POR DOMI VALANSI
Depois de uma trajetória na escultura, trabalhando inicialmente com resina e depois com cerâmica, há cerca de 12 anos, Tiago decidiu retomar a pintura, que havia sido sua formação, motivado também pela percepção de que havia possibilidades que a escultura não permitia explorar. “Acho que a pintura é como uma ilusão: de espaço, de perspectiva, de tudo”, explica. Entre essas possibilidades estava justamente a criação de paisagens e de mundos.
A mudança também coincidiu com uma relação cada vez mais profunda com o Rio de Janeiro. O artista chegou à cidade em 2000 para uma residência no Capacete (de Helmut Batista), depois de ter vivido cerca de dez anos fora do Brasil e concluído o mestrado na Goldsmiths, em Londres. É desse Rio vivido que surgem as paisagens da exposição. Praia, cachoeira, vegetação e montanhas convivem com uma atmosfera menos idílica. A violência urbana aparece como uma espécie de pano de fundo constante, não por meio da representação literal de acontecimentos específicos, mas como uma tensão que permanece latente nas imagens. O artista fala de experiências pessoais de violência testemunhadas na cidade e da ambiguidade provocada pela presença da polícia, que pode representar simultaneamente proteção e desproteção.

Crédito: Tiago Carneiro da Cunha
Essa dualidade é central para compreender o desdobramento da exposição. De um lado, existe o imaginário tradicional do Rio, associado à paisagem tropical, à praia, à luz e à celebração dos corpos. De outro, há uma realidade atravessada pela violência urbana. O artista procura justamente manter essas duas dimensões em contato. “Eu quero que esteja latente essa mesma sensação que a gente tem de estar numa cidade, num país que mistura tanta beleza com tanta violência”, afirma.
A ideia de uma brasilidade também atravessa esse processo. Ao pensar a identidade nacional para a série, o artista encontrou em Nelson Rodrigues uma referência importante para uma visão menos idealizada do país. Se parte da tradição artística brasileira celebra uma identidade tropical, colorida e ligada à antropofagia e ao tropicalismo, há também, segundo ele, um aspecto da cultura brasileira profundamente marcado pela violência. É essa contradição que interessa à exposição. Não como tema ilustrativo, mas como uma presença nas pinturas.

Crédito: Tiago Carneiro da Cunha
É nesse contexto que surge a figura da Pietá, deslocada para um ambiente tropical. A primeira pintura nasceu de uma reinterpretação de O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues. Só depois o artista percebeu a aproximação com a iconografia da Pietá. Em outra obra, a figura tradicional da Madonna é substituída por uma árvore, reforçando o caráter ambíguo e quase animista das paisagens. Árvores, sol e outros elementos naturais ganham características antropomórficas e parecem esconder pequenos personagens ou criaturas.
A natureza, portanto, está longe de funcionar como simples pano de fundo. Em algumas pinturas, ela parece mais movimentada do que os próprios personagens. Enquanto o corpo permanece estático, a paisagem se torna frenética, como se tivesse vida própria. “O corpo no chão também é uma espécie de paisagem, no Rio de Janeiro”, observa o artista. Em uma das telas, intitulada Fundo figura, essa inversão é levada ao extremo: o fundo assume o protagonismo e o corpo se transforma quase em uma moldura para a paisagem.
Esse modo de construir as pinturas está diretamente ligado ao processo de trabalho. Em vez de reproduzir fielmente fotografias ou cenas observadas, o artista parte muitas vezes da memória. Mesmo quando realiza desenhos de observação, eles funcionam apenas como referências posteriormente incorporadas à pintura. A composição vai se resolvendo na própria superfície, por meio de sucessivas camadas de tinta, em um processo no qual matéria, cor e contraste acabam determinando o resultado.

Crédito: Tiago Carneiro da Cunha
A luz é outro elemento fundamental. Algumas cenas parecem receber um foco teatral, como se fossem iluminadas por um spotlight. A referência à cenografia e às cenas operísticas se mistura, assim, a uma espécie de raio místico. O processo é deliberadamente aberto à improvisação e às associações livres, permitindo que diferentes desejos e referências apareçam simultaneamente na tela.
Embora algumas paisagens sejam reconhecíveis, o artista não pretende construir uma representação documental do Rio. Uma das exceções é a vista do Morro Dois Irmãos, concebida para ser identificável, ainda que submetida à simplificação e à abstração. O interesse está menos em reproduzir a paisagem do que em encontrar uma maneira de transformá-la em gesto, linha e composição. “A pintura é muito preocupada com o gesto, com uma caligrafia”, explica.
A opção por manter todas as pinturas no mesmo tamanho e formato reforça essa ideia de investigação. As obras funcionam como variações sobre um tema: repetem e transformam possibilidades formais semelhantes, como os raios de luz, a figura posicionada em primeiro plano e o fundo ativo, que disputa espaço com o personagem. Tematicamente, a recorrência está sobretudo nos corpos reclinados, outro motivo clássico da história da arte.

Crédito: Tiago Carneiro da Cunha
Os corpos também são atravessados por uma dimensão sensual. Diferentes das formas mais arredondadas associadas ao imaginário do corpo carioca, as figuras da exposição têm algo de escultórico, quase como esculturas de madeira. Curvas e volumes são explorados tanto nos corpos quanto nas árvores.
O título Férias para Sempre sintetiza muitas dessas contradições. A expressão nasce, primeiro, de uma reflexão sobre o próprio fazer artístico: a pintura exige um estado de espírito próximo ao das férias, um momento de relaxamento, liberdade e abertura para que algo inesperado aconteça. O trabalho, paradoxalmente, depende de um estado que não corresponde à ideia tradicional de produtividade.
Mas há também uma dimensão mais melancólica no título. Férias só existem em oposição ao trabalho; se forem permanentes, deixam de ser férias. E “férias para sempre” pode sugerir também um fim definitivo, uma espécie de morte: estar livre dos problemas do mundo porque já não se está mais nele. A leveza da expressão, portanto, carrega consigo uma camada de contrassenso e de inquietação.
Entre paisagens tropicais e corpos reclinados, referências clássicas e experiências urbanas, luz dramática e violência latente, Férias para Sempre constrói um Rio que não é exatamente aquele das imagens turísticas, nem tampouco uma representação direta da cidade. É um território inventado a partir da memória, da experiência e da imaginação. Um lugar onde até o paraíso pode carregar a sombra de seu próprio fim.
Nesta quinta-feira, 27 de agosto, às 19h, acontece uma conversa entre Tiago Carneiro da Cunha e Gabriel Secchin na exposição, com mediação de Fernanda Lopes. A mostra segue em cartaz até o dia 29 de agosto. A Carpintaria fica na Rua Jardim Botânico 971 – Rio de Janeiro.


