POR TEREZA DE ARRUDA
A 61ª Bienal de Veneza entra para a história não apenas pela força de sua proposta curatorial, mas sobretudo pela intensidade política e simbólica que atravessa esta edição. Em um cenário marcado por guerras, deslocamentos forçados e disputas em torno das estruturas de poder global, a Bienal abandona definitivamente qualquer ideia de neutralidade institucional. Mais do que uma exposição internacional de arte, Veneza transforma-se em um campo de tensões geopolíticas e reposicionamentos culturais.
Sob o título In Minor Keys, concebido pela curadora camaronês-suíça Koyo Kouoh antes de seu falecimento em 2025, a mostra central propõe uma desaceleração do olhar e uma atenção às narrativas historicamente invisibilizadas. A decisão de preservar integralmente seu projeto após sua morte reforçou o caráter quase testamentário desta edição. Entre os principais colaboradores responsáveis pela continuidade do projeto estão os curadores Gabe Beckhurst Feijoo, Marie Hélène Pereira e Rasha Salti, além do crítico e editor Siddhartha Mitter e do assistente curatorial Rory Tsapayi. Primeira mulher africana a dirigir artisticamente a Biennale di Venezia, Kouoh construiu uma exposição baseada menos no espetáculo e mais em experiências ligadas à ancestralidade, espiritualidade, memória, cuidado e escuta coletiva. Em oposição à hiperprodução imagética contemporânea, In Minor Keys reivindica o direito à fragilidade, ao silêncio e à complexidade.

Mas a dimensão histórica desta Bienal ultrapassa o campo curatorial. A presença da Rússia e de Israel desencadeou uma das maiores crises institucionais da história recente do evento. Diversos artistas, curadores e intelectuais questionaram os limites entre representação nacional, diplomacia cultural e responsabilidade ética em tempos de guerra.
A participação russa provocou protestos imediatos devido à continuidade da guerra na Ucrânia. Ao mesmo tempo, a presença israelense reacendeu debates em torno da guerra em Gaza e das acusações internacionais de crimes humanitários. A crise atingiu um ponto crítico com a renúncia coletiva do júri internacional poucos dias antes da abertura oficial da Bienal. Em resposta, a organização instituiu uma votação pública para definir os prêmios desta edição, iniciativa que acabou sendo boicotada por diversos artistas participantes.

Pavilion of RUSSIA, The tree is rooted in the sky. Foto: Andrea Avezzù. Courtesy: La Biennale di Venezia.
A crise revelou aquilo que Veneza frequentemente tenta ocultar: a Bienal nunca foi um espaço neutro. Desde o final do século XIX, os pavilhões nacionais funcionam como dispositivos de representação simbólica de poder e identidade. Em 2026, essa estrutura expõe suas fissuras de maneira incontornável. Ao percorrer os Giardini e o Arsenale, percebe-se que muitos artistas responderam diretamente a esse contexto de instabilidade global. Diversos pavilhões abandonam estratégias puramente formais para assumir posicionamentos críticos sobre colonialismo, violência, migração e desigualdade.
O Pavilhão da Alemanha apresenta uma das contribuições mais contundentes desta edição. Em vez de reafirmar uma ideia monumental de identidade nacional, a exposição transforma o espaço em um ambiente de desconstrução histórica e vulnerabilidade política. A memória alemã — inevitavelmente atravessada pelas marcas do fascismo, da divisão territorial e das migrações — aparece não como narrativa encerrada, mas como processo contínuo de revisão crítica. Intitulada Ruin, a mostra reúne as artistas Henrike Naumann, falecida repentinamente este ano, e Sung Tieu, com curadoria de Kathleen Reinhardt. A exposição transforma o pavilhão em um espaço de tensão entre memória histórica, arquitetura e colapso político, investigando as ruínas físicas e simbólicas da sociedade contemporânea alemã. Por meio de mobiliários, estruturas arquitetônicas e vestígios pessoais, as artistas abordam temas como migração, burocracia, extremismo e os vestígios do passado da Alemanha Oriental.

