Fotografia de Marco Alves, na exposição "Derradeiro – São Roque de Minas I Serra da Canastra".

Derradeiro – São Roque de Minas I Serra da Canastra

POR Fabrício Reiner “O senhor… Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.”  João Guimarães Rosa – Grande sertão: veredas.  Em […]

POR Fabrício Reiner

“O senhor… Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.” 

João Guimarães Rosa – Grande sertão: veredas. 

Em Grande sertão: veredas, dois grandes entes estabelecem uma relação dialética e interdependente, se por um lado a memória precisa do tempo para se construir, o tempo necessita da memória para se perpetuar.  E é na interação de ambos com o indivíduo que eles se desenvolvem, permitindo tanto a conservação de identidades quanto a edificação dos saberes. Essa dinâmica, explorada por meio das recordações, estabelece que a conexão entre tempo e memória é fundamental para o desenvolvimento de narrativas, em que a jornada ao passado representa uma tentativa de compreensão do ser por meio das experiências vividas.

No romance, Guimarães Rosa narra a trajetória de um jagunço aposentado que revisita sua vida por meio de um monólogo retrospectivo, estruturado como um diálogo com um ouvinte que permanece invisível aos leitores durante toda a obra. O narrador-protagonista, Riobaldo, empreende uma jornada de introspecção, buscando desvendar a lógica das experiências vividas e dos sentimentos que o moldaram. Seu retorno ao passado atua como uma tentativa de reconstruir e compreender sua trajetória, encontrar significado para sua existência e alcançar sabedoria – um processo que se realiza por meio da memória. Essa busca de Riobaldo vai além da simples rememoração; ela representa um esforço profundo de transformação e entendimento a partir das experiências recordadas.

Fotografia de Marco Alves, na exposição “Derradeiro – São Roque de Minas I Serra da Canastra”.

De certo modo, essa mesma busca pessoal de Riobaldo por um passado que o constituiu pode ser experimentada pelas lentes de Marco Alves, em seu último ensaio, Derradeiro. Em que persegue um significado de existência remanescente nos fotografados de São Roque de Minas, localizada na Serra da Canastra, interior de Minas Gerais. Nesse trabalho, o fotógrafo transcende os limites da fotografia documental e nos oferece uma profunda reflexão sobre o tempo e sobre a memória, na qual a câmera atua como instrumento de aproximação de um universo que tende a desaparecer. Por meio de uma poética visual que explora tanto a transitoriedade quanto as raízes e identidades individuais e coletivas, Derradeiro encapsula a dramaticidade e a certeza do desaparecimento, reforçando o protagonismo da memória, única capaz de se contrapor ao tempo da existência.

Nessas imagens, percebe-se que Marco Alves não se posiciona como um observador externo e distante; ao contrário, sua convivência prolongada com os habitantes locais permitiu que ele se tornasse ‘da casa’, absorvendo a essência da vida cotidiana e transformando-a em ‘imagens dialogadas’. Nesse diálogo, a voz do fotógrafo propende intencionalmente arrefecer, porque sabe que a voz erudita de professor universitário tende a se sobrepor diante da sabedoria do sertão. É como se Marco, utilizando-se analogamente do método do escritor de Cordisburgo, valesse-se de uma linguagem simplificada que emulasse a oralidade.

Na fotografia de Alves, a luz, a sombra, as texturas e os fragmentos do cotidiano configuram elementos essenciais para criar uma visualidade em que os personagens da Canastra são instados a evocar o ritmo do sertanejo, construindo imagens que se desenvolvem para além do visível, materializando-se na extensão do imaginário do observador.

Fotografia de Marco Alves, na exposição “Derradeiro – São Roque de Minas I Serra da Canastra”.

A exposição, em cartaz até 30 de maio na Kobbi Gallery, com curadoria de Diógenes Moura, apresenta 40 fotografias impressas em papel algodão, e compartilha uma atenção especial do fotógrafo ao tempo da natureza e da vida simples em São Roque. Tirar o leite, cozinhar a farinha, picar o fumo, produzir o queijo, coser a toalha, talhar a banha, um porta-retrato, sentar-se ao sopé da porta e ‘prosear’, assistindo ao tempo passar, despercebido; são vislumbres de vidas que Marco nos oferece com a mesma generosidade que lhe foi, por aqueles habitantes, ofertada; em entrelace multifacetado que sedimenta a convivência entre presente e passado de maneira harmoniosa e introspectiva.

E é justamente na subjetividade que o ensaísta nos propõe uma experiência sensorial e emocional, onde a contemplação cria uma narrativa visual que transcende a superfície em busca da essência. Derradeiro marca uma fenda temporal que nos convida a refletir sobre o nosso lugar no mundo e a beleza que reside na simplicidade e na comunhão do ser humano consigo mesmo e desse com o ambiente que o circunscreve.

E para Marco Alves, retomando Guimarães Rosa, num diálogo possível, São Roque de Minas poderia ser o lugar em que a “complexidade junta-se a imprecisão dos limites, em horizontes fugidios segundo a ‘percepção’ dos habitantes. Enfim. Cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O Sertão está em toda parte”.

As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.


Derradeiro – São Roque de Minas
/ Serra da Canastra
Fotografias de Marco Alves
Curadoria de Diógenes Moura
Local: Kobbi Gallery
Travessa Alonso, 23 – Vila Madalena
Até 30 de maio


Fabrício Reiner é mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo, aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto a Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador e curador independente.

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