Las abalochas bailan para Dhambala, dios de la unidad, 1970. Courtesy McClain Gallery © SDO Wifredo Lam.

DASARTES 158 /

WIFREDO LAM

RETROSPECTIVA DEDICADA A WIFREDO LAM REVISITA A TRAJETÓRIA DE UM DOS ARTISTAS MAIS DECISIVOS DO MODERNISMO DO SÉCULO 20, CUJA OBRA DESAFIOU AS ESTRUTURAS COLONIAIS DA ARTE OCIDENTAL. ENTRE EUROPA E CARIBE, EXÍLIO E RETORNO, LAM CONSTRUIU UMA LINGUAGEM SINGULAR QUE ARTICULA SURREALISMO, POLÍTICA E COSMOLOGIAS AFROCARIBENHAS

A obra de Wifredo Lam ampliou os horizontes do modernismo, criando um espaço significativo para a complexidade e a beleza cultural da diáspora afrodescendente.

Nascido em Cuba, no início do século 20, Wifredo Lam consolidou seus princípios políticos e seu compromisso com a pintura moderna em uma Europa devastada pelas guerras na década de 1930. Seu exílio e o posterior retorno ao Caribe, após 18 anos no exterior, levaram-no a reimaginar radicalmente seu projeto artístico a partir das histórias afro-caribenhas.

The Eternal Present (An Homage to Alejandro García Caturla), 1944. Museum of Art, Rhode Island School of Design (Providence, USA). © SDO Wifredo Lam.

Harpe astrale / Astral Harp / Arpa astral, 1944 © SDO Wifredo Lam.

Para Lam, de ascendência africana e chinesa, dar forma a esse novo imaginário era muito mais do que um meio de autorreflexão. Como declarou de forma célebre, sua arte buscava ser um “ato de descolonização”. Seus experimentos formais, suas figuras e paisagens em transformação e sua afinidade com a poesia e a colaboração lhe permitiram interromper e superar as estruturas coloniais que encontrou tanto na arte quanto na vida. “Sabia que corria o risco de não ser compreendido nem pelo homem comum nem pelo restante do público”, afirmou Lam, “mas uma verdadeira obra de arte tem o poder de fazer a imaginação trabalhar, ainda que isso leve tempo”.

 […] Incapaz de pintar em uma cidade sitiada e adoecido por uma intoxicação química […]

“A Espanha me deu a força e a estrutura da pintura.”

Lam deixou Havana rumo a Madri, em 1923. Com uma pequena bolsa e uma carta de apresentação, foi admitido na Real Academia de Belas Artes de San Fernando para estudar pintura. Durante sua passagem pela academia, Lam explorou sua identidade pessoal e artística. Também se integrou a uma comunidade de intelectuais e artistas modernistas. Passou a experimentar linguagens modernas, como superfícies planas, contornos marcados e o uso de padrões.

The Spanish Civil War. © SDO Wifredo Lam.

O início da Guerra Civil Espanhola, em 1936, teve um impacto ainda maior na trajetória de Lam. Ele se uniu ao exército republicano para defender Madri contra as forças fascistas do general Francisco Franco. Incapaz de pintar em uma cidade sitiada e adoecido por uma intoxicação química decorrente de seu trabalho em uma fábrica de munições, Lam foi enviado para se recuperar em um hospital ao norte de Barcelona. Ali, realizou sua maior pintura até então, La Guerra Civil (1937), que marcou sua afirmação como um artista moderno e politicamente engajado. Após a vitória franquista em 1938, Lam se mudou para Paris.

Los invitados, 1966. Colección Patricia Phelps de Cisneros. © SDO Wifredo Lam.

“Pintava sem descanso… tanto que meu pequeno quarto de hotel ficou tomado, e eu mal conseguia me mover.”

Lam fugiu da Espanha e chegou a Paris em maio de 1938. Continuou trabalhando sobre papel, pintando figuras planas e simplificadas, com rostos inspirados em máscaras africanas. Conheceu o artista Pablo Picasso, o poeta André Breton e outras figuras da vanguarda parisiense. Após a invasão nazista da França, em maio de 1940, Lam foi obrigado a se exilar pela segunda vez e partiu para Marselha, então uma cidade não ocupada, em busca de uma rota segura para fora da Europa.

Durante os oito meses seguintes, Lam frequentou a Villa Air-Bel, onde Breton e diversos artistas e intelectuais deslocados haviam se refugiado. Ali, participou da criação de desenhos coletivos. “Praticávamos o surrealismo… tentando nos libertar de nossas preocupações e medos”, recordou Lam. Inspirados pela liberdade inerente a essas colaborações, seus desenhos desse período combinam formas animais, vegetais e humanas – um estilo que passaria a caracterizar sua obra a partir de então. Em março de 1941, Lam e mais de trezentos passageiros partiram rumo à Martinica.