Pavilion of GERMANY, Ruin. Foto: Jacopo Salvi. Courtesy: La Biennale di Venezia.
O Pavilhão da Áustria apresenta SEAWORLD VENICE, da artista e performer Florentina Holzinger, com curadoria de Nora-Swantje Almes. A exposição converte o espaço em uma instalação performática contínua, na qual corpo, água, tecnologia e ritual se entrelaçam. Misturando teatro, coreografia e performance, Holzinger investiga os limites físicos e simbólicos do corpo em um contexto marcado por crise ambiental, controle e transformação social.

Pavilion of AUSTRIA. Seaworld Venice. Foto: Andrea Avezzù. Courtesy: La Biennale di Venezia.
O Pavilhão da África do Sul tornou-se símbolo das tensões políticas desta edição após o cancelamento oficial do projeto da artista Gabrielle Goliath. Sua obra Elegy, dedicada a temas de violência, luto e memória coletiva, incluía uma homenagem à poeta palestina Hiba Abu Nada, morta durante o conflito em Gaza. O governo sul-africano considerou o conteúdo politicamente sensível e solicitou alterações. Diante da recusa da artista, o Ministério da Cultura cancelou a participação do país na Bienal, gerando forte reação internacional e acusações de censura e interferência política na autonomia artística. A mostra ocorreu, ao final, financiada por apoiadores privados.
Mais do que denunciar violências, muitos artistas parecem interessados em criar zonas temporárias de pertencimento e reconstrução simbólica. O Pavilhão do Japão exemplifica essa tendência com Grass Babies, Moon Babies, do artista Ei Arakawa-Nash. A instalação participativa propõe reflexões sobre cuidado, parentalidade e responsabilidade coletiva, convidando o público a carregar bonecos com o peso de bebês reais, dissolvendo fronteiras entre esfera privada e espaço público.

Pavilion of JAPAN, Grass Babies, Moon Babies. Foto: Luca Zambelli Bais. Courtesy: La Biennale di Venezia.
Outro aspecto significativo desta edição é a presença ampliada de artistas do Sul Global. África, América Latina, Oriente Médio e Sudeste Asiático deixam de ocupar posições periféricas para assumir protagonismo crítico e conceitual. Em muitos trabalhos, o tempo deixa de ser linear para tornar-se circular, ritualístico e comunitário. A ideia moderna de progresso é frequentemente substituída por noções de coexistência, reparação e interdependência.
A participação brasileira destaca-se pela exposição Comigo ninguém pode, no Pavilhão do Brasil, com curadoria de Diane Lima e obras de Rosana Paulino e Adriana Varejão. O projeto propõe um diálogo entre memória, ancestralidade, espiritualidade e as marcas da colonização brasileira, abordando questões de identidade, resistência e transformação. As artistas evidenciam no espaço físico do pavilhão rastros, fissuras e cicatrizes desse processo histórico. Além da representação nacional, artistas brasileiros também integram a mostra central In Minor Keys. Ayrson Heráclito, Dan Lie e Eustáquio Neves apresentam obras ligadas à ancestralidade afro-brasileira, espiritualidade, corpo, memória e transformação material, reforçando o protagonismo crescente da arte brasileira no circuito internacional.

Ayrson Heráclito, Juntó, 2023-2025. Courtesy: La Biennale di Venezia.

Dan Lie, Ephemeral temple for decaying beings, 2026. Foto: Luca Zambelli Bais. Courtesy: La Biennale di Venezia.

Eustáquio Neves. Foto: Marco Zorzanello. Courtesy: La Biennale di Venezia.
Talvez a 61ª Bienal de Veneza seja lembrada menos pelos grandes gestos espetaculares e mais pela capacidade de tornar visíveis estados de fragilidade compartilhada. Em tempos de polarização extrema e disputas narrativas, Veneza torna-se menos um lugar de respostas e mais um território de perguntas urgentes. Diante do colapso de tantas certezas, a arte reafirma-se como uma das poucas linguagens capazes de sustentar complexidade, diversidade, imaginação e senso crítico.








