POR FABRÍCIO REINER
A exposição Construção, Desconstrução, Reconstrução, apresentada nos Encontros de Arles como parte da Temporada França-Brasil 2025, não apenas revela um capítulo pouco conhecido da fotografia modernista brasileira, como também propõe uma reconfiguração crítica dos modos de ver, sentir e pensar a imagem fotográfica no Brasil do século XX. Ao reunir trinta e três fotógrafos ligados ao Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), a mostra se inscreve como um gesto curatorial de grande densidade histórica e artística, que tensiona os limites entre prática amadora e vanguarda estética, entre utopia e modernidade, entre ruína social e reconstrução simbólica.
Fundado em 1939, o FCCB emerge no momento de transição acelerada da cidade de São Paulo – verticalização urbana, industrialização, influxo de imigrantes e efervescência cultural. Nesse contexto, a fotografia praticada por seus membros passa a incorporar os impulsos das vanguardas internacionais e brasileiras. A ruptura com o pictorialismo, liderada por nomes como German Lorca, Thomaz Farkas e Geraldo de Barros, inaugura uma linguagem visual que apresenta, em perspectiva dinâmica e experimental, fotogramas, montagens, abstrações geométricas e intervenções sobre negativos: ferramentas de uma nova sensibilidade artística.
Essas relações podem ser vistas inclusive no excelente catálogo da mostra que reúne 190 imagens e excelentes ensaios, como o de Rafael Cardoso e Julieta Pestarino, para além da reflexão precisa e embasada das curadoras Hélouise Costa e Marcella Legrand Marer. Com efeito, a referida exposição oferece também uma oportunidade singular de pensar a fotografia modernista brasileira à luz do pensamento concreto e neoconcreto.
Já na escolha do título (na ordem da poesia concreta brasileira), para além de uma homenagem formal, estabelece-se uma chave interpretativa. Uma vez que Construção remete à utopia modernista e à crença na imagem como projeto de futuro; Desconstrução revela os bastidores desse progresso: as exclusões, silêncios e as expectativas de um Brasil não realizado; e Reconstrução aponta para a potência da experimentação, para a reinvenção dos modos de ver e de sentir. Esses três eixos organizam a mostra ao espelhar as contradições do Brasil moderno – país que se construiu sobre promessas e paradoxos.
Esses diálogos de aproximação se constroem nessa proposta pela afinidade profunda entre as investigações formais desses artistas e a linguagem fotográfica desenvolvida pelos fotoclubistas. Uma vez que ambos os grupos compartilham o desejo de romper com a representação tradicional e de instaurar uma arte participativa, que convoque o observador à experiência e não apenas à contemplação. A fotografia, nesse contexto, deixa de ser registro para se tornar acontecimento. E, ao reunir a proposição desses fotógrafos com as reflexões de Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica, percebe-se que a fotografia do FCCB antecipa as reflexões do concretismo em muitos aspectos: explicitando as dimensões interdependentes da experiência estética em ambos os grupos. Nesse sentido, a exposição demonstra que a fotografia modernista brasileira teve um papel central na formulação de uma arte contundente, que buscou a união da imagem com o corpo, na fusão admirável entre técnica e afeto.
Nessa perspectiva, a mostra apresenta uma revisão historiográfica da fotografia modernista brasileira no intuito de estabelecer uma reflexão crítica sobre os modos de ver e representar o Brasil moderno. Ao tomar como eixo o FCCB, a mostra indicia o intuito do clube em tensionar os limites entre arte e documento, entre memória e modernidade.
Em Thomaz Farkas, por exemplo, articula-se rigor formal e compromisso social. Suas imagens da construção de Brasília apontam para a tensão existente entre o ideal do projeto modernista e a realidade crua dos trabalhadores. Seus enquadramentos demonstram consciência crítica da paisagem urbana contraditória brasileira e, consequentemente, uma ética do olhar.
Já para Nelson Kojranski, a abordagem se aproxima da abstração geométrica ainda que os vínculos referenciais se mantenham. Sua fotografia opera em diálogo com a linguagem concreta, na qual o enquadramento e a composição se tornam elementos de uma sintaxe visual. Fotografia que busca construir uma imagem que se inclui entre a forma e o afeto, racionalidade e sensibilidade.
Chico Albuquerque, por sua vez, é um dos pioneiros da fotografia publicitária no Brasil, mas cuja contribuição ao FCCB ultrapassa as intenções de mercado. Em ensaios como Mucuripe, por exemplo, ele documenta a vida dos jangadeiros cearenses com uma sensibilidade que busca uma fuga do olhar puramente etnográfico. Sua obra revela uma atenção ao corpo, à luz e à textura que aproxima o retrato da escultura. Ao fotografar o cotidiano com rigor formal e empatia, Albuquerque transforma o banal em poético, e o regional em universal.
Gertrudes Altschul, uma das poucas mulheres do FCCB, desenvolve uma linguagem própria a partir de motivos botânicos, arquitetônicos e domésticos. Seus fotogramas e solarizações revelam uma pesquisa formal rigorosa, em que a luz e a sombra se tornam protagonistas. Em obras como Filigrana, Altschul transforma folhas em abstrações visuais, revelando uma estética do detalhe e uma poética da intimidade. Sua obra tensiona os limites entre natureza e cultura, entre técnica e sensibilidade, e propõe o que poderíamos denominar um olhar feminista da modernidade.
Geraldo de Barros é talvez o nome mais radical do grupo, ao propor uma ruptura com a fotografia tradicional por meio das Fotoformas. A partir de suas observações formais de proposições das vanguardas europeias, Barros se distingue pelas suas intervenções no negativo como linguagem artística: recortes, desenhos, sobreposições e solarizações. Ao trabalhar diretamente com o suporte, ele inaugura uma nova ontologia da imagem, na qual a fotografia se torna pensamento visual.
A mostra também se insere num esforço de internacionalização da chamada Escola Paulista de Fotografia, cuja importância na América Latina é reconhecida, mas que permanece à margem das narrativas hegemônicas da história da fotografia moderna. Ao trazer essa produção para o centro de um dos maiores festivais de fotografia do mundo, Construção, Desconstrução, Reconstrução não apenas reivindica um lugar para a fotografia brasileira no circuito internacional, mas também propõe uma revisão crítica dos cânones historiográficos.
Em última instância, a exposição é um convite à reflexão sobre o papel da imagem na construção do imaginário nacional. Ao revelar as especificidades da experiência modernista do FCCB, suas ambições, seus limites e contradições, ela nos obriga a pensar o Brasil como campo disputa de forças políticas e ideais estéticos que se inscreveram de maneira profunda na história recente do país.
Construction, déconstruction, reconstruction:
photographie moderniste brésilienne (1939-1964)
Les Rencontres d’Arles Mécanique Générale
Curadoras: Helouise Costa e Marcella Legrand Marer
Até 05/10/2025
Fabrício Reiner é mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo, aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto a Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador e curador independente.




