POR FLÁVIO ROCHA DE DEUS
“Breno de Sant’Ana é um artista visual do Rio de Janeiro cuja especialidade é libertar objetos”. Foi assim que passei a descrevê-lo nas vezes que precisei apresentar sua produção a alguém.
Meu primeiro contato com seu trabalho ocorreu na exposição A montanha como metáfora — ou o tempo, em setembro de 2025, na Galeria Samba, na zona sul do Rio de Janeiro. Com curadoria de Daniela Labra, a mostra reuniu 16 artistas residentes da Zait_Art. E entre eles, Sant’Ana.

A montanha como metáfora – ou o Tempo. Curadoria: Daniela Labra. Samba – Galeria de Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, 2025. Foto: Flávio Rocha de Deus.
Sua série Fúria da beleza é uma sofisticada manufatura de artefatos ordinários que deslocam os contextos de significação da forma, da função e do design. Nela, Sant’Ana constrói objetos a partir da junção de elementos semióticos que, em outros contextos, estariam em oposição. Como são os leques de navalhas furta-cor: a forma do leque, que é culturalmente associada à delicadeza e suavidade, é aqui atravessada pelas navalhas, que possuem uma rede semântica completamente oposta. O resultado disso é uma ambiguidade que opera simultaneamente no plano sensorial e no simbólico.

Fúria da Beleza: Leques, de Breno de Sant’Ana, em A montanha como metáfora – ou o Tempo. Curadoria: Daniela Labra. Samba – Galeria de Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, 2025. Foto: Flávio Rocha de Deus.
É a partir dessa intuição que argumento essa “libertação dos objetos de Sant’Ana”. Em Art and Objects, Graham Harman defende que a arte revela ou evoca o excedente dos objetos por deslocá-los da gramática ordinária das funções. Dessa forma, Sant’Ana, ao retirar o leque de sua semântica de docilidade e reconfigurá-lo com navalhas, faz emergir uma nova apreensão do objeto, agora liberto de suas amarras da significação habitual. Ele eleva os objetos banais a um campo onde já não podem ser totalmente apreendidos, nem pelo uso, nem pela imagem. E, nesse processo, ele também liberta o espectador de suas normatividades. O mesmo ocorre quando ele transforma um espelho em um punhal e uma escova de cabelo em um mangual medieval.

Fúria da Beleza, de Breno de Sant’Ana, 2025. Fonte: Arquivo do artista.
Há quem possa, em contato com os artefatos de Sant’Ana, dizer que a finalidade do artista com essas séries é tornar a beleza agressiva/furiosa – uma leitura possível, mas eu leio o oposto: um genuíno esforço em preservar a beleza, apesar da fúria.
Vale notar que os objetos escolhidos por Sant’Ana (com exceção do leque) – escova, espelho e navalha – pertencem ao campo da intimidade do corpo. A atenção a estes agentes da vida é, aliás, a chave que orienta minha leitura. Eu vejo essa série inteira sob a lente da “autopreservação”. Esses objetos de cuidado da intimidade e do corpo intimidam, mas Sant’Ana, ao armá-los, não trai nem abre mão dos aspectos visuais e antagônicos que tornam tais objetos reconhecíveis exatamente pelo que eles são. Essa chave de operação conceitual também encontra eco em uma de suas produções visuais mais conhecidas: a performance VINHADINHO.

Atenção: Vinhadinho na pista, 2023, Fotoperformance, Série: Vinhadinho. Foto: Arquivo do Artista/Revista Desvio, 2024.
Nascido da experiência autobiográfica do artista com a violência homofóbica, o personagem VINHADINHO é uma estratégia de ressignificação da palavra pejorativa “viado”, que o perseguiu desde a infância, transformada em afirmação de identidade e subversão das normas cis-heteronormativas. Sant’Ana o materializa nas placas de aviso que invadem o espaço público – um corpo que ocupa um local onde não foi convidado, que insiste em existir. Se Fúria da beleza mostra uma libertação essencialmente simbólica e formal, o conjunto de trabalhos sobre o VINHADINHO revela que essa operação tem um aspecto mais ético e material. Em Sant’Ana, beleza e fúria se protegem.
De toda forma, no contexto da arte contemporânea, onde deslocar objetos de sua função e semiótica já se tornou procedimento consolidado, dos ready-mades de Duchamp às distorções de Rebecca Horn, é legítimo se perguntar em que medida o gesto de Sant’Ana escapa ao status quo das produções de nosso tempo. Eu ainda não saberia precisar; todavia, mesmo com a repetição da gramática aplicada, vejo em sua poética e narrativa a mesma dinâmica que outrora comentou Scorsese: nele, o mais pessoal é o mais criativo. E isso, por ora, me parece suficiente para seguir acompanhando sua trajetória com atenção.