Young Woman on a Light Green Background, 1938. © SDO Wifredo Lam.

 

“Meu retorno a Cuba significou, sobretudo, um grande estímulo para a minha imaginação. […] Sempre respondia à presença de fatores que emanavam de nossa história e de nossa geografia, das flores tropicais e da cultura negra.”

Lam chegou a Cuba em 1941, após 18 anos no exterior. Foi “um momento”, recordou, “de grande angústia e, talvez, de grande alegria”. Embora se sentisse aliviado por ter escapado da guerra, também foi obrigado a enfrentar o impacto duradouro do que mais tarde chamaria de “todo o drama colonial da [sua] juventude”.

The Jungle, 1942–43. The Museum of Modern Art, New York. © SDO Wifredo Lam.

Ao poder se dedicar novamente à pintura, trabalhou incansavelmente, produzindo 150 guaches sobre papel, em 1942. Essas obras desenvolvem os delicados desenhos lineares que havia realizado em Marselha. À medida que suas pinturas cresciam em complexidade e escala, Lam começou a incorporar imagens de folhas de tabaco e talos de cana-de-açúcar – plantas vinculadas à história das plantações em Cuba. No final de 1942, iniciou A selva (1942-1943), uma pintura que imagina um mundo em que a arte africana dialoga com a paisagem caribenha.

“A África não apenas foi despojada de grande parte de sua população, como também de sua consciência histórica. […] Procurei recolocar os objetos da cultura negra em seu próprio território e em relação com seu próprio mundo.”

Yo soy, 1949. © SDO Wifredo Lam.

A prática de Lam mudou drasticamente após sua primeira viagem de retorno à Europa, em 1946. Ver Paris depois da Segunda Guerra Mundial o afetou profundamente. Além disso, ele passou a se desiludir cada vez mais com a relação colonial da Europa com a África e o Caribe.

Quando Lam retornou a Cuba, levou consigo esculturas africanas e oceânicas e redobrou seus esforços para aperfeiçoar uma prática que conectasse os elementos poéticos e formais das culturas diaspóricas. Abandonou a vegetação exuberante e as cores vibrantes do início da década de 1940 em favor de figuras escultóricas representadas em uma paleta rica e escura. “De repente, minha pintura voltou a adquirir dramatismo”, afirmou. “Quis sacrificar todos aqueles aspectos encantadores da pintura para ser mais direto, mais preciso em minha proclamação.”

“Fui considerado um pintor da Escola de Paris, um pintor surrealista… mas nunca como um representante da pintura que realmente faço e na qual acredito refletir, em grande medida, a poesia dos africanos que chegaram a Cuba – poesia que ainda guarda, escondida em seus cantos, muita dor.”

Lam levou suas pinturas a uma escala e a um propósito ainda maiores, como se pode ver em sua maior obra, Grande Composition (1949). Desenvolveu também a série femme-cheval, na qual representou as chamadas mulheres-cavalo em diversos estados de transformação – uma reinterpretação do retrato clássico e da possessão religiosa.

Grande Composition, 1949. The Museum of Modern Art, New York © SDO Estate of Wifredo Lam.

Embora ainda residisse em Havana no início dos anos 1950, Lam viajou intensamente pelos Estados Unidos, França e Itália. Após o golpe militar de Fulgêncio Batista, em 1952, Lam deixou Cuba de forma definitiva e se estabeleceu em Paris.

“A selva não existe na ilha… O que existia ali era a manigua.”

Sin título, 1958. Serie Brousse © SDO Estate of Wifredo Lam.s

A partir de 1954, Lam passou a frequentar a cidade costeira de Albissola Marina, no Norte da Itália, que se tornou um importante espaço de experimentação durante o restante de sua vida. Ali, em 1958, iniciou uma série de pinturas conhecida como Brousse (Manigua). Essas obras mostram o desenvolvimento de um tema por meio de múltiplas composições. Talos de cana-de-açúcar se entrelaçam em uma densa rede, enquanto formas energéticas semelhantes a pássaros, rombos e espinhos se cruzam dentro e fora do primeiro plano. Essas obras quase abstratas marcam o renovado interesse de Lam pela vegetação densa da paisagem cubana conhecida como manigua. Trata-se de um espaço sagrado e de grande importância histórica, que serviu de refúgio para escravizados fugitivos, lutadores pela independência e, no momento em que Lam produzia essas pinturas, revolucionários.

“Meu desejo seria que a pintura não fosse uma ficção, mas a própria vida, para transformá-la.”

