Patrícia Araújo, Fazer corpo com outro corpo, 2016

A felicidade é uma arma quente

No capitalismo contemporâneo, felicidade virou comodity, uma meta gerenciada por aplicativos, por discursos de alta performance, por promessas de consumo que, ao mesmo tempo, seduzem e culpabilizam

POR FABRÍCIO REINER

Começar por Belchior sugere uma ética da lucidez que não renuncia à conflagração. Talvez a exposição A felicidade é uma arma quente, com curadoria de Galciani Neves, no Garoa SP, parta precisamente dessa centelha; apoiando-se na canção do cearense que homenageia a John Lennon para acender uma conversa sobre felicidade como prática de resistência – como ‘paixão e embate’ num mundo em que a vida se apresenta ‘à queima-roupa’. Há algo de brilhantemente perigoso nessa frase: devolver à ‘felicidade’ uma acepção de temperatura, instabilidade e acontecimento – não produto. No capitalismo contemporâneo, felicidade virou comodity, uma meta gerenciada por aplicativos, por discursos de alta performance, por promessas de consumo que, ao mesmo tempo, seduzem e culpabilizam. A felicidade, nesse sistema, aparece como um dever íntimo e como uma vitrine pública; e falhar nessa fiteira evidencia imperfeição pessoal, não efeito de estrutura. No nosso Sul Global, esse imperativo se torna ainda mais agudo porque a desigualdade é paisagem e a precariedade, rotina; pede-se serenidade a quem vive sob ameaça; e sorriso a quem atravessa lutos permanentes; felicidade a quem deve suportar o insuportável.

Vera Chaves Barcellos. Keep Smiling, 1977/2026

Belchior sabia que há uma violência (nem tão discreta) nessa máquina de promessas. “Sons, palavras, são navalhas” pode ser outra chave de identificação da exposição, pois nesse conjunto de obras que ali se apresentam, não há lugar para complacência: são vídeo-performances, instalações, desenhos, pinturas, fotografias e objetos escultóricos reunidos para nos colocar diante de indagações sobre como existir e resistir, e sobre como a arte pode promover um campo de pensamento para possíveis compreensões de felicidade ou da falta dela. No momento em que a cultura tenta vender bem-estar como anestesia, essa exposição recoloca a indulgência em lugar mais exigente.

Patrícia Araújo, Fazer corpo com outro corpo, 2016

É aqui que o diálogo com Spinoza se faz presente, como núcleo de sustentação que Galciani Neves propõe. Para o filósofo, felicidade não é prêmio derradeiro, nem repouso transcendental: é uma forma de vida, um modo de existir que aumenta a potência de agir. Na frase “a felicidade não é a recompensa da virtude, mas a própria virtude” o filósofo apresenta a felicidade como potência, capacidade de perseverar no próprio ser (conatus) e de compor encontros que ampliem a vida, no lugar de estreitá-la. Ainda assim, o coração da ética spinozista não é a obediência, antes a liberdade, entendida como compreensão das causas; quanto mais somos arrastados por afetos tristes e por ideias confusas, mais passivos e dependentes ficamos; quanto mais produzimos ideias adequadas – isto é, quanto mais compreendemos o que nos move e o que nos determina – mais ativos nos tornamos, e mais a alegria deixa de ser euforia para se tornar consistência.

Lenora de Barros, Pisa na paúra, 2017

Vale destacar que essa alegria, em Spinoza, não é “sentir-se bem” no sentido higienizado do mercado contemporâneo; é função exponencial de potência, um deslocamento do corpo e da mente para uma condição de maior capacidade de afetar e ser afetado. A própria tradição de leitura do pensador insiste no lugar decisivo do corpo e dos afetos: não existe mente fora de um corpo que encontra, que sofre, que deseja, que se reorganiza. Por isso, pensar felicidade em Spinoza é pensar arranjos materiais: com quem convivemos, sob quais ritmos, sob quais regimes de trabalho, sob quais medos, sob quais narrativas. A máquina capitalista, ao colonizar o tempo e a atenção, empobrece os encontros e privatiza as dores; faz da alegria um intervalo raro e, quando ela aparece, tenta vendê-la de volta como assinatura mensal. A exposição, ao contrário, parece apostar no que Spinoza chamaria de bons encontros: situações em que algo se rearranja no observador, não por persuasão, mas por experiência.

