Dupla cura, de Dalton Paula

Na prática artística de Dalton Paula, os duplos constituem um dos eixos mais consistentes. Eles não se apresentam como repetição formal, mas como procedimento crítico capaz de tensionar arquivos, reinscrever agentes e produzir fricções entre tempos históricos

POR ALECSANDRA MATIAS DE OLIVEIRA

A cura pode acontecer quando escolhemos o amor.
bell hooks

A exposição Dupla cura, de Dalton Paula, com curadoria de Beatriz Lemos e instalada na Galeria Mata (Inhotim), reúne mais de 100 obras — pinturas, esculturas, fotografias e videoinstalações — que articulam educação, a prática do cuidado e saberes ancestrais. Para além de ser uma panorâmica, com obras do início de seu percurso até sua produção mais recente, a exposição confirma a centralidade do artista no debate sobre memória, representação e poder no campo das artes visuais.

O título sintetiza o conceito da exposição, que opera em duas frentes complementares: a cura do corpo, convocando práticas de cuidado, e a cura da história, entendida como reinscrição de indivíduos e trajetórias excluídas dos arquivos hegemônicos. Ervas, recipientes, gestos rituais, livros e objetos cotidianos surgem como dispositivos de resistência, afirmando que a saúde negra sempre se constituiu à margem das instituições oficiais — e, ainda assim, persistiu.

Dalton Paula. Foto: Marcela Christo.

A inauguração da mostra, integrada às celebrações dos 20 anos do Instituto Inhotim, reforçou esse caráter comunitário e processual. A participação do Coral do Sertão Negro e de estudantes da Escola de Música de Inhotim não funcionou como adorno, mas como parte constitutiva de uma reflexão sobre educação e coletividade. Acompanhá-los em cortejo pelas ruas do Instituto foi bonito! Mostrou, em especial, como Dupla cura desloca o museu de seu lugar de autoridade para transformá-lo em espaço de encontro, escuta e partilha — movimento que dialoga com discussões contemporâneas sobre o papel das instituições na produção e circulação de conhecimento, compromisso que Inhotim vem renovando a cada mobilização.

Na prática artística de Dalton Paula, os duplos constituem um dos eixos mais consistentes. Eles não se apresentam como repetição formal, mas como procedimento crítico capaz de tensionar arquivos, reinscrever agentes e produzir fricções entre tempos históricos. Ao invés de duplicar o que já existe, Paula cria duplos para aquilo que foi negado, operando uma reparação que torna visível a violência do apagamento e, simultaneamente, a potência da imaginação. Seus retratos ficcionais, como os de Tereza de Jesus de Souza, 2002, ou de Dom Diogo, 2002 — construídos a partir de documentos fragmentados, relatos orais, pesquisas de campo e referências contemporâneas — funcionam como duplos possíveis de figuras negras que não tiveram suas imagens registradas ou preservadas. Eles não pretendem substituir uma iconografia perdida, mas expor o fato de que ela nunca foi produzida, revelando a assimetria de poder que estruturou os arquivos brasileiros. O duplo, assim, emerge como gesto político: não corrige o passado, porém, o confronta.

Dalton Paula. Foto: Icaro Moreno.

A estética da fotopintura, recorrente em seu vocábulo, intensifica esse procedimento ao criar imagens que parecem antigas, embora sejam atuais. Essa operação produz um duplo temporal que embaralha passado e presente, instaurando um anacronismo deliberado que denuncia a ausência de registros e, ao mesmo tempo, propõe uma reescrita visual. O duplo, nesse caso, não é imagem duplicada, mas imagem deslocada que insiste em existir onde antes havia silêncio. Em séries dedicadas a curandeiros, parteiras, líderes comunitários e outras figuras negras, Paula cria variações que demonstram a densidade simbólica desses sujeitos. A repetição não é redundante: funciona como insistência — é preciso aparecer mais de uma vez para compensar séculos de invisibilização.

A manifestação dos duplos ganha uma camada ainda mais densa quando aproximada às figuras de Cosme e Damião no catolicismo popular brasileiro e aos Ibejis nas tradições iorubanas. Na cosmologia iorubana, os Ibejis representam a força da dualidade, da complementaridade e da continuidade da vida. No Brasil, esse princípio se reconfigura na devoção a São Cosme e São Damião, associados à proteção das crianças, à vitalidade e à regeneração — elementos que dialogam com as obras de Paula. Suas obras funcionam, assim, como “Ibejis visuais”: imagens que retornam para ocupar um espaço que lhes foi negado, instaurando uma presença sempre dupla — memória e invenção, passado e futuro, ausência e restituição.

Em Dupla cura, a curadoria ressalta essa lógica e a torna ainda mais pungente. A cura do corpo e a da história não são processos apartados. São vetores que se alimentam mutuamente. Assim como os gêmeos sagrados atuam em conjunto, as duas dimensões em Paula operam em reciprocidade. A duplicidade é, aqui, princípio de equilíbrio e recomposição.

