades se entrelaçam em complexas redes de interdependência.

Sob essa perspectiva, a relação entre arte, tecnologia e natureza não se reduz a uma simples justaposição, nem à subordinação de uma esfera à outra. Trata-se de uma interação complexa, recíproca e contínua, capaz de redefinir não apenas os processos de criação, mas também as formas de experienciar a arte. Nesse horizonte, emerge a questão: de que modo as práticas artísticas mediadas por computação cognitiva e dispositivos eletrônicos podem transformar nossa percepção da natureza, da ciência e, sobretudo, da própria vida?

As possíveis respostas podem ser encontradas em trabalhos de artistas como Refik Anadol (Turquia), Giselle Beiguelman (Brasil), Hito Steyerl (Alemanha) e Pedro Alves da Veiga (Portugal), assim como em práticas de bioarte e artemídia. Essas criações evidenciam como dispositivos digitais e eletrônicos são capazes de reconfigurar nossa percepção, convertendo números, códigos e máquinas em experiências sensíveis e críticas.

No atual circuito de exposições em São Paulo, a mostra Portais, Passadiços e Pomanders, de Gilbertto Prado, em diálogo com o Grupo Poéticas Digitais, em exibição no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), com curadoria de Ana Magalhães e Priscila Arantes, está inscrita nessas propostas artísticas que tensionam os limites da arte contemporânea a partir de ideias, tecnologias e recursos naturais.

A exposição reúne obras inéditas, mas também trabalhos históricos, como Desluz e Pedralumen, que foram reativados e ressignificados no contexto atual, criando uma ponte entre a trajetória da artemídia no Brasil e suas novas experimentações. Aliás, o que muitas vezes passa despercebido é que Gilbertto Prado é considerado um pioneiro na intersecção entre arte e tecnologia, explorando mídias digitais e novos meios de expressão. Atuando desde os anos 1980, o artista empregou o fax, a arte postal, a realidade virtual e as redes digitais em seus trabalhos, questionando a relação entre arte, ciência e sociedade e, subvertendo sentidos previstos pela lógica do capital. Assim, Portais, Passadiços e Pomanders está para além de uma exposição de obras recentes, mas é também um gesto que reinscreve a artemídia dentro da história da arte brasileira.

Da seleção de obras, merece destaque Ruta de Xardíns, instalação que articula natureza e tecnologia, transformando uma fruta em suporte de inscrição e memória – algo que amplia a discussão sobre como elementos da natureza podem ser ativados como registro cultural. Na instalação, uma maçã torna-se suporte simbólico e sensível. Carregada de significados culturais — desde o mito bíblico até a ideia de conhecimento e desejo — a maçã é transformada em um artefato artístico que recebe inscrições digitais, funcionando como um arquivo de lembranças.

A obra não se limita a apresentar um objeto, mas propõe um percurso: cada marca na superfície da maçã é entendida como uma rota, um caminho que ativa memórias e abre possibilidades de leitura. O título Ruta de Xardíns (em galego) evoca justamente essa ideia de jardins como espaços de circulação e contemplação, onde o público é convidado a se deslocar entre camadas de tempo e presença. Assim, o jardim não é físico, mas simbólico, construído pela interação entre o orgânico e o maquínico.

O artista explora ainda a tensão entre o efêmero e o permanente. A maçã, perecível por natureza, contrasta com as inscrições digitais que pretendem fixar memórias. Essa dualidade revela uma reflexão sobre como a tecnologia pode mediar nossa relação com o mundo natural, sem apagar sua fragilidade e sua dimensão simbólica. O espectador é levado a perceber que o digital não substitui a natureza, mas a atravessa, criando formas de coexistência.

