Fábula narrativa de Rodrigo Borges ocupa a Galeria do Lago do Museu da República

Em O Jardim da Memória, Rodrigo Borges ocupa a Galeria do Lago, no Museu da República, com uma narrativa visual sobre memória, esquecimento e passagem do tempo

POR DOMI VALANSI

Uma criança caminha por um jardim em busca de uma lembrança que já não sabe exatamente qual é. À medida que avança, os elementos ao seu redor se transformam: flores dão lugar a cogumelos, o jardim se torna mais psicodélico e a paisagem começa a mergulhar em um universo cada vez mais próximo do subconsciente. Ao final do percurso, ela encontra seu duplo, um doppelganger que a ajuda a chegar a lugares que, sozinha, não conseguiria alcançar. No final desta narrativa está uma caixa. O que existe dentro dela, porém, pouco importa. O que move a personagem é justamente o desejo de encontrar alguma coisa.

É a partir dessa imagem que o artista visual e ilustrador Rodrigo Borges constrói a exposição O Jardim da Memória, em cartaz até 6 de setembro, na Galeria do Lago, no Museu da República. O projeto nasceu de um encontro com a curadora Isabel Portella, responsável pela galeria, apresentada ao artista pelo professor Amador Pérez. Depois de uma primeira conversa, em que levou seu caderno de desenhos, o convite para uma exposição surgiu quase imediatamente, a partir da ideia de uma mostra que estabelecesse alguma relação com o museu e seus espaços. Para Rodrigo, que já vinha investigando a passagem do tempo, a sugestão abriu caminho para uma nova pesquisa: a memória.

© Rodrigo Borges. Foto: Divulgação.

A própria arquitetura do histórico Museu da República contribuiu para a concepção da obra. Diferentemente da leitura ocidental, o percurso no espaço conduz o visitante em sentido contrário, fazendo com que a narrativa seja lida em direção ao passado. Afinal, a memória olha para trás. A personagem começa sua trajetória no presente e, conforme avança, mergulha em lembranças cada vez mais fragmentadas.

“Quanto mais ela chega para trás, mais as coisas que ela se lembra deixam de existir”, explica o artista. Essa perda aparece também na transformação das escalas, dos objetos e das próprias imagens. A lembrança deixa de ser um registro preciso e passa a ser uma construção feita de resquícios, repetições e lacunas. Em determinado momento, a menina já não consegue saber exatamente como viu uma pessoa pela primeira vez; resta a ela a sobreposição de todas as vezes em que aquela imagem retornou.

© Rodrigo Borges. Foto: Divulgação.

O jardim do Museu da República também passa a funcionar como uma espécie de personagem. A memória está ali, mas o próprio jardim é uma memória de si mesmo: plantas nascem, crescem e morrem, enquanto o solo guarda vestígios de tudo o que já aconteceu. A obra incorpora elementos encontrados no museu e em seus arredores, transformando detalhes da arquitetura e dos objetos em partes da narrativa. Uma cadeira localizada no terceiro andar do palácio, um portão, uma grade e outros elementos são deslocados para dentro do desenho.

A cadeira, em particular, carrega uma dimensão simbólica importante. Antes de ser objeto, ela era árvore; ao aparecer no trabalho, estabelece uma espécie de ciclo entre matéria, vida e transformação. Essa passagem entre vida e morte atravessa toda a obra. Os fungos, que surgem progressivamente no percurso, são parte dessa ideia: responsáveis pela decomposição, mas também pela transformação e pela continuidade da vida, eles aparecem como um elo entre aquilo que morre e aquilo que nasce.

Essa relação se torna ainda mais evidente na imagem do micélio, que aparece atrás da caixa, no final deste trajeto. Mas a ordem não é estática. Dependendo do sentido em que a obra é lida, o percurso pode ser entendido como uma transformação da morte em vida ou como uma caminhada em direção ao desaparecimento. A ambiguidade é proposital. Não há uma única leitura possível, e as interpretações dos visitantes acabam incorporando novas camadas ao trabalho. Alguns, inclusive, relacionam imediatamente ao tema do Alzheimer, o que não foi pensado originalmente.

A fragilidade da memória aparece também nos pequenos tsurus (tradicional origami japonês em formato de grou, uma ave sagrada que simboliza longevidade, paz e boa sorte, de papel). A imagem remete àquilo que pode desaparecer com facilidade, como uma lembrança prestes a se desfazer. Na narrativa da personagem, já não importa o que aconteceu, mas aquilo que a memória construiu a partir do acontecimento.

© Rodrigo Borges. Foto: Divulgação.

