POR DOMI VALANSI
As tradições e manifestações culturais brasileiras que deixam seus rastros delicados na cidade do Rio de Janeiro são as inspirações para a pesquisa artística do pintor, ilustrador e escultor Mano Wladimir (2002). Com curadoria de Bruna Costa, o artista atualmente realiza sua primeira individual no Centro Cultural Lado B, localizado em um casarão que vai da Av. Primeiro de Março, rua histórica do Rio de Janeiro, até a Travessa do Comércio, rua de casarios fundada antes de 1730.

Mano Wladimir: Sem título, da série apresentada na exposição Entre Aqui e Além (2026).
No lado da escada que leva para a sala expositiva, o artista montou um espaço com espadas-de-são-jorge, velas e uma dezena de carrancas que coleciona. Originais da proa de embarcações do Rio São Francisco, as carrancas em madeira protegem barcos e navegantes de criaturas marinhas, como o folclórico caboclo-d’água, espécie de homem-peixe que vira canoas. Mano Wladimir pesquisa essas heranças populares ao mesmo tempo em que mantém seu interesse pelo monstruoso, pelo fantástico e pelo grotesco.
Na primeira parte da individual estão seis esculturas, moldadas em cerâmica de alta temperatura e finalizadas com esmaltação. Três desta série de Carrancas-monstros foram expostas no estande da Associação Cultural Lanchonete <> Lanchonete, durante a ArtRio 2025, sob curadoria de Paula Borghi. “Na infância, todos os meus brinquedos eram monstros e foram a primeira coisa que eu gostei de desenhar. Ao mesmo tempo, eu tinha dificuldade de dormir porque morria de medo deles. Então, o tema sempre povoou meu imaginário, em uma relação de fascinação e medo.” Completam o tema três serigrafias da série Criaturas da língua portuguesa, onde o artista produz um bestiário de seres fantásticos com estética medieval.

Mano Wladimir: autorretrato. Créditos: Divulgação.
Na segunda sala estão quatro séries de pinturas. Retratos realistas são o fio condutor de Os sábios, onde o artista registra pessoas com quem possui uma longa relação ou contatos pontuais, como quem interage nas ruas. “Os retratos são uma forma muito diferente de se conectar com alguém. Eles são estratégias para cultivar a minha atenção. Quem eu pinto, para mim, são pessoas extraordinárias, camufladas no dia a dia. Tenho um compromisso com elas, um respeito e uma vontade de celebrá-las”, conta. Nas telas, desde o retrato de Carlos Saboia, diretor cultural da Portela na década de 1970, até Michele, uma conhecida frequentadora dos habitués do boêmio bairro da Lapa.
Manuscritos antigos da Idade Média e o movimento armorial, criado por Ariano Suassuna e desdobrado em referências às xilogravuras e à literatura de cordel, são as fontes para a série Iluminuras, com suas criaturas, santos e batalhas.
O sagrado dos oratórios presentes em botecos, entre outros estabelecimentos tradicionais do Rio de Janeiro, gerou a série Altares mundanos, que o artista busca em suas andanças por diferentes bairros. Relicários, terços, estátuas de Nossa Senhora e santos como São Jorge dividem espaços votivos com garrafas de bebida, refrigerantes, muitas vezes em contraste com os desenhos de azulejos.
“Esses espaços ordinários carregam uma relação mais direta e familiar com seus frequentantes, e sobrevivem aos tempos com a ajuda da proteção constante de seus pequenos altares, montados pela devoção de seus proprietários e trabalhadores”, explica a curadora Bruna Costa. Mano Wladimir diz que sua espiritualidade vem do religare, de se religar com o divino: “Nesse sentido, eu acho que eu tô sempre buscando essa conexão.”
Completa a mostra a série de pinturas Terra além, que parte de um lugar imaginário que o artista visita de forma recorrente em seus sonhos. Este território dialoga com o mundo imaginal (mundus imaginalis), cunhado pelo filósofo e orientalista Henry Corbin. A partir da mística sufi, o termo se refere a um território onde habitam os símbolos, arquétipos e visões, acessível através da imaginação ativa. “A ideia de pintar esse mundo começou com esse sonho muito visual. E eu visito e contemplo esses lugares oníricos. Me coloco como um viajante, uma espécie de Debret, documentando este local. Me coloco como artista em contato com uma realidade mais sutil.”
A individual de Mano Wladimir vai até o dia 15 de agosto no Centro Cultural Lado B (Primeiro de Março, 14 – Centro, Rio de Janeiro). Entrada gratuita.
Domi Valansi é jornalista com foco em artes visuais e museus com pós-graduação em Fotografia com instrumento de pesquisa das ciências sociais
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