POR NOAH MANCINI
Um coração pulsando ao fundo, constante. Tum tum, tum tum, tum tum.
Um texto de Aoruaura inicia o vídeo, ao som de batimentos cardíacos ao fundo, e fala sobre a criação. Um corpo projetado na consciência, na percepção de si, na geração de uma subjetividade, se indaga e se constrói à medida que o questionamento é base para a construção. “Isso tudo é um corpo?”

Still de videoperformance. Fonte: cortesia da artista.
Na videoperformance Metamorphosis, de Ayala Prazeres, a artista besunta em seu corpo um gel, o espalha sobre suas pernas, seu dorso, seus braços. Esse gel translúcido, em grossas camadas, vai criando uma outra epiderme, de modo que se sobrepõe à pele e não a anula. O material citado que ela está a utilizar se trata de um gel de estradiol, comumente utilizado em terapias hormonais, como por pessoas trans femininas em processos de afirmação de gênero. O passar por cima começa a se manifestar de uma maneira outra, procurando por compreensões ainda não totalmente decodificadas. O trabalho estreou em 2026 na MAIRI – Mostra Internacional de Cinema Transbordante, de Belém (PA).
Planos fechados percorrem o corpo em minúcias. Atravessam os poros, nossos olhares. A pictorialidade deste trabalho, de certa maneira, se constrói a partir de uma economia dos elementos. O corpo está na centralidade e é circunspecto em sua objetividade. Ao mesmo tempo que há uma silenciosa recusa em se abrir por completo: nessa zona indeterminada, o retrato sob perspectiva borra a identidade, evocando uma coexistente opacidade para a leitura da mesma.

Still de videoperformance. Fonte: cortesia da artista.
Há certo recolhimento, num estado de suspensão, na liminar postura de equilibrar algumas forças. Evitando narrativas explícitas, resistindo à captura total, expondo um processo do vivente. Passagem de campos, corpo-matéria, epiderme, textura, líquidos. Funcionando como agente ativa da imagem, tal matéria em movimento produz uma tátil performatividade que adere, escorre, amalgamando essas transições de campos, entre o externo e o interno. O simbólico está em operação diante de nós, no chão pontuado por folhas, o tecido branco por trás da artista, no recipiente de barro que ela carrega, pelo ritual que é exposto e doméstico.
Algo ali acontece, embora não seja plenamente nomeável. Na temporalidade duracional desse gesto, a dilatação faz do exercício uma espécie de permanência imersiva. Antes ou depois não estão explícitos, acompanhamos um entre, assim como os fins e começos também não são as transformações preconcebidas ou concluídas, mas a mudança nata na condição existencial, permanente transição.