Dalton Paula. Foto: Icaro Moreno.

Outro eixo da exposição é a infância. Nesse contexto, ela não é apenas fase da vida, mas território de trânsito de saberes, continuidade ancestral e possibilidade do porvir – como esquecer o diálogo dos dois meninos, no vídeo Otá Layò, 2026, sobre o rio ter vida ou não! Ou, ainda, a Fanfarra, 2026, a tela de grandes dimensões que recepciona o público na entrada da mostra. Na obra de Dalton Paula, essa meninice que descobre o mundo não surge como tema ilustrativo, mas como campo simbólico no qual se articulam memória, processo de troca e fabulação.

Mais do que representar crianças de modo literal, o artista convoca o “tempo do aprender” como plano estrutural de sua pesquisa, onde se revelam os efeitos das estratégias de sobrevivência das comunidades negras. Muitas de suas obras partem de relatos e práticas transmitidas oralmente por figuras que exerceram papéis fundantes na vida comunitária — parteiras, curandeiros, líderes religiosos, educadores informais. Essas figuras surgem como guardiãs do coletivo e, sobretudo, de um modo de existir.

A infância é também o ponto em que se manifesta a invisibilização histórica: a ausência de imagens de crianças negras nos arquivos oficiais — ou sua representação apenas em posições subalternizadas — revela a estrutura racial que organizou a produção visual brasileira. Quando Paula cria retratos ficcionais de figuras negras apagadas, ele não apenas restitui imagens de adultos; restitui, de forma indireta, o tempo de criança dessas pessoas e que nunca foi registrado. Cada retrato é, portanto, um duplo gesto: reinscreve uma presença e denuncia a vivência negada.

No repertório de artistas modernos, como por exemplo, Cândido Portinari, as crianças e suas brincadeiras funcionam como emblema nacional; condensam a vida rural, a precariedade social e uma pureza que opera como metáfora da nação em formação. Já em Dalton Paula, a infância é o lugar onde se inscreve a ancestralidade negra; ele enfatiza que essa representação foi construída sobre exclusões e silenciamentos. Em Portinari, a criança é o país em miniatura; em Paula, ela é o arquivo ferido que precisa ser reparado.

Dalton Paula

A força da exposição Dupla cura está na articulação entre estética e política, sem hierarquizá-las. Paula não se limita a denunciar supressões: ele constrói condições para que outras narrativas possam emergir. Cada objeto, cada cor, cada gesto aponta para uma ancestralidade que não é evocada como metáfora, mas como vida. A mostra explicita que a cura, aqui, não é gesto individual, mas processo histórico e coletivo, que envolve revisitar arquivos, reavaliar trajetórias e reconhecer a pluralidade de experiências que compõem a história brasileira. A frase de bell hooks — “A cura pode acontecer quando escolhemos o amor” — oferece uma chave de leitura para compreender essa lógica.

Em Dupla cura, o amor não aparece como afeto individualizado, mas como exercício político capaz de sustentar práticas de cuidado, reinscrição e continuidade. Ao convocar saberes marginalizados, restituir existências apagadas e criar espaços de encontro e partilha, Dalton Paula materializa essa escolha amorosa: amar, aqui, é insistir na vida, recusar a obliteração e produzir imagens que devolvem dignidade ao que foi silenciado. A cura proposta pela exposição se realiza como gesto ético e coletivo — uma forma de amor que se traduz em memória, resistência e criação de novos mundos. Dupla cura torna-se, assim, território de reinvenção: um espaço onde o passado se reescreve e o futuro se imagina a partir de outras formas de existir, cuidar e lembrar.

Dalton Paula. Foto: Icaro Moreno.

Dalton Paula. Foto: Icaro Moreno.

Dupla cura, de Dalton Paula, com curadoria de Beatriz Lemos e instalada na Galeria Mata, está em cartaz desde 25 abril, no Instituto Inhotim, em Brumadinho-MG.

Alecsandra Matias de Oliveira é doutora em Artes Visuais pela ECA-USP e possui pós-doutorado na mesma área pela UNESP. Mestre pela ECA-USP e bacharel e licenciada em História pela FFLCH-USP, atua como crítica de arte e curadora independente. Atualmente, é professora na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e no CELACC (ECA-USP). Pesquisadora do Centro Mario Schenberg de Documentação e Pesquisa em Artes. É membro da Associação Internacional de Crítica de Arte (AICA) e colabora com diversas publicações, como o Jornal da USP e a Revista Das Artes. Além disso, é editora de Arte/História na Revista Arte & Crítica e autora dos livros Schenberg: Crítica e Criação (EDUSP, 2011) e Memória da Resistência (MCSP, 2022)
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