Exposições em São Paulo para descolonizar a cultura visual

Waleff Dias na coletiva Dos Brasis, no Sesc Belenzinho

POR LUCAS SIMPLI

Educação do Olhar e Sensibilidade Estética: Exposições em São Paulo para descolonizara cultura visual.

A educação do olhar e a sensibilidade estética, em um sentido amplo, são aprendidas em casa, nas ruas e nas mídias. Sem dúvida, ter acesso à formação artística crítica na educação básica, infelizmente, é um privilégio para poucos. Há outro grupo de pessoas que teve contato com a arte na infância, entretanto as referências também são insuficientes para entender reverberações do Brasil contemporâneo.

Não é culpa dos professores nem tampouco da escola o pensamento colonizado, de onde vem parte das nossas referências visuais. Todo professor de escola, principalmente da pública, sabe o quanto é árduo ensinar em uma sala de aula abarrotada de alunos e todas as desigualdades que rondam este ambiente. Para além da escola, as mídias talvez façam um papel ainda mais predador na formação da nossa cultura visual. Sem nenhuma reflexão crítica, grande parte da visualidade é absorvida nas diversas mídias do cotidiano, como nas redes sociais, nas novelas, nos filmes, nas séries, nos quadrinhos, entre outros. Muitas vezes, nossos modelos sociais e referências visuais são colonizadas.

Para além de uma educação crítica sobre a cultura visual, é necessário pensar as produções contemporâneas, antes, pouco trabalhadas na escola e nas mídias de forma geral. As galerias, centros culturais e museus são espaços que vêm buscando descolonizar o olhar, antes, lugares com referências hegemônicas: branca, europeia e patriarcal. Sabemos que não são suficientes, mas as exposições recentes em São Paulo buscam preencher essa lacuna, descolonizando o olhar e refletindo sobre as produções da arte contemporânea.

Antonio Obá: Revoada

A exposição individual Revoada de Antonio Oba, com curadoria de Ana Maria Maia e Yuri Quevedo, propõe uma reflexão crítica diante uma instalação central e cerca de vinte obras espalhadas pelas paredes da Pina Contemporânea. As crianças negras tornam-se protagonistas no ambiente do cubo branco, onde observamos pouca representatividade no universo das artes visuais. Apesar dos quadros estarem apresentando o protagonismo negro, há tensões entre as pinturas retratadas. Independendemente de toda representatividade das crianças, Oba nos lembra de que para toda liberdade há um histórico de luta e resistência. Uma grande contribuição da exposição é o Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca, que pensa em conectar o público com as questões poéticas e filosóficas do artista. O educativo propõe algumas perguntas que funcionam como norteadores, como: Quais as relações entre arte, infância e educação? Outra grande contribuição da equipe de montagem é a utilização de QR Code nas placas de identificação das obras de arte, para o visitante conseguir acessar vídeos explicativos sobre as obras presentes dentro da grande galeria. A voz e a imagem do artista conectam o público e ancora as questões
contemporâneas dentro da exposição que podem passar despercebidas.

Preposição do o Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca e público visitante, setembro de 2023.

Veja AQUI a agenda da exposição.

Dos Brasis: arte e pensamento negro

Dos Brasis é uma exposição coletiva com curadoria de Igor Simões, Lorraine Mendes e Marcelo Campos. Com mais de 500 anos de história “oficial”, essa é a maior exposição de artistas negros do país, com 240 artistas e centenas de obras das mais diversas partes do Brasil.

A exposição é dividida em sete grandes núcleos que servem como mecanismo didático e reflexivo para entender o Brasil, trabalhando assim as questões políticas, geográfica, filosóficas entre outros.

Cabe mencionar que uma boa parte dos textos curatoriais nas exposições de arte contemporânea, muitas vezes, são enfadonhos e herméticos. Porém, uma das maiores características da exposição, para além de sua contribuição histórica, é pensar como os textos curatoriais são extremamente didáticos para o público. Vale ressaltar que entramos em contato com três curadores negros, que atuam também como professores nas diversas instâncias do ensino público universitário e também na formação do ensino fundamental. Entender a formação dos curadores é essencial porque a exposição é palatável e, assim como um bom professor, quer orientar o público da maneira mais didática e prazível possível, apesar do conteúdo ser extremamente denso e urgente.  A expografia está impecável e conectada com toda a proposta da exposição. Destaco as “sankofas vermelhas” entre os painéis. Além do imaginário sentimental do subúrbio, a expografia repensa nosso passado sagrado.