No texto curatorial da mostra uma pergunta se impõe: pode a felicidade reverter-se em prática de luta e combate, e pode ser chave para existir e resistir de maneira “enfática e substancial”? Essa formulação é preciosa porque desloca a felicidade do campo individual para o coletivo: felicidade como procedimento de insubmissão, como imaginação política que não se reduz a slogan. Na nossa América Latina, onde o cotidiano é atravessado por contradições brutais, essa felicidade não pode ser inocente; ela precisa saber de onde vem a violência e para onde ela vai.

E aí Belchior reaparece com outra lâmina de clareza: “Viver é melhor que sonhar.” O verso não despreza o sonho; ele o recoloca sob a prova do real, onde sonho vira prática e desejo procedimento. Em Spinoza, isso tem um paralelo rigoroso: a liberdade não é fantasiar um ‘fora’ do mundo, mas compreender as cadeias de causas que nos atravessam para, dentro delas, encontrar margens de ação. A exposição, ao acionar Belchior, parece assumir esse compromisso: não oferecer fantasia, mas transformar a própria percepção do cotidiano em campo estético e político.

O conjunto de artistas reunido pela curadoria – Ana Gavião, Clarice Lima, Estela Sokol, Gokula Stoffel, Guga Szabzon, Lenora de Barros, Lia Chaia, Lívia Aquino, Patrícia Araujo, Raphaela Melsohn, Rubiane Maia, Val Souza e Vera Chaves Barcellos – funciona como um coro de timbres distintos, convocado para uma mesma indagação. O fato de a mostra reunir mídias variadas – do desenho ao objeto, da fotografia ao vídeo-performance – não é apenas uma informação de legenda; é tomada de posição: é afirmar que a felicidade não cabe numa única linguagem, porque ela mesma se apresenta como um problema formal. Com efeito, a felicidade, quando experiência artística, multiplica-se em ritmos de atenção, em conflitos entre o que se espera e o que se encontra. A arte, aqui, traduz felicidade como reorganização: uma mudança de escala, um tropeço na norma, uma fricção entre corpo e espaço, um desconforto que continua agindo dentro da gente depois que retomamos a vida fora do espaço expositivo.

Val Souza. Can you see it?!, 2018

Spinoza ajuda a nomear essa sensação: alegria é passagem para um estado de maior potência; tristeza é passagem para um estado de menor potência. O que o capitalismo faz, com frequência, é prometer alegria e entregar excitação seguida de queda, como uma economia afetiva baseada em picos e abstinência. A curadoria, ao falar de felicidade como resistência e como ignição, sugere outra coisa: uma alegria que não se confunde com euforia, mas com sustentação. Sustentar, aqui, é assegurar o corpo em um mundo que o quer exaurido; amparar uma sensibilidade em um mundo que a quer distraída; apoiar a imaginação em um mundo que a quer previsível.

E quando Belchior desponta, a exposição reverbera um sotaque particular: latino, urbano e atravessado por contradições. “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.” E isso, na São Paulo da Garoa, é quase uma definição de alegria spinozista: perseverar, recompor-se, insistir, produzir potência apesar de existir; não por heroísmo individual, mas porque a vida, para continuar, precisa inventar a si mesma. E a arte é uma delas: laboratório de recomposição, lugar de pensamento e sensibilidade.

Por isso, talvez o ponto mais radical do conjunto não seja denunciar a felicidade mercantilizada e sim reivindicar o direito de produzir alegrias que não se deixam capturar. Alegrias que não cabem no marketing, porque não são estáveis no sentido de serem imóveis; são estáveis porque se sustentam como prática, como exercício. Spinoza diria: a alegria mais forte é a que nasce do entendimento e da atividade, não a que depende de causas externas e frágeis. Belchior diria, com sua mistura rara de ternura e pancada, que a vida “ao vivo é muito pior” – e, por essa razão, a canção pode ser “correta, branca e suave”.

A felicidade, quando ‘arma quente’, não ameaça o outro, mas o regime que nos quer previsíveis, dóceis, isolados e culpados. Ela é a arma de quem insiste em compor com a vida em vez de apenas suportá-la – e, ao mesmo tempo, a arma de quem aprende a suportar sem resignar. A mostra inaugura um espaço novo em São Paulo e, para além disso, uma pergunta insistente: pode a felicidade ser um dispositivo de resistência?

A felicidade é uma arma quente
Garoa
Curadoria de Galciani Neves

1 de abril a 16 de maio de 2026

Fabrício Reiner Fabrício Reiner é mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo, aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto a Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador e curador
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