A obra é atravessada por duas narrativas simultâneas. De um lado, há a personagem infantil, seu percurso e a linguagem visual associada à infância, à descoberta e à imaginação. De outro, os textos escritos pelo próprio artista introduzem uma camada mais realista e menos ingênua. “Eu queria que fossem duas narrativas paralelas”, explica. O texto não funciona simplesmente como legenda para as imagens, mas como contraponto a elas.

Essa diferença de registros também aparece na escolha cromática. Apesar de tratar de assuntos como morte, esquecimento e desaparecimento, o artista optou por uma paleta leve, com poucas cores e uma atmosfera próxima dos quadrinhos europeus. O desenho deveria permanecer em primeiro plano, sem que a gravidade do tema tornasse a experiência visual excessivamente pesada.

O texto, por sua vez, funciona como uma espécie de contraponto. Enquanto a personagem tenta lembrar e refazer seu caminho pelo passado, a escrita introduz uma reflexão sobre a própria condição humana. O artista gosta de trabalhar com tipografia e decidiu espalhar os textos pelo painel, permitindo que cada visitante estabeleça uma relação diferente entre palavra e imagem. Há quem se emocione com a escrita e quase não observe o desenho; outros fazem o caminho inverso.

© Rodrigo Borges. Foto: Divulgação.

No centro dessa reflexão está a ideia das duas mortes. A primeira é a morte física, aquela que encerra a existência do corpo. A segunda acontece mais lentamente: é o apagamento da memória de alguém, quando seu nome deixa de ser pronunciado e sua existência deixa de ocupar o imaginário das gerações seguintes.

“Até a última pessoa falar o seu nome, até quando você vai viver?”, pergunta o artista. A questão se torna particularmente delicada quando pensamos na passagem das gerações. Filhos e netos ainda podem guardar lembranças vivas para bisnetos e gerações posteriores, porém, a presença tende a se tornar cada vez mais distante. A tentativa de permanecer na memória seria, portanto, uma espécie de jogo contra a morte — um jogo impossível de vencer, porque, no fim, o silêncio sempre acaba chegando.

© Rodrigo Borges. Foto: Divulgação.

A própria escolha do painel está relacionada a essa ideia de permanência. Quando a curadora sugeriu que o artista transformasse a parede em um grande desenho, a proposta imediatamente o levou de volta a uma lembrança de cerca de duas décadas antes: sua visita à Secessão de Viena e o impacto causado pelo Friso de Beethoven, de Gustav Klimt. O mural, concebido originalmente para uma exposição temporária, permaneceu. A experiência ficou guardada na memória do artista até que, anos depois, a possibilidade de realizar seu próprio painel apareceu.

A ideia inicial era pintar diretamente na parede. O projeto, no entanto, ganhou outra forma durante o processo. Uma amiga levantou uma questão simples: o que aconteceria com a obra depois da exposição? A solução foi transformar o painel em uma estrutura de placas de madeira, que poderia ser desmontada e remontada. A mudança também tornou possível realizar o trabalho em casa, ao longo de cerca de dois meses de produção contínua.

O resultado é inteiramente feito à mão. O processo começa nos cadernos, com desenhos rápidos e rabiscos destinados a testar composição e espaço. Aos poucos, as cenas ganham definição. Os estudos são então levados ao computador para a montagem do conjunto, permitindo que o artista visualize a exposição antes de transferir o desenho para as placas.

© Rodrigo Borges. Foto: Divulgação.

A passagem do caderno para o painel também é parte da obra. Estudos que não chegaram à versão final permanecem expostos, revelando caminhos abandonados, possibilidades e decisões tomadas durante o processo. A intenção é que o visitante possa perceber como uma imagem se transforma até chegar à sua forma definitiva.

Embora seu trabalho costume utilizar lápis e folha de ouro, a dimensão do painel exigiu uma mudança de técnica. Além do lápis, o artista utilizou pincéis, tinta e marcadores. O sombreado continua sendo feito à mão, assim como os pequenos detalhes que só se revelam quando o espectador se aproxima da superfície. Penas, texturas, padrões e objetos são construídos individualmente, mantendo no grande painel a intimidade do desenho.

Ao final, a busca da personagem permanece sem uma resposta definitiva. A caixa pode estar vazia. Talvez nunca tenha havido nada dentro dela. Mas isso não significa que a procura seja inútil. O que importa é justamente o desejo de encontrar, reconstruir e lembrar.

Domi Valansi é jornalista com foco em artes visuais e museus com pós-graduação em Fotografia com instrumento de pesquisa das ciências sociais
As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da revista Dasartes, sua equipe e conselho editorial.
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