As sankofas da exposição conectam o passado e o presente ancestral.

As preposições artísticas estão espalhadas em todos os espaços do SESC Belenzinho, na escadaria principal, no teto de vidro da piscina e até mesmo nos corredores dos banheiros. O público é convidado a conviver com as obras de arte, integradas à arquitetura do espaço que é um espetáculo à parte. Essas obras mexem não só com o imaginário, com o racismo institucional, mas também com a vivência do saber do sagrado ancestral. A exposição não se encerra apenas no SESC Belenzinho. Ela será itinerante e circulará todo o território nacional a partir de 2024. “Dos Brasis” é uma exposição necessária e será referenciada nas universidades, servindo de exemplo de políticas públicas voltadas para o ensino de artes por todo o país.

Veja AQUI a agenda da exposição.

35ª Bienal de São Paulo – coreografias do impossível

Há sempre muitas expectativas quando são divulgadas as primeiras informações sobre as Bienais de São Paulo. A equipe curatorial é uma das principais divulgações porque será ela que norteará toda a proposta política e filosófica da exposição. Todas essas perspectivas e ansiedades não ocorrem por acaso. O país detém o título da segunda Bienal de Arte mais antiga do mundo, perdendo apenas para a Bienal de Veneza. Este ano, a equipe curatorial chamou bastante atenção pela equipe diversa: Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel.

Público ativando a obra da artista de Gana, Ibrahim Mahama, setembro de 2023.

Para o público, as Bienais de São Paulo tornaram-se uma grande galeria de arte e das experimentações. São 121 participantes com aproximadamente 1.100 obras de arte das mais diversas linguagens contemporâneas. Assim como a diversidade da arte contemporânea, há obras que conectam ou não com o público visitante, porém é sempre importante pensar as coreografias do impossível que precisamos fazer para enfrentar as adversidades. Normalmente as cantinas e restaurantes dos espaços expositivos são extremamente elitizadas, entretanto, a Bienal de São Paulo propôs uma cozinha política do Ocupação 9 de julho do MTST, situada em todo o entorno da bienal, com seus cafezinhos e restaurante no mezanino do pavilhão.  Todos os espaços são preenchidos com bandeiras de ordem e a roupagem vermelha, símbolo das lutas operárias. Todos os dias a cozinha propõe comidas diversificadas para o público.

Ocupação 9 de julho do MTST, setembro de 2023.

B.B. KING: um mundo melhor em algum lugar

De práxis, as exposições no Museu da Imagem e do Som de São Paulo são caracterizadas pelas imersões e pelas pesquisas aprofundadas da equipe curatorial. Normalmente, são exposições que demandam muito tempo para organização, devido às características específicas da instituição, as exposições principais, duram uma grande temporada. Com curadoria de André Sturm e Cacau Ras, buscaram-se todas as questões históricas para construir a história da vida de B.B King, uns dois maiores cantores de Jazz dos Estados Unidos. A exposição começa com duas portas, e o público é convidado a escolher por qual entrar. A expografia busca mostrar a política de segregação racial presente nos Estados Unidos da América. Não é uma exposição fácil de digerir.

As primeiras salas mostram fotos dos crimes racistas pelas Leis Jim Crow que foram presentes no país entre 1877 até 1964, há de imagens de grupos extremistas brancos e do Green Book, Livro dedicado a pessoas negras, servindo como uma espécie de guia para viajar com segurança e longe das políticas segregacionistas.  A exposição imersiva de B.B. King demonstra as atrocidades das políticas racistas nos Estados Unidos e nos sensibiliza sobre o racismo que circunda a sociedade contemporânea.

As instalações imersivas do Museu de Imagem e Som, setembro de 2003.

Veja AQUI a agenda da exposição.

Todas as exposições de Arte Contemporânea dessa matéria foram pensadas para os mais diversos públicos e as mais diversas linguagens. Questionar os imaginários estabelecidos pela História da Arte e também treinar nosso olhar colonizado diante do consumo das imagens. Para refletir e aprender com as práticas artísticas, as exposições são sempre muito bem vindas, pois nos fazem repensar as imagens que consumimos sem crítica e, assim, julgarmos nosso cotidiano e descolonizarmos a cultura visual.

Lucas Simpli é Professor de Artes Visuais e Historiador da Arte, ambas as formações pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio do janeiro. Especialista em Ensino Contemporâneo de Arte pela Faculdade de Educação e pelo Colégio de Aplicação da UFRJ (2020). Mestre em Design (2023), pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

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