POR FABRÍCIO REINER
Algumas experiências produzem uma estranha suspensão da individualidade. Raros são os momentos em que o contorno entre corpo e mundo parece menos rígido do que normalmente supomos. Debaixo d’água, a orientação espacial muda, os sons chegam amortecidos, a gravidade parece afrouxar sua autoridade. Durante alguns instantes, a consciência deixa de se perceber como centro e passa a experimentar-se como meio. Os versos de Arnaldo Antunes capturam esse estado. Debaixo d’água, o sujeito encontra uma condição anterior às exigências do mundo. Ali não há obrigação, projeto ou identidade; apenas imersão. Uma experiência de continuidade. Acontece, no entanto, que a imersão absoluta é impossível. A respiração devolve o corpo à sua condição de inevitabilidade da separação. Voltam os limites da pele, o peso da identidade, a distância entre o sujeito e aquilo que o cerca. E viver talvez consista em jamais conseguir permanecer completamente na unidade que secretamente nos constitui.
A pintura de Mariana Rocha habita esse intervalo.

© Mariana Rocha.
Ao longo de sua trajetória, a pintora tomou as profundezas como objeto de uma investigação persistente. Não as profundezas geográficas do oceano, mas uma profundidade anterior à consolidação das formas e das identidades. Por isso, os organismos marinhos, as anatomias fluidas e as paisagens em transformação que povoam sua pintura não devem ser lidos apenas como natureza. O fundo do mar atua como figura ontológica: um espaço de indiferenciação primordial onde corpo, matéria, memória e paisagem ainda não adquiriram fronteiras definitivas. O que se constitui é a imaginação de um estado de continuidade do qual toda forma emerge e para o qual toda forma intende retornar.
Pois em Espaço profundo, a mais recente exposição da artista, na galeria A Gentil Carioca, em São Paulo, a presença de quasares, supernovas e formações interestelares sugere, à primeira vista, uma mudança de escala na pesquisa da artista. O horizonte das águas parece ceder lugar aos regimes da matéria cósmica. E essa leitura, embora compreensível, talvez obscureça o conjunto. O interesse de Mariana Rocha jamais esteve propriamente no mar. O mar ofereceu, desde o início, um modelo para pensar aquilo que permanece oculto sob o mundo das formas constituídas. Nessa exposição, a introdução do repertório astronômico torna evidente essa percepção.
Não por acaso, o oceano abissal e o espaço sideral ocupam um lugar singular na imaginação moderna. Ambos se situam para além da escala do corpo e dos limites da visão. Seus territórios não se oferecem à experiência imediata; chegam até nós através de mediações, sondas, telescópios, satélites, modelos e reconstruções visuais. Conhecemo-los por imagens produzidas onde a percepção já não alcança sozinha. Ali, o olhar torna-se necessariamente especulativo. Ver deixa de significar reconhecer uma forma e passa a significar reconstruir mentalmente uma realidade que permanece, em grande medida, inacessível.

© Mariana Rocha.
Diante dessas pinturas, entretanto, o olhar reconhece algo vivo, algo prestes a emergir. Não sabe se encontra a intimidade de uma membrana, a deriva de um organismo abissal ou a expansão de uma nuvem interestelar. Pois Mariana Rocha suspende o regime de proporções que organiza a experiência comum. Entre o infinitamente pequeno e o infinitamente vasto, suas imagens instauram uma zona de continuidade onde corpo e cosmos deixam de aparecer como realidades separadas e passam a ser percebidos como diferentes manifestações de uma mesma matéria em transformação.
Contudo, o que aproxima o corpo do cosmos não é uma semelhança visual. É uma afinidade processual. Uma estrela nasce da concentração de matéria interestelar; um organismo emerge da diferenciação progressiva de células. Escalas distintas, lógicas semelhantes. Nas pinturas de Mariana Rocha, essa correspondência deixa de funcionar como analogia para tornar-se experiência visual. O observador não sabe se está diante da formação de um tecido ou de uma nebulosa porque ambos aparecem submetidos ao mesmo regime de crescimento e transformação.
Renato Menezes observou que Mariana Rocha ‘trapaceia a escala’. A formulação parece descrever uma estratégia formal. Na verdade, toca questão mais profunda. Escalas não servem apenas para medir grandezas; servem para distribuir presenças. É por meio delas que distinguimos fenômenos, atribuímos identidades e organizamos as diferentes ordens da existência. Chamamos de célula aquilo que habita uma determinada dimensão. Chamamos de corpo aquilo que reúne inúmeras células. Chamamos de paisagem aquilo que excede a medida do organismo. Cada escala institui um regime próprio de realidade.