Lam se estabeleceu definitivamente em Albissola Marina, em 1962, mas continuou viajando e expondo amplamente. Em 1963, quatro anos após a Revolução Cubana, o artista foi convidado a visitar Havana, onde, mais tarde, em 1967, coorganizou a edição cubana do Salon de Mai francês. O renomeado Salón de Mayo reuniu mais de cem artistas, a maioria dos quais colaborou com Lam na realização de um mural coletivo portátil.

Horse-Headed Woman 1950, The Rudman Trust © SDO Estate of Wifredo Lam. Photo Joaquín Cortés y Joaquín Lores.

Nas últimas décadas de sua vida, a rede artística de Lam na Itália se expandiu à medida que ele passou a se dedicar a disciplinas com as quais até então havia apenas experimentado. Trabalhando com o gravador Giorgio Upiglio em seu ateliê Grafica Uno, em Milão, criou numerosas séries de gravuras e portfólios colaborativos com escritores e poetas. Esses projetos testemunham o intercâmbio generativo entre poesia e imagem, uma constante ao longo da carreira do artista. Lam passou a se dedicar à cerâmica em 1975 e produziu mais de trezentas peças de cerâmica que materializaram sua visão em uma forma física tangível. Embora Lam tenha sofrido um derrame cerebral em 1978, que limitou sua mobilidade, continuou trabalhando até sua morte, em 1982.

Beverly Adams é curadora Estrellita Brodsky de Arte Latino-Americana do The Museum of Modern Art (MoMA).

WIFREDO LAM: WHEN I DON’T SLEEP, I DREAM •
THE MUSEUM OF MODERN ART (MoMA) •
NOVA YORK • EUA • 10/11/2025 A 11/4/2026
As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.
Compartilhar:

Confira outras matérias

Destaque

RUTH ASAWA

Ao desafiar distinções entre abstração e representação, figura e fundo, espaço negativo e positivo, a obra de Ruth Asawa (1926–2013) …

Reflexo

Carlos Garaicoa

Toda utopía pasa por la barriga, 2024

“Toda utopía pasa por la barriga é uma instalação na qual trabalhei de 2008 …

Reflexo

MAHKU

Por Bane Huni Kuin
 

NA HENEWAKAMÊ

NA HENEWAKAMÊ representa a música da nixi pae (ayawasca). Para mim, ela é importante, pois representa …

Reflexo

MARILÁ DARDOT

O livro de areia

“Quando eu era estudante de artes na Escola Guignard, a Piti (Maria Angélica Melendi) nos deu como …

Panorama

BEATRIZ GONZALEZ

A artista colombiana Beatriz Gonzalez nasceu em Bucaramanga, Colômbia, em 1938. Iniciou seus estudos em arquitetura, mas os abandonou para …

Destaque

KERRY JAMES MARSHALL

A prática de Kerry James Marshall é fundamentada em um profundo envolvimento com as histórias da arte. Ele reimagina e …

Do mundo

KIRCHNER

KIRCHNER X KIRCHNER: COLORIDO, POTENTE, PIONEIRO

Quando Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938) emigrou para a Suíça, em 1917, encontrava-se em má condição …

Capa

ÉDOUARD MANET

ÉDOUARD MANET: O REBELDE ELEGANTE QUE REINVENTOU A PINTURA MODERNA

Édouard Manet (1832-1883) foi, antes de tudo, um homem de Paris …

Reflexo

ANDRÉ GRIFFO

Sala dos provedores, 2018
“Nesta obra, tomo como ponto de partida o interior da Santa Casa de Misericórdia do Rio de …

Garimpo

FELIPPE MORAES

“Esses trabalhos compreendem a música brasileira e, mais especificamente, o samba, como um saber ancestral disseminado pelo mundo. Recorro a …

Capa

TAMARA DE LEMPICKA

“A BELEZA É UMA ARMA”
Reconhecido por suas sucessivas rupturas e pela constante busca pelo novo, o Modernismo não foi capaz …

Alto relevo

POP BRASIL

Desconsiderando a narrativa linear ou um eixo unívoco, a curadoria aposta na multiplicidade de formas, discursos e contradições, assumindo a …

Capa

WAYNE THIEBAUD

WAYNE THIEBAUD: O ROUBO COMO ARTE
Os bolos e as fatias de torta de Wayne Thiebaud (1920-2021), pintados com cores pastéis …

Reflexo

Carmela Gross

Quando eu fiz a primeira ESCADA (a de 1968), aquilo era quase um jogo. A escada estava lá. Eu só …

Do mundo

PINO PASCALI

Nascido em Bari – no extremo Sul da Itália, em 1935, Pino Pascali se mudou para Roma – onde frequentou …