Dentro da trajetória de Prado, Ruta de Xardíns dialoga com outras obras que também investigam a presença invisível de fluxos e conexões (ou ainda, a relação existente entre percurso e paisagem) — como Desertesejo, uma das obras centrais da mostra, que foi reconfigurada como ambiente virtual multiusuário. O visitante pode assumir a perspectiva de animais como águia, onça e serpente e percorrer mundos chamados Ouro, Viridis e Plumas. O detalhe interessante é que esses mundos não são apenas cenários digitais, mas paisagens simbólicas que remetem tanto ao deserto quanto ao desejo entendido como potência criativa, ativando reflexões sobre solidão, encontro e partilha silenciosa.

Sendo assim, na mostra, percebe-se a construção de espaços que exploram zonas de transição entre o físico e o digital, o orgânico e o maquínico. Obras como Amoreiras, em que árvores dançam movidas pela poluição, Manacá de cheiro, cujo florescimento digital é guiado pelo sol, e Caixa de choque, que transforma energia de legumes e frutas em descargas elétricas, articulam tecnologias, propondo uma ecologia expandida que desafia a racionalidade ocidental.

Mas, Caixa de choque desperta reflexões que transcendem esta ecologia expandida; ela trata dos embates culturais, dos conflitos entre colonizadores e colonizados. Nessa instalação, o milho, a laranja e a pimenta geram energia elétrica, que é transformada em pequenos choques sensoriais. A estrutura é inspirada nos toqueros do México, máquinas populares que produzem descargas elétricas em feiras e festas. Ao trazer esse mecanismo para o espaço expositivo, evocam-se os choques culturais da colonização nas Américas, colocando em evidência como a história se inscreve no corpo e na memória coletiva.

A obra funciona como uma metáfora da violência colonial: o choque físico que o visitante sente é uma tradução sensorial dos impactos da colonização, mas também uma forma de partilha coletiva, uma vez que os participantes experimentam juntos essa energia transformada. Ao mesmo tempo, o uso de elementos naturais como milho e pimenta remete às culturas originárias das Américas, que foram profundamente afetadas pela colonização, mas que permanecem como símbolos de resistência e vitalidade. Dentro da mostra, Caixa de choque se destaca por articular história, corpo e tecnologia em uma experiência que não é tão somente visual, mas tátil e participativa.

De modo geral, a exposição propõe uma reflexão sobre as epistemologias coloniais e formas de invisibilização que estruturaram a modernidade. Porém, em uma camada mais profunda, percebem-se as contranarrativas, os questionamentos; existe um exercício de reinscrição de corpos, saberes e territórios. Nesse movimento, Portais, Passadiços e Pomanders revela a potência da arte brasileira como meio propositivo para a coexistência entre humanos, plantas e máquinas.

Em síntese, Prado e o Grupo Poéticas Digitais fazem da tecnologia um meio de valorização dos saberes e das experiências coletivas. Suas obras delineiam ecologias alternativas que desafiam a lógica binária da modernidade e se afirmam como territórios de experimentação capazes de tensionar os legados coloniais. Ao revelar que os dispositivos de poder que moldaram a modernidade podem ser desestabilizados por novas práticas artísticas, a mostra convoca o público a imaginar outros caminhos, outras invenções, “outros paranauês”.

Portais, Passadiços e Pomanders: Gilbertto Prado e Poéticas digitais
Curadoria: Ana Magalhães e Priscila Arantes
MAC USP (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo)
São Paulo: 13 Setembro de 2025 a 25 Janeiro de 2026

Alecsandra Matias de Oliveira é doutora em Artes Visuais pela ECA-USP e possui pós-doutorado na mesma área pela UNESP. Mestre pela ECA-USP e bacharel e licenciada em História pela FFLCH-USP, atua como crítica de arte e curadora independente. Atualmente, é professora na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e no CELACC (ECA-USP). Pesquisadora do Centro Mario Schenberg de Documentação e Pesquisa em Artes. É membro da Associação Internacional de Crítica de Arte (AICA) e colabora com diversas publicações, como o Jornal da USP e a Revista Das Artes. Além disso, é editora de Arte/História na Revista Arte & Crítica e autora dos livros Schenberg: Crítica e Criação (EDUSP, 2011) e Memória da Resistência (MCSP, 2022)
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