© Mariana Rocha.
A pintura de Espaço profundo perturba precisamente essas dimensões. Suas formas escapam aos sistemas de proporção que normalmente permitem reconhecer onde estamos e o que vemos. Uma mesma estrutura pode ser percebida como membrana, organismo, relevo, corrente oceânica ou formação interestelar. A matéria parece atravessar sucessivas ordens de grandeza sem alterar substancialmente sua lógica de organização.
É nesse deslocamento que a relação entre corpo e cosmos adquire sua verdadeira complexidade. Não se trata de uma correspondência visual nem de uma metáfora poética baseada em semelhanças formais. As pinturas não sugerem que o corpo se parece com uma galáxia ou que uma galáxia lembra o oceano. Elas propõem algo mais intenso: ambos participam de processos análogos de formação. Expansão, condensação, proliferação, absorção, diferenciação e metamorfose atravessam igualmente a matéria orgânica e a matéria cósmica.
O que emerge dessas telas é uma compreensão contínua do mundo. Corpo e cosmos aparecem menos como entidades distintas do que como diferentes intensidades de um mesmo processo material. A questão deixa de ser onde termina um e começa o outro e passa a ser como a matéria produz formas, desfaz formas e as reorganiza ao longo de escalas distintas.
André Pitol afirma que os corpos e paisagens de Mariana Rocha partem do real para alcançar o mistério. Talvez seja possível inverter a fórmula sem traí-la. Em suas pinturas, o mistério não constitui o destino do real; constitui uma de suas camadas mais profundas. A artista não se afasta das coisas em direção ao imaginário. Aproxima-se delas até o ponto em que deixam de ser inteiramente apreensíveis. Suas imagens habitam esse limiar delicado em que o reconhecimento já não basta, onde a matéria começa a exceder as classificações que a organizam. O que emerge então não é um mundo fantástico, mas um real tornado novamente estranho, vasto e indecifrável.
Há, em grande parte da tradição pictórica ocidental, um compromisso fundamental com a forma constituída. A pintura surge como o lugar em que algo se apresenta ao olhar depois de ter alcançado um estado relativamente estável de existência. Seja uma figura humana, uma paisagem, um objeto ou mesmo uma geometrização, a imagem costuma funcionar como fixação provisória do mundo. Mariana Rocha parece interessar-se por uma instância anterior. Suas pinturas partem das forças que produzem as formas. O que vemos são matérias atravessadas por processos de diferenciação contínua. Cada imagem preserva algo do instante em que uma configuração ainda não se sedimentou completamente, quando um organismo ainda participa da paisagem, quando uma membrana ainda se confunde com uma nebulosa, quando a forma permanece inseparável da transformação que a constitui.

© Mariana Rocha.
Títulos como Sopa primordial, O primeiro espaço ou Dentro de uma supernova oferecem uma indicação importante sobre o que está em jogo em Espaço profundo. Apontam para momentos inaugurais, para regiões da experiência em que a matéria ainda não consolidou as distinções que tornam possível reconhecer um organismo, uma paisagem, um corpo ou um mundo. Há em toda a exposição uma atenção insistente aos estados de emergência, aos limiares em que as formas ainda não alcançaram sua plena autonomia e permanecem atravessadas pela memória daquilo de que surgiram.
Tudo se apresenta em condição nascente. As massas de cor expandem-se, condensam-se, dobram-se sobre si mesmas; as estruturas proliferam, derivam, assumem configurações provisórias que jamais se encerram completamente. Cada tela oferece a sensação de observar a matéria no instante em que ela começa a organizar-se, quando diferenças futuras ainda repousam inscritas numa mesma continuidade.
Talvez seja por isso que a experiência dessas pinturas produza uma forma particular de vastidão. Não porque representem fenômenos grandiosos ou espaços infinitos, mas porque suspendem os sistemas de medida que normalmente organizam a percepção. Quando Bachelard escreve sobre a imensidão, ele não a compreende como uma propriedade do universo, mas como um acontecimento da imaginação. O vasto começa onde as proporções deixam de oferecer estabilidade ao olhar. Começa quando já não sabemos exatamente a que escala pertencem as formas diante de nós.
E, nessa medida, a persistência dos moluscos em sua pesquisa não decorre apenas de sua ligação com o universo marinho. Existe uma lógica formal que atravessa toda sua obra. São seres cuja existência parece desafiar a ideia de um corpo inteiramente separado do mundo, organismos em que crescimento, adaptação e metamorfose permanecem inscritos na própria forma. A artista encontra neles uma imagem privilegiada da matéria em processo. Os seres que povoam suas pinturas compartilham dessa condição. Não surgem como indivíduos concluídos, mas como formações transitórias, instâncias de uma matéria que ainda não esqueceu sua continuidade fundamental com aquilo que a cerca.
Com efeito, o ‘cosmos’ que emerge em Espaço profundo não é o da distância, mas o da continuidade. Não é o universo observado da Terra, mas o universo percebido a partir da matéria que nos constitui. Mariana Rocha parece compreender que toda forma, por mais singular que seja, conserva algo daquilo que a antecede. Um organismo carrega a memória da célula. A célula carrega a memória da matéria. A matéria carrega a memória das forças que a organizaram. Suas pinturas habitam esse movimento de reminiscência, fazendo com que o olhar recue para além dos nomes, dos contornos e das identidades, até alcançar uma região onde corpo e cosmo já não se enfrentam como realidades distintas. Restam apenas diferentes estados de uma mesma profundidade em transformação.
Os versos de Arnaldo Antunes retornam então sob outra luz. Debaixo d’água, tudo parece reconciliado por alguns instantes. Corpo e ambiente participam de um mesmo todo. Forma e mundo parecem pertencer a uma mesma substância. A necessidade de respirar interrompe a fantasia e restitui as fronteiras que tornam a vida possível. A pintura de Mariana Rocha aproxima-se daí. Ela persiste sob as formas, atravessa os organismos, percorre as paisagens e continua atuando silenciosamente na matéria. O espaço profundo de que fala a artista talvez não esteja acima de nossas cabeças nem sob os oceanos. Talvez seja a profundidade comum da qual todas as coisas emergem, por um breve instante, antes de voltarem a respirar.

Vista da exposição “Espaço profundo”, de Mariana Rocha, na galeria A Gentil Carioca São Paulo. Foto: Divulgação
A galeria A Gentil Carioca, em São Paulo, recebe a exposição Espaço profundo, da artista Mariana Rocha. A mostra fica em cartaz entre 17 de agosto e 24 de outubro de 2026.
Fabrício Reiner é Mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo, aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto à Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador, curador e crítico de arte.
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